02 janeiro 2015

Taiz


"Felaccio" (1991), um lindo Acrílico sobre Tela (150 cm X 100 cm) de 

Dizem que a memória é o portal da história. Nela, realizam-se os grandes eventos, erguem-se os mais belos cenários e sobrevivem as personagens mais fascinantes. É pela memória que se dá a vida, nada mais, nada menos.

Já fazia algum tempo que o presente dava sinais de desgaste. As lembranças se perdiam, misturavam coisas e gentes. O passado, contudo, permanecia intocado. A paixão que fora o motivo da existência talvez fosse o último suspiro de sua lucidez no momento tão questionada. Graças ao que fora, ele ainda podia reivindicar ser alguém, mesmo aos trancos e barrancos e diante do olhar incrédulo de todos à volta.

Vivia com uma das netas havia mais de dez anos. Apesar dos cuidados que a jovem lhe destinava, sentia-se um estorvo, um pedaço de algo qualquer jogado sobre a poltrona da sala dos fundos. Raramente via alguém; mais raramente ainda alguém fazia questão de vê-lo. Mal comparando, era o grande inseto de Kafka deslocado no tempo e no espaço. 

As décadas de trabalho na universidade lhe renderam um bom nome e um status de intelectual refinado, do tipo que não se faz mais há muito tempo. Por causa da aposentadoria e dos direitos autorais recolhidos dos livros que insistiam em vender à beça em meio a vertiginosas transformações no mercado editorial e no universo das tecnologias pessoais, era tolerado em família. No final das contas, valia-se da hipocrisia da família burguesa que tanto combatera como professor – passava em paz os dias, entre livros e muita tranquilidade, sem ninguém para vasculhar suas ideias ou se intrometer em suas viagens mentais; ao mesmo tempo, tinha boa comida, cama arrumada, remédio na hora certa e muita oração alheia para que gozasse de saúde e dispusesse de longa vida. De algum modo, ao sobreviver a tudo isso, continuava na sua luta, vencendo batalhas e, como cantava um poeta do passado, sobrevivendo sem nenhum arranhão.

Casou-se na década de 1970, no exílio, numa França ainda bastante remexida pela agitação do final da década anterior. Tinha vinte e poucos anos. Quando voltou ao Brasil, em 1979, o ano da anistia, já era o intelectual de esquerda que todo o mundo aprendeu a admirar, mesmo a parcela composta por seus adversários ideológicos. Era um pensador generoso, aberto ao debate e incapaz de indelicadezas. Chamavam-no com frequência de “flor de pessoa”. O título lhe soava incômodo. Dizia com humor que uma “flor de pessoa” não podia cheirar bem por muito tempo. Apesar da carreira bem-sucedida na universidade, não foi feliz na vida amorosa. Além do casamento meramente formal e tão somente “normal” com uma arquiteta peruana, a mãe de seus filhos, atravessou as últimas cinco décadas atormentado pelas lembranças de um grande amor que não se completou e foi inexplicavelmente interrompido. Ele pensava nessa história naquela manhã de domingo, olhando pela janela ao lado de sua poltrona o horizonte, provavelmente tentando recuperar na frágil memória do presente o sorriso daquela mulher que lhe ensinou sobre as belas coisas da vida.
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A notícia de que Ernesto Guevara de La Sierna, o Che, havia sido capturado e morto pelo exército boliviano, na pequena La Higuera, tornou o aparelho do grupo de guerrilheiros urbanos um poço de lágrimas silenciosas. Era outubro de 1967 e a ditadura civil-militar que se instaurara no Brasil alguns anos antes perseguia com veemência os movimentos estudantis e de resistência. O cerco estava se fechando e a clandestinidade já era a saída encontrada por muitos jovens que sonhavam em mudar o mundo. Che era um símbolo dessa esperança, por tudo que representava a Revolução Cubana bem embaixo das barbas dos Estados Unidos da América. Sua trágica morte foi um banho gelado sobre consciências e ânimos.

