31 março 2015

Ressonância


Tenho medo de hospitais e afins. Toda vez que necessito fazer uma consulta ou realizar exames médicos fico apreensivo. Dependendo da suposta gravidade do problema, perco fome, sono e humor. Transformo-me noutra pessoa, irreconhecível até por mim mesmo. De médicos, eu gostei de alguns poucos. Lembro-me com ternura daquelas figuras humanas admiráveis que trataram de mim e de meus familiares com poesia e gentileza, sincera compaixão e doce olhar. Pessoas fora de catálogo. Nem mesmo essas extraordinárias personagens, contudo, me fizeram perder o horror que sinto por rotinas médicas e urgências hospitalares. Acho que é sintomático confessar que também detesto remédios; evito-os até o final da extensa fronteira do suportável.

Ando pensando muito nesses meus assombros e arrepios nas últimas semanas. Com crises sucessivas, prolongadas e dolorosas na coluna, vi-me forçado a clínicas e consultórios, exames estranhos, longas esperas e medicamentos. Frequentar ambientes de, digamos, “saúde” não é nem um pouco saudável à minha cosmovisão. Sofro a dor do outro – assistir a senhoras e senhores prostrados diante dos sinais do tempo é tão angustiante quanto perceber que crianças e jovens podem se desentender precocemente com os desígnios do destino. É difícil para mim, um humanista à esquerda, por formação e muita convicção, admitir a fragilidade e a finitude da esperança, com a consequente e inexorável vitória do inevitável. Bem mais do que difícil: é deveras perturbador.

A palavra-chave para essa divagação provavelmente fora de lugar é “ressonância”. Por não ter mais como driblar ou dourar meus limites físicos, os quais, de modo implacável, comprometem as possibilidades cognitivas e intelectuais, fui arremessado ao aterrador túnel de ressonância magnética. Durante pouco mais de trinta minutos, período em que agradeci aos céus ter conseguido controlar minha claustrofobia, passei a limpo muitos episódios da minha vida, imaginei o não realizado, lamentei o titubear em tantas encruzilhadas da minha história. Sem exageros: o tempo trava dentro da máquina, o corpo quase explode de calor, o coração ameaça sair em disparada... Ou o doente se perde em pensamentos, ou tudo o conduz pelo labirinto da insanidade.

Dentro do túnel, vestindo um pijama da clínica, muitíssimo semelhante aos de internos de manicômios, nada do corpo podia se mexer. Na mão direita, eu segurava uma pequena campainha, que deveria ser tocada caso eu quisesse dizer alguma coisa. Não obstante tenha tido vontade de gritar para me tirarem de lá umas tantas boas vezes, respirei fundo (tentando não mexer o corpo) e contive minha ansiedade. De alguma maneira incompreensível para quem se sentia tão angustiado no interior da máquina, eu pensava: “Vai ser rápido, vai passar num instante, logo, logo isso termina”. O otimismo da vontade (com doses controladas de pessimismo da inteligência) vem me salvando na e da vida faz tempo.

Após ser lentamente conduzido pelo túnel, deitado sobre uma maca que envolve o corpo como uma luva feita sob medida, o exame tem início alternando, em períodos breves, apitos, batuques, sirenes e bipes. Trata-se da máquina “lendo” o corpo em busca de evidências para um diagnóstico mais preciso. Quando um batuque chato termina, outra barulheira começa. (O bom é que um fone de proteção auricular ameniza o mal-estar produzido por tantos ruídos.) De quando em vez, a maca se mexe um pouco para cima e para baixo. Não, não é o fim do exame. É um recomeço (com um novíssimo barulho). Como já disse antes, melhor é deixar nosso pensamento voar para bem longe dali. Foi o que fiz.

Sobre a maca, imóvel, de olhos bem fechados e mente escancarada diante do portal da imaginação, pude visitar velhos amigos e frequentar os cenários da infância e da adolescência. Joguei bola, pulei muros (derrubei alguns também), toquei guitarra, fiz um show ao lado de David Coverdale – tocamos juntos Here I go again e Give me all your love. Lancei o CD que ficou faltando no início da década de 90’ e saí na capa da Guitar Player. Fui ovacionado na Cidade do Rock e dei a volta ao mundo em 80 dias. A verdade que não existiu, mas de muitas maneiras diz um mundaréu de coisas sobre a realidade tal qual ela é, foi delicada e minuciosamente vistoriada naqueles trinta e poucos minutos. Mais do que no da ressonância magnética, estive no túnel do tempo.

