24 dezembro 2015

Lista de desejos para o Natal e 2016


O ano de 2015 foi mesmo difícil. Politicamente tenso. Economicamente pobre. Culturalmente assustador. É como se os guardiões do tempo tivessem descansado e largado a humanidade à própria sorte. Aliás, afirmar que este foi um ano da mais pura falta de sorte é só a maneira menos trágica de dizer que vivemos um ano de contumaz azar e grosso revés.

É compreensível, portanto, que todos queiramos o fim de 2015. Se possível fosse, adiantaríamos o relógio em uma semana e cairíamos ainda hoje, durante os brindes e festejos de Natal, em 2016. Seria um presente extraordinário e inesquecível. O fato, contudo, é que a chegada do ano novo não trará, em si, pessoas melhores, cenários mais belos, histórias mais justas. O ano novo está nos nossos sonhos e só pode se materializar nas nossas lutas cotidianas. 

Sei que estamos a poucas horas do Natal e o simbolismo da data pede que sejamos esperançosos (naquele inadequado sentido de “esperar” e nada realizar). Na vida, entretanto, o milagre somos nós, aquilo que pensamos e os resultados de nossas palavras e ações.

Por isso, fiz uma lista de desejos (pelos quais lutarei todo dia em 2016), os quais contêm expectativas e votos de grande expansão e disseminação.

Que o ano novo transborde palavras mais generosas e ideias mais estimulantes – e desapareçam a obscuridade e o ódio.

Que a partir de 1º de janeiro de 2016 reinem tranquilas e soberanas a beleza e a bondade – e seja para sempre extirpado de nosso convívio o abscesso horrendo das mentiras e da dissimulação.

Que o novo tempo traga mais luta – e encerre os longos e insistentes períodos de luto.

Que José Eduardo Agualusa, Luis Fernando Veríssimo, Gregório Duvivier, Vladimir Safatle, Márcia Tiburi e Guilherme Boulos escrevam muito mais nos jornais e revistas – e os cronistas e publicistas de direita se cansem do ofício de driblar o bom senso, a verdade e os livros de história.

Que passemos mais dias na praia – e o mínimo necessário em frente a computadores.

Que viajemos mais – e aprendamos a sair do chão.

Que dancemos como loucos – e desconfiemos sempre de quem não pratica um bom dois-para-lá-dois-para-cá.

Que se multipliquem os investimentos na educação pública – e sejam esquecidos os acréscimos de dinheiro público nas instituições de ensino privadas.

Que na política haja mais Chico Alencar e menos Eduardo Cunha. Que brilhe mais Jean Wyllys e apareçam muitíssimo menos Bolsonaro e Feliciano. Enfim, que resplandeça o PSOL e se apaguem o PMDB e seus genéricos e similares.

Que conquistem mais corações Leonardo Boff e Frei Betto – e caiam no anonimato Malafaia e afins.

Que sejam produzidas dezenas de programas Havana Connection na internet – e os leitores de Veja e da grande imprensa sejam tomados pela vontade de questionar pelo menos um pouquinho o que leem.

Que toque boa música em toda parte, que se leiam grandes livros mundo afora, que filmes inteligentes e divertidos reúnam à sua frente turmas e famílias inteiras – e o já famoso lixo cultural seja incinerado nos aterros da memória coletiva.

Que role mais bola na praça e ocorram mais caminhadas nos parques – e as redes sociais inspirem menos, muito menos.

Que triunfe o Fluminense e se propague pela América e pelo mundo a alegria tricolor – e no futebol desapareçam de vez a velha cartolagem, os erros criminosos de arbitragem e os programas esportivos obtusos.

Que a maioria dos comentadores e compartilhadores nas redes sociais descole um emprego ou encontre uma boa roça para carpir – e o bom debate seja travado com brindes à boa educação e afagos à inteligência.

Que seja apreciado o pôr-do-sol – e desligada de vez em quando a rede Wi-Fi.

Que se caminhe demoradamente pelo campus da UEL – e sejam ignoradas as atribulações e tarefas estafantes e nada produtivas.

Que se multipliquem as delícias do amor – e se vão as dores no coração.

Que pululem as ideias para debater - e suma a vontade de bater naqueles que têm ideias.

Que vinguem mais produções originais Netflix – e percam todos os telespectadores o jornalismo da desgraça e os humorísticos sem graça nenhuma.

Que 2016 seja um ano de muita Sociologia – e bem pouco positivismo, quase nenhum formalismo, nada de filosofia de boate.

Que as bibliotecas recebam milhões de visitantes – e o Google seja abandonado de vez em quando.

Que sobre tempo – e falte preguiça.

Que abraços, beijos e momentos acalorados absorvam os amantes – e o desamor do capital seja desmascarado como ilusão.

Que toque muito Pearl Jam e Zé Geraldo por aí – e tenham pouco ânimo os baluartes da indústria cultural.

Que os bolsos se enriqueçam na mesma proporção dos espíritos – e a vida deixe de ser vista como uma mera mercadoria.

Que a esperança que conduz a mais voz e vez soterre o medo, a mordaça e os sujeitos de colarinho branco.

Enfim, que neste Natal um lindo conto de paz e paixão seja lido a céu aberto para toda a humanidade – e seja 2016 o ano de início da conversão deste conto em doce e revolucionária realidade.

23 dezembro 2015

Oração ao arqueólogo do futuro


Alguns anos atrás, a Agência Carta Maior publicou uma série de textos num especial intitulado “Ao arqueólogo do futuro”. Notáveis da literatura, do pensamento social, da ciência e das artes escreveram artigos endereçados àqueles que, após a extinção da humanidade, viriam de outras galáxias para tentar descobrir o que pensamos, fomos e fizemos. Enfim, os extraterrestres estariam interessados nos motivos de nossa extinção e dariam aos tribunais do universo um parecer de justiça ou injustiça quanto ao nosso desaparecimento.

Os convidados do projeto escreveram, em sua maioria, em defesa de nossa história comum. Filmes, livros, discos, lutas que merecem lugar de destaque em qualquer lugar deste ou doutro planeta rechearam seus argumentos. Em cada texto, o que havia eram mensagens aos exploradores espaciais, dando-lhes dicas sobre o que procurar e levar em conta antes de considerar os seres humanos um projeto falido desde a nascença.

Se o fim viesse hoje, por exemplo, seria pouco sensato desconsiderar o nível a que chegamos na evolução técnico-científica; na beleza de nossa arquitetura em cidades de todo o mundo; na trajetória de lutas dos povos dos cinco continentes em favor da liberdade e da justiça; na precisão instrumental e emotiva do cinema; na imaginação de nossas sendas literárias; na suavidade de nossa poesia; no caráter paradisíaco de nossas praias, montanhas e dádivas naturais; no essencial de nossas lições de solidariedade em face do outro, do menos favorecido. Apesar da extinção – que teria vindo da ambição de poder e guerra de alguns poucos e da fúria irracional contra o meio ambiente de corporações e parceiros do absurdo -, os vestígios de nossa presença na Terra revelariam também epopeias de amor, resistência e coragem.

Às vezes, considero que estamos bem próximos do aniquilamento. Melhor: que já vivemos num estágio posterior, algo como uma existência depois do fim do mundo. Há muito o que lamentar nos dias atuais. Da política que anda para trás (revirando túmulos de farsas e tragédias seculares) à economia que diz amém às desventuras mais insanas de investidores sedentos por muito lucro e quase nenhum trabalho, o tempo presente tem sido angustiante. Como de supetão, ideias que pouco tempo atrás se envergonhavam de si mesmas e pessoas que evitavam se olhar no espelho ganham às redes sociais na internet e, em vários momentos, as ruas e vielas urbanas de todo o planeta, pregando soluções fáceis e estúpidas para questões difíceis e exigentes. A defesa do indefensável abraçou o senso comum, colidiu contra a inteligência e se converteu em comentário de internet. Mais do que nunca, todos são agora especialistas em política, cultura e sociedade. E para chocar ainda mais a velha e desgastada razão iluminista, a ética virou uma mercadoria como outra qualquer, cujo valor está no interesse mesquinho e insalubre mais urgente.