No aparelho da Rua Astúrias, no subúrbio da zona norte carioca, Eli e Taiz consolavam-se. Jovens e idealistas como boa parte do melhor da sua geração, perdiam com o assassinato do revolucionário argentino bastante da coragem exigida pelo tipo de vida que resolveram levar. O dia a dia em aparelhos - nome que as organizações revolucionárias davam às moradias que seus membros ocupavam provisoriamente durante os períodos de planejamento das ações contra o governo militar e que serviam de guarida a gente com codinomes, barbas postiças, perucas e um monte de fantasias e medos na cabeça – era tomado de excessivos cuidados e um bom número de sustos. Ninguém na vizinhança podia duvidar de que neles viviam pessoas comuns, que nada tinham de mais. Era difícil manter o enredo por muito tempo. Cedo ou tarde as cortinas se fechavam, a denúncia acontecia e tudo tinha de ser desmontado às pressas. Eli e Taiz são um acaso dessa atribulação. Encontraram-se numa dessas correrias nascidas da desconfiança de um vizinho ou de uma batida policial antecipada pelo alerta de militantes. No fim de setembro de 1967, pouco antes de entrarem para a novíssima Ação Libertadora Nacional (ALN), que Carlos Marighella criaria logo depois de deixar o Partido Comunista Brasileiro (PCB), foram designados para um mesmo aparelho, onde os primeiros membros da nova organização traçariam os planos de assaltos a banco e sequestros de embaixadores estrangeiros. A ordem era enfrentar o regime ditatorial, conseguir dinheiro e viabilizar focos guerrilheiros pelo interior do país. Da cidade para o campo, os sentimentos libertários apostavam no que fosse possível para derrubar os donos do poder e acabar com as prisões e torturas praticadas pelos agentes do estado nacional.

Eli e Taiz trocaram olhares apaixonados no momento em que se conheceram. Eles foram escolhidos para ser o perfeito casal suburbano de fachada para o novo aparelho. Como não se conheciam, a desejada frieza revolucionária não daria espaço para melindres ou intimidades. Bobagem. Dizem que 1967 foi o ano do amor, em que álbuns musicais emblemáticos de Jimi Hendrix, do The Doors, do Love e do Pink Floyd foram lançados. No aparelho em que viveram o início de um amor colossal, os dois jovens aturdidos pela sedução recíproca tinham um LP que ouviam diuturnamente, o insuperável “Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, que os Beatles haviam lançado em junho daquele ano. Eram ingênuos, não obstante muito honestos em suas aspirações, os revolucionários que não entendiam a força do amor. Aliás, a ingenuidade – ou a ignorância? – era considerar possível uma revolução que não fosse inteiramente feita de amor.

A morte de Che, em toda sua dramaticidade, foi o pretexto que o destino utilizou para aproximar Eli e Taiz. O consolo que deram um ao outro encontrou peles quentes e mentes loucas por descobrir novas prazeres e grandes sensações. É estranho que a dor possa ser o artífice da alegria. É mais estranho ainda ter de concordar que a dialética entre o bem e o mal produz histórias inconcebíveis e imponderadas. Durante seus anos em sala de aula, Eli sempre dizia que a importância de Che para a história mundial ia muito além dos legados de coragem, coerência e abnegação – sem ter por intuito, o argentino era uma grande flecha de inusitadas e arrebatadoras paixões.

Apesar da paixão visível a olho nu, inegável a todo custo, Taiz manteve a sobriedade. A casa vivia cheia de gente, que vizinhos e observadores indiscretos pensavam ser irmãos, primos, pais e avós do casal. Nem o ambiente, nem o momento eram oportunos para um tórrido caso amoroso, como certamente desejava seu corpo e espírito. O tempo era o da luta armada, de não medir esforços para fazer a revolução e libertar o país. Pensavam assim aqueles jovens que, certos ou errados, permitiam-se mover por ideais transparentes, altruístas, portadores de uma benevolência que as décadas seguintes se encarregariam de apagar ou, quando por alguém resgatadas, ridicularizar.

Eli, ciente de que a postura de sua companheira era a correta, enveredou pela teoria revolucionária. Os longos dias de solidão no aparelho eram preenchidos pelos olhares que lançava sobre cada passo de Taiz e pelas leituras sistemáticas de autores importantes da história das ideias socialistas. De modo espantosamente disciplinado, Eli leu os utópicos de todas as eras – de Morus a Fourier -, os românticos e os racionalistas; apreciou demoradamente os existencialistas que faziam a cabeça dos jovens europeus e, graças a um bom intercâmbio com amigos que traziam livros importados para o aparelho (vindos provavelmente das andanças dos velhos comunistas pelo mundo), escritos fidedignos de Marx, Benjamin e Gramsci. Mais tarde, já professor em terras brasileiras, Eli admitiu que seus anos essenciais de formação se deram durante o penoso período de clandestinidade.

A vida no aparelho durou um tempo considerado enorme pelas organizações da esquerda revolucionária da época: dois anos. Sem que tivessem se entregado aos sabores de um único beijo, Eli e Taiz se viram obrigados a fugir do país em novembro de 1969, quando Marighella fora assassinado na Alameda Casa Branca, numa emboscada armada pelo DOPS, em São Paulo. Quarenta anos depois do assassinato de Marighella, Eli foi convidado para descerrar a faixa inaugural de uma revitalizada alameda, que passou a se chamar “Carlos Marighella”. Naquele fim de 1969, contudo, Eli e Taiz foram enviados para o Chile, onde, durante alguns anos, tiveram a vida dos sonhos e o amor dos paraísos.