Na mesma viagem de pouco mais de meia hora, tornei-me um célebre escritor. Publiquei diversos romances, escrevi novelas de enorme audiência para a TV, tive minhas histórias adaptadas para a sétima arte. Fui elogiado mais de uma vez pelo meu autor favorito, o moçambicano Mia Couto. Beijei a jovem e bela cantora country e com ela fiz amor em todas as estreladas noites dos mais lindos lugares do planeta. Com meu filho, no Japão, nós dois de camisa laranja, vi o Fluminense conquistar o mundo. Choramos juntos e regressamos para a nossa praia, por cuja orla pedalávamos toda manhã. Viajei, refiz trajetos, corrigi algumas antigas decisões. No fim, numa jornada grandiosa, constatei quanto a vida é bela, seja de fato, seja pelos voos do pensamento. A beleza, no entanto, mesmo que subjetiva e intransferível para realidades e pessoas concretas, existe e pode dar o tom da experiência humana. Num instante de apreensão, impotência e dor, a vida se agiganta e deixa seu recado: abrace-a e não a abandone jamais – ela quer surpreender positivamente nossa capacidade de sonhar.

Suado e com taquicardia inédita, fui retirado da máquina. Brinquei com a enfermeira dizendo que já havia tido melhores sensações. Ela sorriu. Pensei na cantora country e seus lábios carnudos, no livro de Edgar Morin que me aguardava sobre a cabeceira e na Coca-Cola (uma invenção comunista, segundo a melhor parte do filme Adeus, Lenin) que tomaria assim que retirasse aquele pijama, pusesse minha roupa e respirasse o ar da rua. Saí da clínica confiante. Pela primeira vez, soube que podemos usar o tempo a nosso favor, dominá-lo e dele fazer um uso sensível e inteligente. No bar, pedi a Coca, pensei de novo na cantora country e esbocei mentalmente esta crônica. Lembrei-me do saudoso médico e escritor Moacyr Scliar, que redigia crônicas maravilhosas a partir de pequenas notícias cotidianas publicadas no jornal. O destino está escrevendo o trecho atual da minha vida. Há pouco que eu possa fazer agora. Caberá a mim, logo mais, ter discernimento, humor e alguma rebeldia para torná-lo literário e poético (com pitadas generosas de sociologia), ou seja, absurdamente real, esperançoso e bonito.

25 março 2015

Preconceito


Normalmente, as pessoas preconceituosas são aquelas que não admitem ser vítimas de nenhum tipo de preconceito. Consideram-se muito corretas, amplamente aceitáveis, nem um pouco responsáveis (mesmo indiretamente) por histórias de violência e exclusão.

As mais duras lições de intolerância partem de pessoas que se acreditam em total sintonia com a vontade geral. Julgam que suas roupas, suas falas, suas músicas, suas ideias são exemplo do bom e do melhor. Nem lhes passa pela cabeça a não aceitação, o olhar de soslaio, uma reprimenda por mínima que seja: são seres que se veem situados bem acima de toda condenação prática ou moral.

Essas ilibadas personagens são aquelas que burlam regras públicas, privatizam o mundo da vida, mentem em benefício de seus miúdos interesses e acham que tudo isso é normal. Para essas pessoas tão boas, anormal é ser negro, pobre, gay, diferente, enfim. Só os que são iguaizinhos a elas é que valem a pena.

Infringir leis, desacatar autoridade pública, adulterar números e evidências, tudo é legítimo na defesa de seus finitíssimos particulares. Se uma ínfima parte de qualquer um de seus “erros amigos” for experimentada por gente que não circula em sua roda, aí a questão é criminosa, absurda, um verdadeiro desconjuro – correm para seus gabinetes e templos e organizam uma marcha com Deus e a família, pela liberdade e contra corruptos e comunistas.

Para os puritanos que enchem a boca para falar em compaixão e amor, mulheres podem menos, negros e índios são menos, gays nem deveriam existir. Do mesmo modo, o pobre que trabalha é um coitado e o pobre que rouba é um monstro. O menor que comete um delito deve ser eliminado, desde que não tenha se rebelado dentre os de seu círculo social. Nesse caso, o problema é psicológico e terá todo apoio familiar e dos editoriais da grande mídia.