Se chegasse a visitar nossos escombros “civilizatórios”, o arqueólogo do futuro teria convulsões ao ler comentários fascistas em algum smartphone resistente a hecatombes. Ele provavelmente se perguntaria se aquilo foi verdade ou mentira, tamanha a falta de razoabilidade expressa nas palavras – sem falar, é claro, nos insultos incessantes contra a língua portuguesa, uma das mais sofridas vítimas dos neofascistas da rede. Para evitar o mal-estar, prefiro acreditar que os absurdos que leio nos perfis de alguns indivíduos são sempre mais uma postagem do site de humor “O Sensacionalista”. Dói menos.

Há multidões ávidas por visibilidade na sociedade contemporânea. A internet, que não se fez acompanhar de mais leitura e muito mais sensibilidade, deu margem aos delírios dos ex-anônimos. Da inocência pueril dos autorretratos nas praças de alimentação do shopping center às fotografias tiradas em frente a espelhos para mostrar corpos e adornos, o desfile de egos é uma lei em expansão. Em restaurantes, salas de aula, sofás de casa, pontos de ônibus, filas de banco, praças, praias e parques, lá estão os indivíduos e seus aparelhos portáteis conectados às redes sociais, compartilhando o buraco do mundo que se encontra na pré-existência daqueles que não têm um sentido para a vida. Repito: esse enorme vácuo, contudo, não entristeceria os arqueólogos do futuro, uma vez que nada desnudam, nada inspiram. O problema é a delinquência que faz escola, o ruído obtuso daquilo que Hannah Arendt chamou de vazio do pensamento, hoje alocado com pompa e circunstância nos feeds do Facebook, do Twitter etc.

Discursos e sentenças de orientação misógina, machista e homofóbica são comuns no mundo virtual (aqui a ideia de virtual, infelizmente, tem tudo para se tornar um porvir, um provável cada vez mais comum na vida real). Muitas vezes travestidos de “piada” ou “simples brincadeira”, os insultos apontam para os caminhos do ódio e da incongruência, da intolerância e do desapego à democracia como um valor universal. Moralistas e desavergonhados, os comentadores da internet gritam que são censurados toda vez que alguém questiona seus absurdos. Dizem-se liberais, sem ter a mínima ideia do que isso, de fato e historicamente, significa. Acusam de “comunistas” e “bolivarianos” (pasmado, caro leitor?) aqueles que julgam a razão do atraso do mundo. Na prática, entretanto, nem liberais conseguem ser, posto que são mesmo autoritários, intransigentes e, não raro, covardes.

Rogo aos céus que os arqueólogos do futuro não encontrem na Terra notebookstabletscelulares e nenhum tipo de computador que porventura tenha pertencido a esses exemplares desumanizados da espécie. Rogo ainda mais que nossos vistantes sejam incapazes de estabelecer conexão com algum servidor de internet perdido soterrado nos destroços de nosso servilismo à barbárie que, um dia, teria (ou terá) nos exterminado.

Ao mesmo tempo – graças a Deus, a vida é pura contradição! -, torço pela sobrevivência da obra literária e poética de Mia Couto, Machado de Assis e Manoel de Barros; da discografia do Pearl Jam, dos Beatles e do Led Zeppelin; da rebeldia de Bob Dylan e Che Guevara; dos filmes de Stanley Kubrick e Ken Loach; das ideias de Antonio Gramsci e Walter Benjamin; dos amores impossíveis e inspiradores das pessoas simples e sonhadoras que existem aos montes na vida real (e também virtual).

Ao arqueólogo do futuro caberá saber separar o joio da joia. Oremos.

30 novembro 2015

O diário mais antigo da motocicleta


Confesso que me entristece não poder me dedicar com mais entusiasmo a este blog. Quando o criei, em 2005, a ideia era escrever diariamente e transformá-lo numa ferramenta de comunicação direta com a realidade. "Aconteceu? Vai pro blog!" - eu sonhava.

Mais de dez anos se passaram, muita coisa foi publicada aqui. Muita mesmo. Meus poemas, minhas crônicas, alguns de meus artigos científicos, pequenas biografias, impressões sobre livros, filmes e discos. De várias maneiras, criei de fato um espaço de cultura socialista.

Neste longo 2015, fiz muito pouco pelo blog. Rabisquei e esbocei textos em excesso, mas converti pouquíssimos em material para compartilhar. Não vou prometer, mas vou tentar de verdade ser menos relapso em 2016.

Bom, eu não poderia deixar novembro passar em brancas nuvens. Então, publico hoje uma imagem que me acompanhou na tela do computador, do notebook e do celular durante todo o mês. A singeleza do desenho conta muito sobre sua beleza e sua complexidade. Gramsci, à altura de sua majestade, nunca se importou em aceitar a carona de Marx. O velho barbudo, pelos caminhos de sua generosidade, sempre se abriu à vitalidade da interpretação gramsciana dos seus escritos, No fim, ganhamos nós, os marxistas impenitentes deste século XXI, tão atribulado quanto carente de utopias e lutas.

31 outubro 2015

Espaço de captura


Foto-arte do genial Erik Johansson

Hoje, 31 de outubro de 2015, faz um ano que foi ao ar minha última coluna no extinto CBN Cidadania. Lembro que era um comentário entusiasmado sobre o filme brasileiro "O lobo atrás da porta". Como a insatisfação com o "ambiente" de trabalho já ocorria fazia um bom tempo, já se passa bem mais de um ano que não ouço nem um segundo da programação nacional e local da estação afiliada das Organizações Globo.

Nesse período, confesso, ainda não sei se o fim de minha coluna eletrônica diária me fez mais bem ou mais mal. Sinto falta da disciplina de redigir diariamente um comentário, de estar o tempo todo ligado no que acontecia em Londrina, no Brasil e mo mundo. A intenção - não sei se concretizada para valer - era oferecer um contraponto às opiniões hegemônicas disseminadas pelos grandes veículos de comunicação. Intimamente (e pela palavra de muitos amigos próximos), eu julgava cumprir ao menos parcialmente esse difícil papel.

Alguns meses atrás, desisti de uma ação judicial que movia contra a rádio por perdas e danos morais e materiais. A vitória, alertavam-me os advogados, era certa. Mas, honestamente, preferi declinar: a ideia de adquirir bens tangíveis ou intagíveis com dinheiro que viesse por indenização daquele grupo empresarial (e em particular de seu inclassificável diretor geral) me causava calafrios. Continuo convicto de que tomei a decisão certa. Graças a isso, mantenho minhas mãos limpas e olho meu filho de cabeça erguida e coração aberto.

Entristece-me que, após minha saída da rádio (uma demissão efetivada pelo telefone através de uma funcionária de segundo escalão), nenhum veículo comercial de Londrina tenha sequer respondido aos meus acenos interessados de a eles levar meus escritos e narrativas - nenhuma rádio, nenhum dos dois jornais impressos, nada.

Duas hipóteses para essa indiferença me parecem as mais plausíveis: ou o que eu fazia era ruim (e eu quero acreditar que isso possa ter acontecido em alguma medida, posto que estou de modo recorrente tentando melhorar e avançar), ou os "donos da mídia" em Londrina de fato tomam café, almoçam e jantam juntos todos os dias e noites, fritando em óleo quente seus opositores e desafetos - e com eles se senta à mesa uma expressiva parcela dos políticos locais, é óbvio. A segunda hipótese me parece mais compatível com a realidade das comunicações no país e com o histórico coronelismo midiático de Londrina.

O italiano Umberto Eco criou uma categoria analítica interessante para explicar a presença de sujeitos de esquerda no seio dos veículos de comunicação oligopolizados em todo o mundo: "espaço de captura". Creio que seja um cálculo frio e bastante preciso. Para cada visão crítica e autônoma, dez comentaristas empastelados e cooptados são produzidos e levados à "opinião pública", de modo que a letra independente se perca facilmente no vácuo e surja diante da população como algo excêntrico, um ponto fora da curva incapaz de produzir alguma coisa a mais.

Olhando em retrospectiva e recordando nome e opinião dos colunistas da CBN em Londrina e em todo o país, ilumina-me as ideias o conceito de Umberto Eco. Fui "capturado" para que os "donos da mídia" não parecessem sectários e exclusivistas, soassem democratas e liberais, quando, na verdade, minha presença em seu time de comentaristas reforçava exatamente o contrário, de modo sutil e bastante perverso, ideologicamente programado e eficaz. No fundo, fiz o que queriam que eu fizesse: falasse às moscas do estúdio onde gravava de modo tão apaixonado meus comentários de mínimo alcance.

