13 novembro 2014

Os heróis nunca morrem


Passava das onze da noite quando cheguei em casa ontem, quarta-feira 12 de novembro de 2014. Eu voltava da Universidade, onde um encontro riquíssimo com os alunos havia me oferecido uma noite tranquila e animadora. Minha esposa, recalcitrante, me informou, então, que morrera Leandro Konder, aos 78 anos, no Rio de Janeiro. Despenquei a chorar. Entre lágrimas, soluços e uma enorme sensação de solidão no peito, percebi que um pedaço de mim nunca mais seria igual. Eu acabara de perder a minha mais importante referência profissional e humana, o homem que me ensinou, com sensibilidade e extrema generosidade, a ver o mundo, sentir a história, entender os ásperos caminhos do pensamento e da ação.

Leandro Konder é o mais importante pensador marxista brasileiro. Esse status não se encerra com sua morte. Ao contrário, estende-se, dilata-se, posto que a crise contemporânea do marxismo, que ele com humor e certa melancolia sempre denunciou, dificultará o surgimento de um intelectual tão completo quanto ele. Tenho a alegria de dizer que foi Leandro que me devolveu a Marx, após anos perdido, em busca de minha identidade ferida, desesperançada e agonizante.

O Marx que Leandro me apresentou era um humanista pouco lembrado pelo seu estranho séquito ancestral de seguidores. Era um Marx de método radical e postura política inabalável, um revolucionário convicto, um libertário aberto aos tantos e imprevisíveis rumos do tempo histórico. O Marx que Leandro me deu de presente com suas obras era, antes de tudo, um autor de diálogo franco com a diversidade, o arquiteto da “unidade na diversidade”, um militante pela onilateralidade dos humanos, reunidos no mundo do trabalho, reorientados permanentemente pelas andanças da história. O Marx que Leandro me fez conhecer está nas releituras dialéticas de Lukács, Benjamin e Gramsci – um filósofo, portanto, romântico e utópico (ao mesmo tempo, científico e dado a contumazes racionalizações), filho do século XIX, herdeiro do vasto repertório de conhecimentos conquistados pela humanidade.

Gratuitamente e sem saber de nada, Leandro propôs meu renascimento intelectual. Na prova didática que fiz no concurso público que me conduziu a UEL, Leandro foi protagonista: a todo instante, lá estava ele, buscando com a humildade que lhe era mais do que característica, convencer a mim e à banca de examinadores que a realidade é inesgotável, infinitamente maior que a capacidade humana de cercá-la, compreendê-la. Mais uma vez, em vista de minha aprovação conquistada de modo quase surreal (nas sinuosidades infinitas da verdade), Leandro demonstrou estar certo na sua leitura do velho barbudo.

Foi na divulgação inteligente das origens, tendências e tradições socialistas que Leandro Konder se destacou ainda mais. Seus estudos e escritos sobre Fourier, Hegel, Benjamin e tantos outros autores plurais e diversos entre si enriqueceram o debate e tornaram mais forte o marxismo na batalha das ideias. Quatro de seus quase trinta livros - “O futuro da filosofia da práxis”, “Fourier, o socialismo do prazer”, “Walter Benjamin, o marxismo da melancolia” e “A questão da ideologia” - tatuaram minha cosmologia de esquerda e me proporcionaram belas estradas e veredas, invariavelmente tropicais e ensolaradas.

No final de 2008, Leandro lançou suas “Memórias de um intelectual comunista”. Com texto ágil, delicado e sempre surpreendente, narra sua trajetória de vida, revelando sabores e dissabores, encontros e desencontros. Acredito que até hoje seja o livro que mais vezes li. Umas seis ou sete, no mínimo. Foi graças a esses escritos autobiográficos que fui recebido por Leandro e sua família, no seu apartamento no Leblon, em 17 de janeiro de 2009.