Preconceito tem cor, sim. Preconceito é também uma questão de gênero, classe, escolha. Ele tem ponto de partida e um mapa de viagem. Ele deseja atingir alguém. Lutar contra o preconceito só pode começar pelo entendimento e pela anulação dessas intenções e desses mapas de ódio e poder.

17 março 2015

A ignorância é um lugar quentinho


Em sua belíssima autobiografia, “Memórias de um intelectual comunista” (2008), o filósofo brasileiro Leandro Konder (1936-2014) afirmou que temia deixar transparecer o desprezo que tinha pela ignorância dos seus alunos. “Eles não têm culpa”, concluiu o professor. Em vez de acusá-los e condená-los, Konder escreveu que preferia lutar contra o mundo e a realidade responsáveis por tanto absurdo.

Nesses termos, as grandes batalhas precisam ser travadas no campo das mídias e da sociedade do consumo fácil, generalizado e vazio.

O fato de os jovens de hoje gostarem tanto das coisas e das pessoas do seu tempo não deveria desobrigá-los de desejar conhecer a diversidade das culturas humanas de outras épocas e variados lugares.

O que torna a ignorância um lugar quentinho e confortável é exatamente isto: o desprezo que se alimenta por aí pelo acervo de saberes acumulados na história, por todas as gentes e gerações.

Gostar da música de agora não proíbe o conhecimento das sonoridades de ontem. Preferir um convívio mais intensificado com aparelhinhos tecnológicos de ponta não representa abominar a leitura de livros e a visita a bibliotecas e ambientes literários. Considerar a internet algo fabuloso não significa concebê-la como vital, alguma coisa sem a qual a felicidade não será possível.

A cultura, a arte, a linguagem, tudo se transforma e modifica as pessoas. Os indivíduos que percebem isso não apenas veem a passagem do tempo, mas o guiam, domam suas conexões inevitáveis com a vida.

Ignorar, no sentido de não saber ou simplesmente desconhecer, não é erro grave, tampouco pecado. Inadmissível, posto que nada humano e sensível, é mudar a conjugação do verbo e dar a ele o entendimento de “não quero saber” e “tenho raiva de quem sabe”.

Eu também prefiro lutar contra as fontes da ignorância a jogá-las sobre as costas do ignorante. Isso me posiciona na contramão dos apelos mágicos do perigoso “lugar quentinho” do não pensamento.

16 março 2015

Da mesma lixeira

Marcelo de Paula Correa e eu, no sábado 14/03/2015, no aconchegante 
Restaurante Frutal do Campo, em Londrina.

Num mundo tão utilitarista e orientado por interesses privados e mesquinhos, uma amizade de quase vinte e cinco anos, que supera distância e seduções do esquecimento, é esperança que não se pode negar; é motivo para festejar a resistência da vida em ser bela e radiante.

Nesses últimos dias aqui em Londrina, Marcelo e eu pudemos relembrar grandes histórias que protagonizamos juntos. Olhando e refletindo em retrospectiva, não é loucura alguma constatar que havia um quê de realismo fantástico em nossa adolescência. Os criadores do excelente desenho animado “Apenas um show” sentir-se-iam inspiradíssimos se nos vissem naquele início dos anos 1990’.

Tínhamos uma boa banda. Lembro que Marcelo era a voz punk, nossa síntese entre Sid Vicious e Johnny Cash; Ronaldo, o baterista, era nosso Animal dos Muppets; o baixista Uirá, o bebezão, era nossa carranca; e eu era o guitarrista cheio de firulas, metido a Eddie Van Halen. O resultado, penso ainda, era autêntico, honesto, promissor. O grande problema era nossa inconsequência: bebíamos tudo que ganhávamos e tínhamos no bolso (quase nada) e na cara-de-pau (infinita); subíamos ao palco sempre bêbados e arrumávamos todo tipo de confusão. Enfim, nunca gravamos um álbum. Pior para a história da música underground, não?