Agora, exatamente um ano depois, dou por encerrada definitivamente essa parte de minha história. Tenho uma vida acadêmica para curtir e alimentar. É possível que dia desses apareça uma oportunidade para escrever num bom jornal. Quem sabe, não? Até lá - antes e depois - sigo em frente, fazendo o que sei e defendendo as coisas, pessoas e ideias em que acredito, sem me vender nem me emprestar - ainda que quase sempre levando para casa um bom monte de ilusões.

04 outubro 2015

Sinto falta



Sinto falta daquele
clima, daquela
gente, daquelas
tardes de garoa.

Sinto falta de
tudo, de mais
um pouco, todo
dia, das
canções, dos
acordes
de guitarra, da
cerveja que
prometia
o mundo
inteiro, no
abraço, no
riso livre, no
amanhã
generoso, nosso,
deles, de
todos.

Sinto falta de
não sentir falta, de
não chorar, de
não lamentar.

Sinto falta de
ontem, das lutas
que travei, da
advogada com a qual
não casei, do
sujeito que fui, da
justiça que ansiei, do
tempo pleno, dos
amores pueris e
platônicos, do
sexo imaginário e
vibrante, do
beijo que anunciava
a revolução.

Sinto falta das
velhas ruas, dos antigos
companheiros, dos
sonhos que
deixei
morrer, do
disco que
não gravei, do
festival em que
não toquei, do
coração que
não encontrei.

Sinto falta
de mim.

30 setembro 2015

Algumas palavras para setembro


Percebi ontem à noite que não havia publicado nada no blog neste mês de setembro. Se essa imperdoável distração tivesse se consumado, seria a primeira vez em anos que um mês passaria literalmente em branco aqui no Espaço.

Quando criei o blog, em 2005, a ideia era atualizá-lo semanalmente, com um conto, uma crônica, uma poesia ou uma análise à esquerda do mundo. Nunca tive o intuito de escrever diariamente no Espaço, até porque o blog não trabalha assuntos quentes nem apresenta sinais de apelo comercial. Muito mais do que um diário eletrônico, este blog é um lugar para discutir ideias e valorizar personagens da história, apontando temas que exigem algum olhar afeito a complexidades. Para isso, contudo, tempo é ingrediente indispensável.

Mergulhado nos afazeres cotidianos e tomado pelas exigências acadêmicas, sinto-me premido pelo pouco tempo e acabo me indispondo ante o compromisso de escrever mais por aqui. Confesso que me dedicar mais ao blog é um plano antigo e bastante desejado. Apesar das dificuldades inerentes à velocidade cruel da vida contemporânea, não vou desistir desse plano. Neste último terço de 2015 escreverei mais; transformarei meus manuscritos e rascunhos em texto para todos – inclusive para mim mesmo.

Com essa autocrítica – impiedosa demais? –, deixo algumas sentenças para setembro, palavras parceiras da primavera, das chuvas que se seguem aos dias de sol abrasador e da Lua que, por vezes, nos lembra poeticamente do vermelho - a cor dos corações revolucionários.

20 agosto 2015

Voz


A mesma voz
toda manhã
cantava-me
a velha canção.
Eu ouvia
de olhos fechados
e corpo aberto,
pronto para
amar a voz,
o corpo
que cantava.
Depois de acordar,
a voz sumia,
nunca voltava,
ignorava meu pranto,
meu suspiro,
tudo de mim.
A voz doce
do cantar sedutor
nunca existiu,
nunca me cantou:
foi um vento
quente que senti,
me deu calor
e se foi,
sem jamais
ter me tocado.

24 julho 2015

Vida cotidiana e pensamento crítico


Publicado originalmente no jornal A Cidade, de Cornélio Procópio/PR, em 06 de junho de 2004.

O lugar de nossa experiência é a vida cotidiana. O trabalho, o espaço da família, de nossos hobbies, nossas preferências musicais, literárias, gastronômicas, bem como as cidades, as praças, as festas, as casas e as lojas que gostamos de frequentar, tudo isso é o grande quadro de práticas e impressões que nos lapidam o caráter, formam a consciência que temos (ou podemos ter) da vida e do mundo.

Há, contudo, na experiência de nossa existência cotidiana, uma grande armadilha, uma cilada das boas. Raras vezes percebemos que nos limites e pressas de nossa vida diária não existem meios para refletirmos com mais cuidado sobre os acontecimentos que nos circundam, que nos envolvem, que nos tomam de corpo e alma. Limitados pela nossa existência pessoal intransferível e muitas vezes difícil e “suada” (família, trabalho, etc.), usamos dinheiro, brigamos por ele, poupamos, fazemos contas, mas não sabemos de onde vem o vil metal, quem o estabeleceu como valor de troca, por que alguns têm tanto, outros, nada. Do mesmo modo, assistimos a TV, lemos o jornal, ouvimos o rádio, mas não paramos para nos perguntar sobre a fantástica descoberta, a incrível invenção desses meios de comunicação social; não nos damos conta também de que a notícia que eles nos passam tem interesses específicos, mascara a realidade, tenta nos “doutrinar”, “ensinar” o que seus proprietários e financiadores querem que a gente saiba, aceite por verdadeiro.

Contra essa loucura de uma vida cotidiana que nos absorve inteiramente, deixando pouco espaço para atividades importantes como a leitura, as artes, os bons programas culturais (cinema, teatro, etc.), resta-nos desenvolver de alguma forma o pensamento crítico. Trata-se, portanto, de entender o que não está visível, o que está propositadamente ocultado, escondido. Em uma palavra: pensar criticamente significa, como nos ensina o sociólogo estadunidense Peter L. Berger, em importante livro escrito em 1963 (“Perspectivas Sociológicas”), olhar por trás dos bastidores.

Para o fortalecimento do pensamento crítico, no entanto, muitas coisas são necessárias em nossa sociedade. Antes de mais nada, a educação (nossas escolas e universidades) precisa se livrar do “maldito” ensino técnico, exclusivamente profissionalizante, voltado quase totalmente para a formação do (precário) trabalhador. É preciso que tenhamos uma educação humanista, cidadã, que nos prepare para a vida, para os desafios de construção de um mundo melhor. Para tanto, o incentivo à leitura e a disseminação de valores como a solidariedade e o respeito pela coisa pública necessitam de maiores cuidados e preocupações. Saber ler, por exemplo, é muito mais do que reconhecer letras e palavras; é poder interpretá-las, traduzi-las, usá-las de modo crítico, humano, construtivo. Gostar e ler de verdade bons livros, bons jornais... é mais importante do que apenas saber ler (o que não significa entender o que se lê!)

Além disso, os meios de comunicação social, como as TVs e rádios, bem como as revistas e jornais impressos, precisam ser democratizados, para que a diversidade de opiniões e a multiplicidade dos valores e sentimentos críticos possam debater conosco, nos ensinar, nos possibilitar uma experiência de vida mais rica. Para ter uma breve ideia, os principais veículos de comunicação em nosso país (incluindo nisso as redes de TV, as estações de rádio e os grandes jornais de circulação nacional) pertencem apenas a meia dúzia de famílias, ricas, poderosas, que estão no poder (ou têm bons “amigos” por lá) desde que o Brasil é Terra de Santa Cruz. Somente a crítica de nosso pensamento, que pode nos levar para muito além da limitada existência cotidiana de todos nós, desvenda essas histórias e oferece saídas para nós. Portanto, pensemos nisso e comecemos já a investigar criticamente nossas próprias existências. Afinal de contas, o que está em jogo é o nosso próprio destino: não o deixemos nas mãos de ninguém. Ele nos pertence. É isso.

17 julho 2015

Pugilista invisível


Acima do que sinto
existem nuvens
que encobrem
um ímpeto incontrolável
pelo sonho bom.

Na busca do sonho,
trombo na chuva grossa
que as nuvens
não deixam ver.

Espero,
digo,
planto uma semente
de rebeldia e palavras,
e a chuva desaba
sobre mim,
encharcando
meus sonhos,
zombando
da minha imaginação.

É como seu eu estivesse
predestinado
a lutar no escuro
com um pugilista
invencível,
um Rocky Marciano,
algo para sempre
muito maior,
melhor e mais real
do que eu.

24 junho 2015

Meus erros


Errei tanto por aí
e por aqui também.
Cansei de tanto erro,
de tanto tentar não errar,
de tanto errar tentando.