O jovem casal da ALN abriu a temporada de brasileiros exilados no Chile. A maioria viria mais tarde, entre 1971 e 1973, enquanto vigeu o governo socialista de Salvador Allende. Eli e Taiz eram acusados (e de fato culpados, se as autoridades aceitassem dar o devido contexto sociopolítico aos “crimes”) de sequestro e assalto a banco; em linhas gerais, eram considerados subversivos perigosos, terroristas que ameaçavam a paz da família brasileira. Acuados e aparentemente sem saída, tiveram de aceitar como alternativa única a ida para o quase vizinho país latino, onde a então possibilidade de uma vitória eleitoral da esquerda daria a eles alguma tranquilidade e uma vida longe de aparelhos e da clandestinidade.

Tal qual Che, Marighella, na morte, deu vida ao amor entre Eli e Taiz. Se a paixão promovida pelo revolucionário argentino foi do tipo platônico, exercido somente pelo olhar franco ou de soslaio e pela imaginação (que nem por isso deixou de ser um forte oponente ao aclamado pragmatismo dos insurgentes de meados do século XX), a do guerrilheiro baiano foi de pulso e fogo, tesão de extravagâncias e experiências fabulosas. Livres das obrigações revolucionárias e da vigilância dos diversos escalões de organização da luta armada, Eli e Taiz se entregaram com tudo ao amor represado, à luxúria contida a duras penas. Jovens, saudáveis e de corpos trabalhados por exercícios físicos também sistemáticos na rotina silenciosa dos aparelhos, Eli e Taiz desenharam durante sua atividade sexual belas paisagens, com personagens em franca ebulição a todo instante. De fundo, o velho LP dos Beatles, um dos poucos apetrechos salvos da desativação do aparelho, imortalizou a primeira noite de amor do casal.

Era fim de novembro de 1969, madrugada de um domingo que jurava um céu ensolarado nas horas seguintes. Depois de vários dias de estrada, estrada e mais estrada, com trocas de veículos e noites dormidas em qualquer lugar à beira de riachos ou pensões baratas. Eli e Taiz chegaram à fronteira no centro do Chile. Dali teriam de seguir sozinhos, afirmou o último motorista com o qual tiveram contato. Receberam algum dinheiro e puseram sobre os ombros suas mochilas. Quase nada para carregar, a não ser lembranças. Mal iniciada em seus vinte anos, Taiz abraçou Eli e disse:

- A história dirá se a nossa geração venceu ou perdeu, Eli. O que sei é que não me arrependo de absolutamente nada. Eu faria tudo novamente. Haja o que houver, fiz o que acredito mesmo que deveria fazer. Temos a chance, por causa da nossa luta, de viver para sempre.

Eli concordou. Abraçados, caminharam até o ponto de luz que figurava no horizonte. Chegaram a uma simpática pensão (a única com cara de boa acomodação desde que saíram do Rio de Janeiro), na qual foram recepcionados por uma senhora de largo sorriso. Pegaram as chaves e foram para o quarto. O primeiro beijo não esperou que a porta se abrisse. Num corredor vazio e à meia luz, entregaram-se a um desejo que suportou longa espera, duras noites, trágicas perdas. Os lábios de Eli e Taiz pareciam pedir desculpas pelo tempo perdido. Para tanto, davam de si o melhor e mais suave ar da paixão. O toque de línguas foi a senha para a corrida até o chuveiro. Debaixo d’água, corpos entrecruzados, o grande beijo não quis por nada dar-se por vencido. Após tanto tempo pelo deserto de Atacama, por terras inóspitas no Brasil, no Chile e na Argentina, Eli e Taiz encontraram um pouco de si num vilarejo fronteiriço chileno, no curso do beijo mais bonito da história das lutas sociais em todo o mundo.

Antes de se deitar ao lado de Taiz, que o esperava linda e úmida sobre a cama, Eli avistou uma pequena vitrola num canto do quarto e lá colocou o “Sgt. Pepper’s” que com eles atravessara um bom bocado da América Latina, resistindo às investidas contra as quais se viram suas quebradiças mochilas. O milagre que manteve intacto o LP se estendeu sobre os lençóis em que se amaram profunda e intensamente pela primeira vez.

Convencido a tocar com lábios e língua todos os pontos do corpo de Taiz, Eli empreendeu a grande viagem de sua vida através das curvas daquela linda mulher de pele jambo e cabelos negros. Na vitrola “With a little help from my friends” embalava o passeio de Eli pelo bico dos seios de Taiz, que, por sua vez, cortava o próprio lábio inferior com uma contumaz mordiscada. Pelo quarto exalava algo inédito naquelas bandas: o odor da paixão que revolucionou todo um continente. E eram Eli e Taiz os escolhidos para protagonizar tamanha beleza.