Nosso jubileu consagra também as diferenças que tanto nos aproximam. Marcelo foi para as ciências exatas (um meteorologista de renome internacional), eu, para as humanas (um sociólogo que caminha no Zerão); ele vive em Minas Gerais, eu, no Paraná; ele é um rebelde sofisticado, eu, um comunista impenitente. Nessas aparentes desconexões, nós nos encontramos no espírito cosmopolita, na proposição de valores universais, na carreira acadêmica, na paixão pela boa cerveja e pelo imortal rock’n’roll. No final das contas, temos hábitos tão semelhantes, temperamentos tão gêmeos, vícios e manias absolutamente convergentes. Como muito bem – e com necessário humor – afirmou Marcelo dias atrás, somos da mesma lata de lixo.

Espero que possamos passar bem pelo tempo, que nossos filhos cresçam e se tornem pessoas bonitas, sensíveis e generosas. Espero também que possamos posar para uma fotografia alegre e emocionante em nosso futuro encontro de cinquenta anos de amizade – e até lá possamos reunir muitas novas e sagazes aventuras para lembrar e deixar para a memória da vida. Como disse algum feliz trovador: “A aventura tem de ser louca; os aventureiros é que precisam ser serenos”.

Um brinde permanente à nossa trajetória e à nossa bonita e bem-sucedida geração, Mano!

13 março 2015

Domingo na poltrona da esquerda


Este é um país livre, apesar das tentações e oposições autoritárias de muita, muita gente. Protestar contra o governo federal (ou qualquer forma de mando ou opressão, aliás) é legítimo e deve ser encarado como direito irretorquível de cidadania. Motivos também não faltam: o governo tem sido omisso na luta histórica dos trabalhadores, fazendo estranhos gracejos ao neoliberalismo, aliando-se a velhas e nefastas raposas da política, esbanjando timidez em políticas públicas de desconcentração da renda e constituição de um Estado minimamente social e democrático no país. Ademais, o Planalto Central tem fulgurosa dificuldade de se estabelecer num campo ético à esquerda, que possa ser verdadeiramente mais alternativo e radical, menos oficialesco e conservador. Nesses termos, a discussão é saudável e se notabiliza por pensar o país, seus horizontes e mudanças de fato.

O dia 15/03/2015, no entanto, será resultado de uma convocatória estreita e pouco política, no sentido amplo da expressão. Não é o Brasil que está em questão; é uma determinada visão moralmente preconceituosa, que se alimenta de rusgas e estridentes vazios do pensamento. A pauta da autointitulada "Marcha dos bons" não permite desvios: "redução da maioridade penal" (combater o mal pela superfície, não pela raiz), "gritar que aqui não é Cuba nem Venezuela" (cegueira geográfica e tacanhice sem tamanho), "defender a família contra o comunismo" (????), "exigir intervenção militar constitucional" (meu Deus!!!) e outras diatribes dos publicistas da direita e atuais "estrelas pop" da mídia empresarial. Em vez de qualificar o debate e criticar aquilo que o governo não faz ou faz muito mal, o pessoal do dia 15 baterá novas panelas contra aquilo que o governo tem de menos ruim, ou seja, a realização de um mero ensaio de alguma justiça social no país, abrindo picadas e permitindo acessos àqueles que sempre estiveram silenciados na escuridão da história oficial.

Definitivamente, com esse tipo de gente nas ruas (exercitando um direito conquistado pela democracia que querem negar e pela qual nunca lutaram), o melhor será ficar em casa, vendo um bom filme de David Lynch, ouvindo John Coltrane e lendo Mia Couto.

PS: Se você se percebe ou se declara à esquerda no espectro político-ideológico, não use relógio bacana, não dirija automóveis, não frequente restaurantes, não tenha assinatura de revistas, jornais ou TV a cabo, não crie perfil em redes sociais, não compre produtos da Apple, não viaje para lugares bonitos e jamais segure uma sofisticada caneta MontBlanc. Tudo isso (e muito mais!), segundo os defensores da "economia de mercado", é proibido aos seus opositores. Essas coisas todas seriam conquistas da civilização burguesa e constitui terrível hipocrisia utilizá-las ou delas usufruir e, ao mesmo tempo, postular uma sociedade alternativa. Para o discurso dessa ordem, nada é vitória da inteligência dos trabalhadores e de sua difícil luta pela omnisciência (a palavra é essa, sim!). Tudo é permissão e benevolência do mercado livre e risonho, sem contradições nem opressões de classe, de gênero, de raça, de quase tudo. É dessa gente que se espera algo melhor para o pais e para o mundo no atual e bisonho périplo anticomunista e antibolivariano?!