Descobri, então,
que os erros ensinam
muita coisa,
prestam enorme
serviço à imaginação,
à paz de espírito.

A cada erro -
e hoje errei de novo -
reaprendo a amar,
a mim,
a quem está próximo,
aos sonhos que
não morrem,
apesar dos erros
que os entristecem.

Meus maiores erros
são pessoas,
indivíduos
que partejo
para depois
me arrepender -
são os erros
que nada ensinam.

Mas o erro de
considerar
um acerto quem
nada pode nos dar
é um acerto
de contas,
um alívio
também -
é um erro que
frustra,
mas não incrusta:
a alma segue leve,
limpa,
sem vergonha de ser
o que é e daquilo que
ainda sonha ser.

19 junho 2015

Minha fé


Na casa do meu Pai há muitas moradas; 
se não fosse assim, 
eu lhes teria dito. 
Vou preparar-lhes lugar. 
JOÃO 14:2

Sempre fui religioso. De muitos modos, associo Deus à luta pela felicidade e à construção da verdadeira fraternidade. Vejo em personagens como Chico Mendes e Carlos Marighella, por exemplo, um pouco da fortuna cristã de liberdade. E neles também enxergo limites e equívocos. Impossível imaginar uma experiência, divina ou mundana, que não seja permeada pelo erro, pela dúvida e pela necessidade de autocrítica.

Muitos amigos e colegas, ao longo do tempo, estranharam minha fé. "Como pode um sujeito de esquerda acreditar em outros mundos?" - viviam a me questionar. Hoje, essas indagações praticamente sumiram. Não faltam exemplos na história de um socialismo cristão e de movimentos religiosos que lutaram por transformações radicais. Algo, entretanto, permanece a me incomodar.

Se Jesus estivesse por aqui, estaria na periferia, faria suas parábolas em formato de RAP e - não tenho dúvida! - andaria lado a lado com negros, gays, prostitutas, favelados e todos os tipos de rebeldes com causa. Penso até que não entraria em igrejas nem daria a menor bola para Malafaias e Felicianos, deixando que o diabo se encarregasse deles. O incômodo é: por que não se enxerga isso por aí, Deus?

Não há fé sem engajamento em favor dos mais pobres e das causas dos subalternos. Só existe a imagem de Cristo nos espelhos que põem no mundo a insurgência e a contestação. Só há fé que valha a pena onde houver (todas as formas de) amor e muita vontade de botar no chão o conservadorismo moral dos que se julgam filhos da verdade e, para animar seus dias, aninham-se no poder e nas estruturas de mentira, corrupção e mesquinharia.

A fé não alimenta preconceitos, estupidez e segregação. A fé é necessariamente uma ida ao outro, ao diferente, àquele a quem não foi dado o mapa para a festa. O resto é patifaria e enganação.

11 junho 2015

Mais livros, menos "kkkkk"


Antes deste nosso tempo de tanta interatividade, poucos encontravam meios para se expressar. Era preciso um espaço físico num jornal ou revista, um microfone aberto em um estúdio de rádio, um rosto previamente aprovado diante de alguma câmera de TV. Ademais, havia a exigência de escrever razoavelmente bem ou falar com desibinição e clareza. Fora disso, reinavam o anonimato e a reclusão de ideias e impressões do mundo.

De uns anos para cá, a coisa vem se modificando de forma cada vez mais rápida e impactante. Primeiro vieram os blogs pessoais, nos quais aqueles que têm algum talento para a escrita e nunca tiveram oportunidade de se inserir no contexto dos grandes veículos de comunicação e grupos editoriais passaram a colocar no mundo virtual suas histórias, análises e versos.

Mais recentemente, com as redes sociais, uma multidão saiu do completo anonimato e começou a publicar fotos, vídeos e textos enxutos sem nenhum critério que não fosse o desejo de referendar a própria existência. Por meio de meia dúzia de caracteres - muitas vezes incompreensíveis para a maioria dos mortais que vivem longe de seus guetos -, novíssimos personagens entraram em cena, promovendo em ampla escala a intolerância e o mais profundo desrespeito à inteligência.

Os meios de comunicação tradicionais, assustados com a perda de prestígio e obrigados a se reinventar para atingir os novos "leitores", optaram por falar a língua dos assanhados "autores" da nova realidade. No lugar de colunistas e jornalistas forjados no justo trato à palavra e no respeito aos parâmetros da mínima argumentação, os protagonistas da mídia contemporânea (na internet e fora dela) são agora filósofos (sic) que não concluíram o antigo ginasial e em tempos pretéritos, quando o bom senso e o compromisso com fatos e teorias precisava lapidar dizeres e escritos, não teriam lugar nem em pés de página de periódicos de quinta categoria. 

Elevados à condição de gurus das novas gerações, cujo grosso de representantes tem na galhardia e no preconceito seu elixir, esses novos arautos do debate nada público estão a serviço da mesquinharia política, do medievalismo moral e da perseguição brutal aos sujeitos que insistem em ampliar o debate em torno de questões verdadeiramente públicas. 

Esse fenômeno de estupidez e ódio é uma estranha síntese entre 1) a bestialidade da exposição sem critérios num suposto mundo livre de comunicações virtuais, 2) o horror à escola como espaço de formação cidadã e aos livros e 3) a valorização daqueles que antes não eram aceitos em nenhum lugar onde houvesse apelo mínimo à decência pessoal e ao espírito democrático. Vivemos, pois, uma era de zumbis do conhecimento a mercê da máxima do "quanto pior, melhor".

Sentenças que no passado enrubesceriam até o cachorro do vizinho, como, por exemplo, "Mais prisões, menos escolas", hoje são publicadas em blogs e revistas de grande circulação à revelia de qualquer vestígio de vida cerebral. Pior: são compartilhadas nas redes sociais, aplaudidas e acrescidas de risos cínicos, cretinos e acumpliciados ao vazio do pensamento. Não é difícil, portanto, concordar que há um novo fascismo no ar, pouco sutil, violento e covarde, que faz da negação ao enfrentamento público e balizado de ideias a sua principal bandeira.

Antes da chamada WEB 2.0 (desconheço em que versão isso está no momento), era suposto que houvesse no país (e no planeta) crenças preconceituosas e sentimentos de ojeriza às diferenças. As manifestações contra a diversidade, entretanto, eram pontuais e facilmente isoladas de um contexto social mais amplo. Com a abertura dos portais do mundo virtual, a truculência saiu de suas cavernas e ganhou as ruas, sem vergonha, nenhuma timidez, grande disposição para tumultuar o desenvolvimento da vida. Desde então, exemplos de xenofobia, machismo, homofobia e toda sorte de segregação podem ser vistos e sentidos diariamente. Nas redes sociais, aliás, festeja-se a barbárie, compartilhando casos de brutalidade e desamor explícito. No Facebook, virou moda solicitar a amizade de desconhecidos só para ter a quem ofender por posições ideológicas.

Não acredito que essas reflexões sejam fruto de saudosismo ou mesmo de uma melancolia disposta a perceber no presente somente seus aspectos mais negativos e nevrálgicos. A pólis grega e sua fama de ser um espaço público por excelência estão fora de questão - e é muito bom que assim seja. O desafio desta nossa "modernidade megatardia", posto que já foi e voltou no tempo inúmeras vezes, é reelaborar sentidos para o processo educacional, que estará muito além da escola. Nisso tudo, a interatividade deverá estar presente, mediada por pessoas engajadas no respeito mútuo, no rechaçamento dos galanteios à mediocridade de ideias e ações que visem apenas ao interesse dos históricos particularismos de significativa parcela da vida política e cultural. Sem hipérboles, é preciso que tenhamos muito mais livros e muito menos "kkkkk".

09 junho 2015

Vida limpa

Uma simples biografia em mosaico: aos 17, tocando punk-rock; aos 22, na formatura da UEL; aos 30 e poucos, militando; aos 40, pai, sujeito, sociólogo. Em todos os momentos, sempre à esquerda!

Eu cursei Ciências Sociais. E fi-lo porque o quis, de coração aberto e alma na mão. Ouvi de muitos amigos, desde a adolescência, que deveria ir para a universidade e me formar em medicina, direito, engenharia etc. O importante, diziam, é que se faça algo que dê oportunidade de trabalho, alguma estabilidade e não seja perda de tempo.