Com uma síntese inexplicável de delicadeza e fúria, já ao som de “Lucy in the sky with diamonds”, Eli virou Taiz, colocando-a de bruços e braços abertos sobre os lençóis já contorcidos pelos frenéticos movimentos do jovem casal revolucionário. Beijando sem parar a bunda de Taiz, depois de um demorado expediente de sedutores toques labiais pelas costas da morena mais bonita do planeta, Eli conheceu o êxtase: suas sensações vibraram todo o corpo, produziram calafrios e uma ereção nunca pensada, menos ainda vivida. Penetrou Taiz enquanto os Beatles cantavam “Fixing a Hole”. Entre gemidos, sussurros inaudíveis e um arrebatador “eu te amo” pronunciado por Taiz, Eli sentiu que era o homem mais feliz do mundo. Estava sendo feita a sua verdadeira revolução.

Ao deixar que Taiz se desvencilhasse de seus cadenciados movimentos por trás, Eli entregou o pau para que a boca de sua amada morena lhe convencesse de que a felicidade de fato não tem limites. Taiz ia fundo, lentamente, e tocava a base do pau de Eli. Mais tarde, no exílio europeu, Eli lembraria daquele momento único como o responsável pela imagem inesquecível de sua história pessoal. Numa de suas poucas incursões pela poesia, redigiu versos intitulados simplesmente “Ela” para imortalizar o que sentiu ao ser chupado naquela noite por sua eterna companheira. “Whitin you without you” tocava quando Eli se deitou de frente sobre Taiz e dentro dela se movimentou impetuosamente até explodir de tesão, gozando anos de olhares que não podiam se pronunciar, de desejos que não tinham permissão para se libertar. Eli e Taiz gozaram juntos, repetidas vezes, a noite inteira, a semana toda, pelos mais de vinte dias que ficaram naquela pensão à espera de alguém em Santiago mandar buscá-los. Desse tempo, a lembrança mais viva dos dois, que eles trocavam de forma meio desvergonhada em noites de bom vinho e boa comida, é a da grande gozada conjunta orquestrada por "A day in the life”, canção que encerra “Sgt. Peepper’s”, numa tarde fria de quarta-feira, algumas horas antes de partir para a capital chilena. Com a cordilheira dos Andes à esquerda, protegendo-os do infinito sempre tão inquietante, Eli e Taiz foram para Santiago quase na virada de 1969 para 1970. Naquele instante, conheciam-se intimamente. Espiritualmente, eram almas-gêmeas. Fisicamente, eram um do outro, integral, despudorada e encantadoramente.

Até 11 de setembro de 1973, quando Salvador Allende foi deposto pelas forças conservadoras que se tornaram subservientes às intervenções militares e investidas geopolíticas estadunidenses para libertar seu país do que julgavam ser uma “ameaça comunista”, Eli estudou e deu aulas na universidade nacional, enquanto Taiz trabalhava com grande êxito na administração das ações dos trabalhadores nas empresas autogeridas. O Chile fora mais uma esperança derrotada da esquerda latino-americana. Mais uma vez, venceram a truculência e a covardia. Com o golpe e a perseguição aos dissidentes e estrangeiros aceitos sob asilo por Allende, Eli e Taiz se mudaram para o Peru, em cujas terras se viram pela última vez na vida.

Denunciado na universidade peruana como comunista, menos de dois anos depois de sair do Chile, Eli foi preso pelo exército. Passou um ano sob custódia militar. Nesse período, Taiz o visitava semanalmente, de acordo com o regimento do cárcere. No dia de sua soltura, após um processo judicial cheio de erros e argumentos anticomunistas patéticos, Eli não viu Taiz na recepção, Perguntou por ela, procurou-a. Durante dias ligou para Deus e o mundo, remexeu tudo, revirou o que tinha pela frente. Nada. Taiz sumira. Incrivelmente, Eli e Taiz nunca mais se encontraram.

Forçado a deixar o Peru, Eli exilou-se na França. Um ano mais tarde, casou-se com a filha de um comunista peruano, também exilado em Paris. Outro ano mais tarde, foi anistiado e voltou para o Brasil.
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Aos domingos era comum que, sentado em sua poltrona, Eli reescrevesse tudo isso em sua memória. As falhas que o faziam trocar nomes, esquecer datas e eventos, perder-se num emaranhado de histórias no presente, pareciam irrisórias diante da vitalidade da lembrança do amor que viveu com Taiz no Chile. Essas imagens mentais tão poderosas e o sumiço para sempre inexplicável de Taiz (seria esse mesmo o nome dela?) era a certeza de Eli de que a vida, misteriosa em si mesma, permanecerá um portal para o futuro, já que o passado nunca se apaga e o presente não passa de uma triste desmemória.