Escrevi uma resenha das memórias e a publiquei no meu blog. Leandro Konder ficou sabendo do texto e me enviou uma mensagem, agradecendo o que considerava um gesto generoso de minha parte. Respondi ao e-mail, relatei-lhe minha admiração e, quando estávamos de férias em Copacabana, eu e minha família fomos recebidos por Leandro e Cristina, sua eterna companheira, numa tarde que se tornou um divisor de águas em minha vida.

Leandro e eu conversamos sobre poesia, a crise do marxismo, um pouco da política brasileira, livros, coisas do mundo que tornam tudo mais leve e valioso. De presente, ganhei uma caricatura do meu filho João Gabriel, que estava lá conosco. Leandro achou que o desenho representava uma criança mais velha; então, escreveu que se tratava de João aos oito anos. À época, meu filho mal havia completado dois anos de idade. Interessante é observar que Leandro viveu até que João comemorasse seus oito anos, uma semana atrás...


A inteligência, a personalidade afável, os rica e fartamente revelados episódios de amor ao mundo, tudo isso, sem dúvida, tornam Leandro um homem inesquecível e marcante para o país e a história das ideias. Seu caráter imprescindível, contudo – para falar com Brecht, dramaturgo biografado por Konder -, está na coerência, nos traços de militância e caráter que o fizeram atravessar a existência lutando sempre do mesmo lado, alimentando a autocrítica, não capitulando, não se entregando às durezas da crise ou às seduções da moda. Nesse sentido, Leandro é joia rara e vistosa, que precisa ser preservada e amplamente divulgada, admirada, cortejada.

Aqui em casa, no meu pequeno escritório, mantenho na parede a caricatura do João desenhada por Leandro e duas fotos que tiramos lado a lado em nosso encontro no Rio. Esses quadros me protegem, me inspiram, me recordam a toda hora quem sou, de onde venho, aonde quero chegar, de que jeito, com quais valores no coração e com quais bandeiras erguidas.


Vou seguir sonhando um dia ser um comuníada como Leandro, que, em reuniões mensais no casarão de Zelito Viana, no Cosme Velho, escrevia poemas aos amigos de longa data e velhas batalhas, todos meio comunistas, meio lusíadas de Camões. Acho que esta é a melhor síntese de Leandro: paixão poética pela revolução, a qual se dá, antes, na alma e, depois, no mundo em que essas almas se encontram e lutam. Nessa luta, aliás, a alma de Leandro estará sempre presente.

Num dos últimos e-mails que trocamos, em 29 de março deste ano, escrevi que estava bastante cansado e desanimado, julgando que o marxismo poderia se tornar para mim uma sentença ao esquecimento, em vista de tanto conservadorismo em alucinante ascensão na sociedade brasileira. Com as palavras suaves e atraentes costumeiras, Leandro me respondeu: “A carroça do marxismo é pesada e as estradas, difíceis, mas não podemos desistir, Marco Antonio. É preciso fazer um esforço maior, pois somos poucos. Persista em sua caminhada, porque uma coisa é certa: você não está sozinho.”

Leandro me chamava de Marco Antonio, como minha avó, como as pessoas que ainda levam a sério essa coisa de nomes duplos, carinho e identidade pessoal, sem os falsos tratamentos por sobrenome. Se eu tinha alguma dúvida quanto às minhas ideias e defesas, esse e-mail as dirimiu para sempre. É incrível como um homem que carregou por vinte anos as dores e os limites impostos pelo Parkinson era capaz de ser tão amável e altruísta. Leandro, sem exageros, me ensinou o valor da vida, sua inesgotabilidade diante dos maiores e mais difíceis desafios.

Hoje, uma quinta-feira em que o sol não brilha diante dos meus olhos de modo algum, sinto-me órfão mais uma vez. Há cinco anos perdi meu pai. Ontem, meu herói. O que me faz seguir em frente, desafiando o futuro e sonhando mais e mais, é ter certeza de que os heróis nunca morrem.