Bom, segui meu sonho e acabei me tornando sociólogo. Prefiro até dizer que virei Professor de Sociologia. É assim que me vejo. É assim que me sinto. Nunca ganhei rios de dinheiro, sempre tive de apertar cintos e gravatas (poucas gravatas), não agradei a gregos e troianos e fui obrigado, por força de muitas circunstâncias, a dar aula de quase tudo em tudo que é lugar para não capitular diante do deserto do real. Quer saber? Faria tudo de novo.

Num mundo em mutação negativa - contra direitos, fantasias e amor -, eu resisto. Não aspirei a tribunais, clínicas de luxo, escritórios pomposos. Estou me lixando para carrões, mansões e viagens na primeira classe. Como ser comunista e ter tudo isso como prioridade? Seria, no mínimo, uma coisa estranha, incoerente. Não sou "caviar". Na melhor das hipóteses, uma comidinha japonesa no capricho.

Quis o destino que eu me tornasse professor de uma importante universidade pública, a mesma em que estudei. Quis o destino que isso me trouxesse algum alívio. Mas quis o destino, principalmente, que isso coroasse as escolhas que fiz, a insistência em ser um Professor de Sociologia num país em que tantos buscam somente matéria e frivolidade. (Nas horas vagas, é verdade, concorro a um cargo de poeta e cronista.)

Ando livre por aí, sem guarda-costas, sem medo da própria sombra, sem ostentar riqueza num mundo de pobres e miseráveis. Educo meu filho segundo princípios socialistas que são caros a todos em casa. Leio e escrevo à vontade. Olho nos olhos de todo o mundo.

Sabe, sou Professor de Sociologia. E morro de orgulho disso. Quer dizer, VIVO de muito orgulho disso. Vida limpa.

06 junho 2015

Os espaços do silêncio


Um ano atrás, mais ou menos, perguntei numa sala de aula com mais de cem alunos de "Publicidade & Propaganda" quem ali tinha o hábito de ler jornais e revistas. Para minha total perplexidade, ninguém (sim, NINGUÉM!) sequer folheava veículos impressos de comunicação. Dezenas de rugas se formaram em minha testa.

A informação em nada contrasta com os chamados "passaralhos" - os turnos sucessivos de demissão em massa nas redações de velhos órgãos de imprensa. Apenas para ficar com os mais visíveis, "Estado de São Paulo", "Folha de S. Paulo", "Editora Abril" e "Organizações Globo" vivem demitindo em bloco, reduzindo publicações e e deixando mais enxutos seus periódicos. De um lado, fuga de anunciantes e o já clássico país de poucos leitores; de outro, o fenômeno internet, que certamente está reconfigurando de maneira radical a forma de os indivíduos se informarem e entreterem.

O lamentável é a perda dos referenciais. Num passado nada distante, optar pela leitura do jornal "A" ou da revista "B" definia identidade política, perfil cultural e visão de mundo. Os veículos eram feitos pensando em seus leitores e nos modos variados de mantê-los felizes e, portanto, fiéis. Na rede virtual isso é bem mais complexo: a velocidade e a fluidez das palavras e imagens na internet levam consigo raízes e tornam tudo perversamente mutante.

Comecei no ensino superior privado como professor "exclusivo" num curso de Jornalismo. Menos de dez anos depois, o curso foi fechado pela instituição. Conheço dezenas de profissionais de comunicação social e ouço quase todo dia da maioria deles que o futuro profissional que escolheram é nebuloso e angustiante. Sofrem eles, agonizam os leitores em busca de notícias confiáveis e reportagens inspiradoras.

Não é o caso, certamente, de prever e cantar o apocalipse. As coisas irão se metamorfosear. O problema é que, em se levando em conta os ritmos negativos da mudança histórica do presente (com terceirizações e precarizações aos montes), fica difícil imaginar o que poderei ler para reforçar e qualificar minha identidade, com autonomia e coerência, num futuro próximo. Nuvens negras choram?

29 maio 2015

A pedagogia da greve


Em 2015, os educadores paranaenses se imortalizaram e estarão nos livros de história do terceiro milênio, que terá uma data-símbolo: 29 de abril

Alguns anos atrás, depois de uma sucessão de atrocidades impostas pela direção de uma faculdade privada em que eu trabalhava, relatei aos meus colegas como seria bom que fizéssemos uma greve, paralisássemos todas as atividades da instituição. No final das contas, aparadas as arestas da violência - que resultou no desânimo de alguns, na cooptação de vários e na covardia paralisante da maioria -, não houve greve alguma. Disse, então, a uma ex-colega que havíamos perdido a chance de escrever uma importante página da história de Londrina. O tempo passou, eu saí da faculdade e as atrocidades, em nome da fome de dinheiro dos proprietários, continuam a ocorrer semestre a semestre, sempre acordadas a portas fechadas, à revelia de professores, alunos e funcionários.

Agora, ingresso na universidade pública, constato que a greve é uma realidade muito dura. Tudo, no entanto, deveria ser bem diferente. O desejado pela maioria da comunidade acadêmica é que as relações com o governo fossem amistosas e inteligentes, que os repasses de recursos fossem observados na sua legitimidade, que os salários fossem ao menos reajustados de acordo com os índices inflacionários oficiais. Nada disso. O governo e uma boa parte da sociedade (a do tipo que se vê representada por gente que chama Kim Kataguiri de "homem-livro") não têm ideia da importância do ensino público em todos os níveis, responsável pela construção de conhecimento e humanidade livres, sem amarras nem obediência a interesses mesquinhos e vendilhões. A liberdade nas escolas e nas universidades significa crescimento de verdade, progresso alternativo, sensível, revolucionário. Talvez por tudo isso é que tantos lhe sejam indiferentes ou avessos.

A greve, que é o último recurso, não resolve tudo. Antes: acumula prejuízos e estabelece futuras dificuldades. O calendário de trabalho será árduo e comprimido; a retomada das atividades será doída e terá de contar com a solidariedade ampla, geral e irrestrita entre todos; a vida terá dado um baque em todos nós, independentemente da vitória que já se deu - não há nada que supere a pedagogia dos afetos que um movimento grevista põe no mundo. Eu, em particular, construí relações de ternura e amizade que irão me acompanhar pelos próximos vinte anos, no mínimo.

O governo paranaense é ruim de diálogo e sofrível na gestão da coisa pública. Composto por inábeis laureados (onde, hein?), joga todo o Estado numa crise sem precedentes e continua a arrotar vaidade e inescrupulosidade. A greve, portanto, acaba se tornando um recurso inevitável, difícil de contornar. Já houve o saque da poupança previdenciária e continua a haver o desprezo pelo processo educacional e pelo patrimônio público. No tocante aos professores - esses que, como ensinou Florestan Fernandes, educam os filhos dos outros e recebem em troca um salário de miséria -, o governo não consegue disfarçar o nojo que por eles tem.

Por isso tudo (e haveria mais ainda a relatar e especular), a greve é sadia e unifica sentimentos de descontentamento e indignação. A beleza das flores que certamente será contemplada num futuro próximo está sendo desde já, na greve e na união, sonhada e semeada. Os caminhos não foram escolhidos pelas escolas e universidades; foram impostos pelo governo. Mas a caminhada será feita por nós, amantes da vida e da arte de educar para mudar o mundo.

27 maio 2015

Cansaço


Cansa esperar por migalhas. Cansa viver de pequenos acordos e longos adiamentos. Cansa (e preocupa) ver crescer a pilha de livros que chegam e não podem ser lidos por pura falta de motivação. Cansa saber que os filmes que se quer ver jamais serão vistos. Cansa ouvir pouco rock'n'roll nas ruas. Cansa perceber e não poder contestar que o mundo é muito, muito maior que a capacidade humana de apanhá-lo e dominá-lo.

Cansa constatar que pouco mudou no Brasil desde 1500. Cansa também ter de ouvir que o mundo de hoje é melhor quando se sabe que isso alcança um número ínfimo de pessoas. Cansa assistir a uma felicidade seletiva e restritiva e, ao mesmo tempo, a uma tristeza amplamente democrática e inclusiva. Cansa não poder negar que o sonho acabou, que o tempo está passando e todo o mundo está mudando. Cansa não poder sentir que o liberal acuado de antes (disfarçado de comunista "pós-moderno") quer ser um sujeito equilibrado daqui a pouco, à mercê da autonomia que tanto lhe é cara. Cansa se esconder aqui ou acolá. Cansa a escuridão que abate indivíduos de olhos abertos e corações fechados.

