06 fevereiro 2015

Paciência


“Tenha santa paciência!” está no pensamento em viva-voz de todo o mundo. Diante da exuberância energética das crianças, da quase insana ansiedade dos adolescentes, do catastrofismo inexplicável dos jovens e do desânimo fora de lugar dos mais velhos, a paciência é uma invocação inevitável.

A paciência é acima de tudo um valor. Ela compõe o rol de significados que queremos dar à vida. Entre uma crise e outra, entre os tantos sins e nãos cotidianos, prometemos adotar a paciência, acariciá-la, torná-la mais familiar. Para ser válida, contudo, a paciência precisa ser praticada. De pouco adianta assediá-la, anunciá-la ao tempo futuro. A paciência é um elemento orgânico de quem deseja viver o que se tem e se é, não o que se deseja ter e ser.

Graças à capacidade de esperar, que o compositor mineiro Zé Geraldo associou à necessidade de acreditar, sonhos se transformam em lutas, cujos objetivos anelados, por sua bela vez, viram realidade. Interessante é observar que lutas viram realidade em duplo sentido: o primeiro porque passam da imaginação à vida e o segundo porque viram ao avesso vidas que precisam ser mudadas. A paciência, portanto, é matéria-prima da grande virada.

A contribuição da paciência para a maturidade dos espíritos é indispensável. Não há sabedoria onde não se possa perceber a fina e comovente flor da paciência. Transmitidas com calma e leveza, as palavras exalam sapiência e aconselham de forma simples existências lançadas ao olho do furacão. Tomadas de assalto pela ansiedade, as ações humanas metem os pés pelas mãos, paralisam a razão e desprezam o que certamente há de irrecusável nas emoções. A paciência, nesse sentido, reconcilia ideias e sentimentos, possibilidades e utopias. Bem ao contrário do que poderiam insinuar as mentalidades conservadoras, a paciência é mãe zelosa da utopia e irmã de sangue da prudência. A questão é que o lado prudente da paciência valoriza o amanhã como um tempo do qual não devemos desistir, uma utopia que seja suficientemente vigorosa para não frustrar sonhos resistentes e lutas longínquas. É por isso que utopias não podem ser fruto de voluntarismos. Para serem de fato o lugar que existe em nossos humanos desejos, é a paciência que deve elaborá-las, erguê-las, destiná-las à vida comum.

Ensinar que não existem coincidências é a grande promessa da paciência. Para todos que alcançam essa capacidade de esperar com inteligência - acreditar e revirar vidas e mundos - só existe o tempo certo, o de cada um e o de todas as gentes.