Cansa atestar que aquilo que é prioritário no discurso não é prioridade nas ações. Cansa não ter partidos políticos e em seu lugar ver surgirem clubes privados de interesses mesquinhos. Cansa ter conhecimento do cerco da corrupção de meio milênio e da exponenciação do cinismo ancestral. Cansa a pequena política que afeta enormemente a vida das pessoas, que, apequenadas, não podem crescer. Cansa que haja pouca política na política e que ela tenha virado sinônimo de coisa ruim e exclusividade dos que não são políticos.

Cansa não vencer o vício e, de muitas maneiras, elegê-lo como o que se tem de bom. Cansa o desamor. Cansa a falta de afeto. Cansa não fazer sexo com paixão. Cansa muito mais uma vida de paixões sem sexo ao cair de todas as tardes e aos domingos de manhã. Cansa reprimir instintos. Cansa sustentar aquilo que, no peito, já é insustentável há muito tempo. Cansa, então, a paisagem no horizonte.

Cansa ter ideias que não se materializam. Cansa ser incompetente para fazer isso. Cansa continuar a povoar o mundo ao redor de ideias que serão para sempre somente ideias. Cansa admitir que as ideias não fazem amor. Cansa a deselegância do cansaço.

26 maio 2015

Quatro letras


A atriz espanhola Penélope Cruz, a encarnação do que há de melhor nas "quatro letras"

É preciso 
que seja sempre 
mágico.
Não há como ser
só por ser.
Senão, não é,
não se faz,
a ninguém realiza.

Talvez um dia
eu faça outra vez.
Ao fazê-lo,
poderei,
enfim,
reviver um pouco
do melhor
que já pude sentir.

Certo é que
tem mesmo de ser
forte, 
instintivo,
implacável,
um arrebate
do corpo, 
um incêndio
n’alma.

O problema é que
meu tempo
parece ter findado,
minhas oportunidades,
todas perdidas.

Ainda assim,
irmão que é
da esperança,
ele só morre
quando o olhar 
sobre a beleza
perde graça,
gracejo.

Até lá, 
a memória
mantém vivo 
o desejo
de sonhar.

15 maio 2015

A luta continua!


Por razões que se aliam à formação em família e às concepções ideológicas da vida, nunca consegui me juntar àquilo que considero injusto. É assim no tocante a amizades, atividades do trabalho e militância social. Guardo comigo que a única coisa realmente importante que um sujeito tem é a sua trajetória pessoal, a sua linha de coerência em relação ao que diz e faz. Creio, assim, que as perspectivas existam sempre no plural. Quem busca um manual pronto e acabado de como se conduzir no mundo termina mal, triste e altamente sugestionável, inclinado a balançar de um lado a outro na vida. Daí, noves fora coerência, decência, sensibilidade etc.

Alguns meses atrás assisti pela TV a uma entrevista com o estadunidense Richard Sennett, um dos meus diletos sociólogos contemporâneos. Perguntado sobre o porquê de não acreditar no otimismo desenfreado das intenções de DAVOS, cidade suíça em que anualmente se reúne a cúpula do Fórum Econômico Mundial - ou seja, os milionários do mundo -, disse que não poderia manter ilusões quanto às promessas de bem comum e prosperidade geral proferidas por gente que só fala em cifras, lucros, investimentos financeiros e negócios miraculosos com o dinheiro de quem trabalha e não leva muita coisa para casa. Sennett afirmou que é uma opinião que se ancora na coerência, naqulio em que ele aprendeu a acreditar.

Aqui, ao sul do Equador, tenho convicções semelhantes às do autor de "O declínio do homem público". Quando vejo gente graúda (ou a serviço dela) mentindo ou se envolvendo em falcatruas, logo me pergunto se é razoável confiar nesses sobrenomes tão insistentes na seara da corrupção, do tráfico de influência, da longa e doentia tradição patrimonialista brasileira. Em Londrina e no Paraná, por exemplo, o pedigree de certas famílias consideradas "top de marca", sempre presentes em jantares beneficentes, lançamentos de empreendimentos imobiliários e casamentos de deputados, senadores e ministros de Estado, é visto como sinal de qualidade e ilibada moral. Ah, tá.

Conheço muitos desses senhores da alta roda londrinense. Muitos de seus filhos e netos foram meus alunos em um ou outro momento de minha errância pelo ensino superior particular, uma extensão de seus "negócios" pela cidade, aliás. Preconceituosa e arrogante (quando não agressiva e covarde), a maioria dos herdeiros da Davos do Terceiro Mundo é um fiasco ético e moral. Por trás da soberba, dívidas; à frente do sorriso falso, prevaricantes relações com o poder e muita, muita sonegação fiscal, o que permite sobrar para pagar honorários exorbitantes a advogados que dirigem carrões, fazem pose de bons moços e defendem o fascismo praticando-o. (É interessante observar o tanto desses sobrenomes que agora aparecem nos escândalos de pagamento de propina aos fiscais e auditores da Receita Estadual aqui na Pequena Londres.) Tal qual Sennett, não mantenho ilusões. Como diria o velho Barão de Itararé, de onde menos se espera é de lá que não sai nada mesmo.

Durmo mal quando sei que criei expectativas em alguém, sejam de natureza financeira, sejam de ordem afetiva ou profissional. Para evitar a insônia e acalmar o espírito - ciente de que estou a fazer o que é certo -, mantenho minhas contas em dia e só adquiro o que posso pagar. Assumo um padrão de vida compatível com minha realidade de classe e com meu salário como professor da Universidade. Quando gosto de algo sofisticado, vou atrás, junto os pontos e compro, mas isso se limita à minha obsessão por livros e objetos culturais. No geral, aprecio coisas e gentes simples, com as quais tenho aprendido inúmeros sentidos estrondosos para a vida.

Orgulho-me de ser um Rossi, sobrenome italiano tão comum e popular quanto Silva, Souza, Oliveira ou Santos. Satisfaz-me o tempo que passo brincando com meu filho e lendo para ele (ações diárias). Alegra-me saber que meu ofício exclusivo é o de ler, escrever e dar aulas, além de fazer algumas pesquisas para entender um pouco mais do mundo que quero tanto alterar. Alterar, a propósito, é ir em direção ao outro (alter), mudar-se em seu nome. Na vida, o outro é uma generosa porção do que somos e quase tudo que podemos de verdadeiro fazer. Viver só e apenas por si mesmo é o equivalente a não viver.

É por essas e mais algumas razões (e afetos) que vale a pena dizer sempre: "A luta continua!"

14 maio 2015

Labirintos da memória


A história e a memória estão sempre juntas. Além de indissociáveis, revelam sinais de um mesmo fenômeno que se integra a muitos outros, de forma permanente e incessante. A riqueza dessa união está mesmo na complementaridade: enquanto a história reúne fatos e sujeitos reais, que se movimentam no tempo e no espaço, a memória protege os sonhos, tudo aquilo que, apesar de não ter sido, constitui também a realidade. Por carregar consigo a força dos desejos e ideais, a memória é parcela privilegiada daquilo a que se chama verdade.

O uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) e o moçambicano Mia Couto (1955-), dois escritores que têm na memória a matéria-prima de suas letras e narrativas, afirmam que são feitos de histórias (e não de átomos, como sugerem os cientistas menos poéticos). Cada sonho, cada batalha da vida vencida ou perdida, cada manhã desperta no peito, cada noite em claras nuvens, em tudo isso compila-se um traço (milhares de rabiscos) do humano. No fundo, há um esboço (reunião de traços) de história por segundo em toda vida que insiste ser humana, contrariando o ácido tempo presente dos sujeitos-máquinas.

É-se a infância vivida, a adolescência espirrada, os amores concretos, o emprego de fato; soma-se à casa, à roupa, ao carro ou às longas caminhadas; confunde-se com o dinheiro no bolso (ou sua ausência), o celular à mão, a preferência musical, os filmes vistos e os livros lidos. Dessas reuniões e associações é possível extrair os rabiscos, traços e esboços que desenham a história. É o ser que se vê e do qual se fala que nasce dessa complexa composição de fatos, cenários e personagens.

A vida seria acinzentada se fosse só realidade, apenas aparência e angústia particular. Há uma dimensão da memória que confecciona a estimada arte de viver. Tal qual a própria arte (poesia, literatura, pintura, escultura, música, fotografia, cinema etc.), a memória é necessária porque a história só não basta. Para ter luz, curvas, graça e força, a humanidade contém, em suas mais modestas parcelas, o desejo que ficou para trás, o amor não vivido, a viagem interrompida, a canção não tocada, o encontro nunca marcado, a crônica jamais escrita. Muito mais do que de histórias objetivas, registradas e perfeitamente compartilháveis, a vida é um inventário de perdas, reflexões, pulsões, tudo o que se guarda caladamente e, de modo resistente, forma o que não pode ser deflagrado ao mundo dos indivíduos, grupos e classes. Há uma memória do impossível que ronda o espírito humano e contorna as existências – é disso que sobressaem a unicidade e, a um só tempo, a pluralidade que se humanizam ao fazer a história (e serem refeitas por ela) e ao colecionar as múltiplas peças da memória.

Existem na memória, portanto, distintos graus de invisibilidade e esquecimento. Um beijo cujo gosto não se conhece, um corpo cujo cheiro não se pode sentir, uma paisagem cuja beleza não se pode apreciar... Fora d’alma tudo isso é imperceptível. Por causa da dor, do arrependimento ou da frustração, tenta-se em vão eliminar da memória o não vivido. O resultado, então, é o silêncio, esse protagonista daquilo que constitui grandiosamente o ser, tanto quanto anonimamente.

Nos documentos, registra-se a história que se permite conhecer. As motivações, os delírios, as lágrimas e os sorrisos da espessa subjetividade de vencedores e vencidos (de vencidos, principalmente) poucos sabem, quase nada se conta. Entender os porquês da história exige um longo passeio pela memória do tempo e pelos fantasmas que nunca abandonam os espaços em que seus antigos corpos viveram. A vida não pode ser só de história; para ser vida e se desnudar caminho e revelação, ela precisa ter cultivado o exercício de preservação da memória.

A memória é o lado luminoso da história, condenada aos labirintos das palavras que não podem ser lidas e das imagens proibidas de exposição pelo silêncio.

27 abril 2015

Gramsci, os fundos de pensão e os brucutus da rede


Há momentos na vida em que tudo parece nos desafiar de uma só vez. Isso não é ruim. Antes, ao contrário: é nossa chance de averiguar a quantas andam nossos pensamentos e nossas habilidades para botar as ideias no lugar.

Em 2003, li encantado o livro "O ornitorrinco", do sociólogo Francisco de Oliveira. No texto - um ensaio original e instigante que analisava de modo visceral o Brasil que sobrevivera aos trancos e barrancos aos dois governos de FHC -, o tema eram os fundos de pensão e os fragmentos de classe que se tornariam poderosos, independentes e furiosos na disputa pelo acesso aos seus valores. Talvez seja o momento de perguntar quem, de fato, instruiu o governador do Paraná a saquear a poupança dos servidores públicos e chamar a manobra de "ajuste sem maiores consequências e meramente contingencial". Quais ideologias nefastas o orientam? A quem o mandatário serve? A disputa é pelos valores do fundo ou pelo poder que o acesso a ele garante na luta por hegemonia política no Estado? Toda tentativa de olhar superficialmente o problema em nada ajudará. A questão (como toda questão envolvente e complexa) é mais embaixo, muito mais embaixo.

Hoje, 27 de abril, também é aniversário de morte do italiano Antonio Gramsci (1891-1937), cujo túmulo em Roma amanheceu florido, tomado por homenagens e visitas de lutadores da Terra. É um ato simbólico importante, digno de nota neste nosso tempo de ideologias enfraquecidas e utopias apagadas. Gramsci, atacado duramente pela direita recrudescida neste início de século como o grande responsável pelo mal-estar contemporâneo, é um autor gigante, generoso, aberto, em cuja obra se podem constatar beleza, brilho e substantividade democrática. Acredite-se: Gramsci faz bem e deve estar ao lado dos professores paranaenses em sua luta contra os escombros-zumbis neoliberais do último quarto do século XX.

A luta não pode ser entre iguais. E o problema é que os mais fortes entendem a engenhosidade dessa desigualdade. Já que a questão são os fundos de pensão e os poderosos agentes em disputa pelo seu domínio político (muito mais que econômico, repito), que tal entendermos que a mesma Assembleia Legislativa que não se envergonha nem um pouco por arquivar denúncias e pedidos de investigação contra um de seus deputados mais sórdidos e ancestrais é também a casa que se prostra diante do Executivo, abrindo mão de sua autonomia? E que tal olharmos o total acumpliciamento entre os três poderes no Paraná? Aqui, mais que em muitos outros lugares do país, a velha assertiva de Raymundo Faoro em "Os donos do poder" vale ouro: "As elites nunca perderam uma em nossa história." Foi Gramsci em seus escritos sobre os intelectuais e também acerca do Americanismo e do Fordismo que me alertou sobre essa unidade dos poderosos, dissimulada, encoberta por discursos de falsidade jurídica e retórica moralista. Não há independência nem verdade na ação da classe burguesa (ou o que equivalha a isso entre nós): só existem mentiras e busca por benefícios privados.

E por falar em mentiras e amor exclusivíssimo pelos temas da (in)existência privada, andei pensando (e juro que de modo irrefletido e casual) no tanto de gente que entra e sai de nossas vidas no mundo virtual. Confesso que muitos me solicitam amizade e, sem deixar pistas, desfazem o laço. Dos mais de três mil "amigos" que tenho no Facebook, garanto que somente uns cinco por cento correspondem a pedidos de amizade feitos por mim. Não gosto de pedir nada a quem não sei bem quem é ou se vale a pena. Do mesmo modo, não rejeito ninguém, não obstante já tenha desfeito umas poucas relações virtuais e bloqueado uma meia dúzia de brucutus, o tipo de gente que, muito provavelmente, acha que os professores do Paraná e de São Paulo estão equivocados em seus legítimos movimentos grevistas, são safados e indolentes, e os governadores dos dois Estados são gente boníssima, altamente confiáveis e dignos. Desse tipo de gente quero distância. Quando não os deleto nem bloqueio; simplesmente ignoro-os, deixando de seguir o que, digamos, escrevem. As redes sociais, ao contrário do que postulam esses arautos da grosseria e do português sofrível, não é um espaço livre e descampado. Meu perfil é para amigos e pessoas realmente bem-vindas. Quem quiser mostrar a melancia que ostenta sob o pescoço que utilize seus próprios perfis. Escrevi em russo?

Fundos de pensão, barbárie em redes sociais, amizades fugidias e frágeis, governantes e deputados estúpidos, a grandeza do comunista sardo... Tudo isso voou e caiu no olho do furacão de meus pensamentos, tudo ao mesmo tempo, ontem e hoje. Por ora, resta-me somar minhas esperanças à luta dos trabalhadores paranaenses. Elevar o pensamento a um último átimo de razoabilidade dos poderes constituídos no Estado é ato-contínuo a manter mobilizada a frente dos servidores e dos defensores da qualidade e decência na vida pública. Aos que só querem privatismos, como os pugilistas do Facebook, minha sincero aspiração de que deixem em paz os que querem da vida muito mais. Eu, Gramsci e o futuro bom agradecemos desde sempre.

24 abril 2015

Uma singularidade plural


O escritor cubano Leonardo Padura, iluminado pela capa de seu belíssimo e obrigatório 
"O homem que amava os cachorros"

Tenho inúmeras e colossais dificuldades para pensar no singular. Há em mim uma multiplicidade de experiências, vidas, encontros e encantamentos. Mesmo quando me predisponho a levar em consideração somente a mim mesmo, erro feio, durmo mal, sinto-me menor. A questão não é de altruísmo. Acredito que seja algo inerente a perceber que, no mundo, somos um mutirão incessante de trocas, materiais e simbólicas, sem as quais nada nem ninguém teria valor algum.

Doem-me de forma aguda e insistente a palavra sem nexo, a crítica descabida, a demonstração fácil da pérfida ignorância. Todas essas agressivas formas de ser (e viver) ganharam explosiva ampliação com o mundo sem fronteiras da internet. Sem mediações nem critérios éticos de exploração do próprio pensamento, indivíduos e organizações elegeram como suprassumo da liberdade o mais insultante apelo de horror contra a antiga e já esquecida massa cinzenta. Concordo com Mauro Iasi: a direita e o conservadorismo que hoje ascendem violentamente nos espaços públicos (pouco públicos e nada aconchegantes) não são novos; estão aí há tempo imemorial - antes, envergonhados; agora, por motivos tão alienígenas quanto suas cosmovisões, faceiros, constrangedores e a conquistar os incautos que não leem, não pensam, têm ódio da história e da reles insignificância, apesar de se acharem tudo de bom e do melhor.

Parte desses zumbis desavergonhados (que não se constrangem nem diante do espelho da vida) inverte e deforma categorias e conceitos, segue inadvertidamente gurus ignorantes, perde de vista o fascismo como um perfil, algo muito mais nocivo e doloroso que sua realização histórica sob proteção estatal na era da guerra total que abriu e atravessou o século XX. Para esses neófitos no universo da inteligência terceirizada, Leonardo Padura, por exemplo, autor cubano do célebre "O homem que amava os cachorros", publicado no Brasil pela Boitempo Editorial, aparece agora como um crítico impiedoso do socialismo e da experiência histórica inspirada na Revolução Russa de 1917. Padura, que vive em Cuba e luta por seu país em campo, no jogo, sem fugir para alpes ou refúgios além-mar, é um pensador generoso, de esquerda, que retrata em seu livro obrigatório, de modo condoído, as lutas e as crenças equivocadas de grande parte dos socialistas do século XX. Mas ele não pula a cerca, não abnega sua história, não rejeita os sonhos pelos quais tanto brigou. O que ele faz em seu livro é algo raro hoje em dia: autocrítica. Por ser irracionalista e se julgar o último refrigerante com gás da senda moral, a direita não entende Padura, não consegue ler seu livro, mente e ainda faz jogo de cena na imprensa e na batalha das ideias.

Por ser plural no pensamento e na ação, procuro me abster de mentiras e autoenganos. Corto na pele quando me flagro em alguma pequena viela de incoerência. Ao mesmo tempo, insurjo-me contra minhas intenções ao captar, ainda que de forma frágil, alguma tentativa de manipular quereres, distorcer fatos, eventos, biografias em movimento.

Minha singularidade plural (não, isso não é um paradoxo!) me põe no mundo para aprender com os percursos e percalços da história. O único requisito para esse aprendizado exigido diariamente é, como poetizou Cazuza, "olhar o mundo com a coragem do cego, entender as palavras com a atenção do surdo e falar com a mão como fazem os mudos."

18 abril 2015

Um cafajeste latino


Fotografia de Tatiana Stock, para a instalação fotográfica "Rouge: nas curvas da libido"

Vivo tentando
beijar as bocas
que não me veem
e fitar os olhos
que não me beijam.

Vivo desejando ser
o corpo latino
que aquece e incendeia,
em vez da mente iluminista
que aplaudem (e já nem tanto)

Quero aquelas
que não me percebem
para além de ideias e palavras.
Não sou para o gozo,
o delírio,
a premeditada perda
absoluta dos sentidos.

Nem Galileu, nem Marx;
nada de Bourdieu ou Foucault:
sonho ser amante do
festejo das curvas,
da dança das línguas,
do pulo da pele
que sua,
nua,
despudoradamente,
na rua.

Topo fazer poesia
com as mãos livres,
percorrendo
corpos inteiros,
sem nenhum verso,
nenhuma rima.

Troco tudo por tesão,
sem hesitação,
tão somente
um velho cafajeste.

14 abril 2015

Vermelho


Poucos anos atrás tive a oportunidade de ministrar uma disciplina de Teoria da Comunicação num curso superior de Publicidade e Propaganda. No programa da disciplina havia um item que me preocupou em particular: Semiótica. Tempos antes, de forma meio atabalhoada, tive um desencontro grosseiro com os estudos semióticos. Jurei que fugiria deles como vampiros correm da luz solar, dos colares de alho, das balas de prata e das estacas de madeira. No final das contas, assim como vampiros nunca sublimam seus desalinhos, eu sucumbi à necessidade de estudar para ensinar Semiótica.

O desencontro, entendi, havia sido feito só de ignorância e preconceito. Muita coisa interessante aprendi com a ciência dos significados e significantes. Até hoje, encanta-me a discussão sobre ícones, índices e símbolos. Para mim, é impossível assistir a um comercial de TV sem fazer analogias semióticas. De tudo, permanecem com mais intensidade em minha memória as reflexões que fiz sobre as capas de LPs históricos do rock. Foi a ocasião, inclusive, em que descobri existir gente deste mundo de nosso Deus que nunca ouviu falar nos Beatles nem no cruzamento universal da Abbey Road. Como diria Drummond, vasto mundo este aqui.

A lembrança da Semiótica como desafio intelectual serve agora ao propósito de refletir sobre uma cor especial: a vermelha. O que ela significa nas mais diversas situações da vida? Na atual onda neoconservadora (que de nova pouquíssimo tem), o vermelho foi convertido em litígio ideológico. Para salvar o Brasil e o mundo das ameaças esquerdistas, é urgente extinguir todos os históricos sentidos do vermelho. De que trata e a que remete essa tão viva cor, afinal?

O encarnado – que no Fluminense, minha paixão eterna, é vermelho-grená – evidencia o desejo, a fúria apaixonada, o vigor dos ímpetos que movem o humano. O encarnado vem daquilo que é desconhecido (outros mundos?) e também da carne, o único motivo pelo qual o pecado é invencível. Os puritanos, modalidade quase pré-histórica dos atuais reacionários, têm medo das tentações – e toda tentação é preciosamente vermelha na carne e no espírito, uma encarnação contra a qual se luta em vão.

O vermelho é também escarlate, um rubi valioso. Por isso mesmo, é sinônimo de alcunhas e adornos de heróis (penso rapidamente na armadura de Tony Stark, na capa de Clark Kent, nas cores protagonistas do alter-ego de Peter Parker e no uniforme inteiro de Matt Murdock, o homem sem medo). Nesse sentido, é uma onda que excede os limites da tão propalada fragilidade humana: torna-se, então, infravermelho e passa a enxergar aquilo que ninguém pode ver. O vermelho, por ser heroico, é um poder especial, sonhado, que apavora quem insiste viver de acordo com rotinas e poderes supostamente intocáveis.

A cor do pecado é, portanto, revolucionária, uma utopia viva que não pertence a ninguém, ao mesmo tempo que está ao alcance de todos, desde que, para conquistá-la, não falte coragem. O vermelho é fé, transcendência, um pouco do temor que nos acumplicia ao gosto inexplicável pela vida, mesmo em sua brevidade irreparável. De vermelho, em todas as suas tonalidades, a vida vai além, muito além de promessas ou ameaças. Rubra, a vida é somente vida, nada menos.

O contato tardio, rápido e provisório com a Semiótica me repôs em contato com as bandeiras que ergui no tempo. Não lembro nenhum ideal que me tenha arrebatado sem tremular pelo menos em parte listas ou tórridas faixas vermelhas. Se a vocação dos rebeldes é sangue fervilhando, o vermelho é sua condição. A cor da paixão é também a do pecado, de tudo que é proibido e atiça nossos sentidos, mexe com nossos códigos de alerta. O vermelho fala do tabu, das coisas que precisamos encontrar, sobre as quais falar, de cujas fontes – boas ou más – todos viemos. Há um carregamento imensurável de causas vermelhas em tudo que é humano, estimulante, perigoso...

É no mínimo desfaçatez fugir ao vermelho. Nenhuma cor diz tanto; nenhuma cor deixa tanto a desejar (gigantes desejos!). O vermelho que está na literatura, na poesia, nas utopias e nas paixões é ingrediente essencial, sem o qual a própria vida deixa de ser, sentir, fazer, repartir. Os melhores temperos e as mais indizíveis motivações da sexualidade têm no vermelho sua matriz original. A ancestralidade das palavras – que está lá onde havia cavernas e seus registros rupestres – é signatária da santidade do vermelho, bem como as tintas que na pele sempre expressaram a riqueza cultural dos povos do mundo. Só existe fertilidade onde o vermelho é livre, soberano, paixão do humano pelo humano. 

As bandeiras vermelhas -  os lábaros de cruzeiros estrelados -, de fato ou na rubra imaginação dos lutadores da história, são sempre os símbolos maiores da liberdade e da cruzada infinita pela conquista da igualdade. “Sede vermelho!”, foi uma máxima que aprendi com a Semiótica.