09 março 2015

Os excêntricos


Existe um quê de incompreensão na opinião que quase todos temos sobre os excêntricos. Os sujeitos da excentricidade nos aparecem como sendo livres demais, autênticos além da conta. É por isso que a reação imediata diante de suas formas de ser, pensar e fazer é tão estridente, tão alarmante.

Por todos os lados, o mundo bombardeia corpos e consciências com discursos inflamados de defesa do considerado justo, bonito e natural. Espera-se e exige-se de todos que adotem para suas vidas opções de existência previamente testados e, portanto, controláveis. Não obstante dotados de inteligência em permanente estado de expansão, os indivíduos mergulhados na dura imposição da normalidade não têm como desconfiar dessa qualidade excepcional e tão distintiva. Então, convertem seus dias numa conta simplificada do amesquinhamento, vivendo um infinito mais-do-mesmo na ilusão de estarem a percorrer o caminho correto rumo à felicidade.

Os excêntricos possuem sentidos refinados e pensamento insubordinável. Não se contentam com mesmices, não querem fazer, nem pensar, nem ser o que todos tanto batalham para fazer, pensar e ser. Na verdade, os excêntricos são desconfiados incorrigíveis – entendem que quando muita gente quer fazer, pensar e ser igual, a saudável igualdade entre diferentes bate asas, voa longe e abandona a oportunidade de realizar uma vida minimamente interessante. Para o coração excêntrico, a liberdade não é a igualdade que combate diferenças, mas o convívio entre diferentes que constroem juntos seus sonhos de igualdade, toda feita pela pluralidade das formas de vida e em nome delas.

Por pensar, ser e fazer diferente é que o excêntrico quer ser reconhecido como igual a todos (um sujeito livre) e, ao mesmo tempo, diferente de todo o mundo (um sujeito mais livre ainda).

Os excêntricos não aderem a modismos: ouvem suas músicas, vestem suas roupas, optam por seus estilos à revelia dos transtornos mercadológicos. Os excêntricos não estão à venda e não querem influenciar nada nem ninguém. Aspiram tão somente à boa vida, que, de modo amplo e abrangente, significa viver em paz, com autonomia e direito a acertar bastante e errar muito.

Num mundo em que se torna cada vez mais desaconselhável expor as incontornáveis fragilidades do humano, os excêntricos são aqueles que ainda sabem o valor de chorar e sorrir, vencer e perder. Por isso tudo, são adoráveis.

06 março 2015

A cidade


"Favela em Cores", de May Naif, uma tela em acrílico e tinta relevo.

É impossível andar pela cidade e não perceber como é frágil sua estrutura, como são vulneráveis nossas vidas em suas ruas.

Caminhando no mundo ou observando seus trechos pelas mídias alternativas, a cidade se revela; todas as cidades se desnudam. Há uma "cidade nua" em cada pedacinho do planeta.

As chuvas embaralham o tráfego, fazem transbordar rios e córregos, encharcam vias e casas. Um trovão, um raio, e muitos se põem em estado de alerta. As cidades nos falam diariamente sobre nossos medos, sobre a angústia da angustiante espera das horas. (Em sua ficção científica “A cidade & a cidade”, China Miéville atenta para o fato de que dentro de cada cidade existe uma outra, oculta e pulsante.)

Na insensatez mais provocadora, os habitantes saem a comprar e dirigir automóveis. Em veículos em que cabem cinco ou seis, um ser solitário passa horas do dia, dias de suas prorrogadas horas. O rádio faz companhia. No íntimo, o desejo do campo, da praia, a contagem regressiva para o fim de semana.

Os seres e seus veículos são um obstáculo para o transporte coletivo de qualidade. Entretanto, sem reivindicação cidadã e coletiva, nada de conforto e decência. O asfalto implora pés e bicicletas, quer mais amigas calçadas e ciclovias. O ar que de mal a pior respiramos suplica mais limpidez. Ele mesmo precisa respirar.

Nas casas de trocas, para onde todo o mundo leva dinheiro e de onde todos saem com coisas e mais coisas, a realidade é refém do sistema. Tudo está on-line e em comunicação permanente, menos as pessoas. Nos bancos, nas lojas e à frente dos computadores, em uníssono, reza-se para que o sistema não caia. Celulares tocam, tocam... As vozes falam muito e não dizem quase nada.

Entre teclas, volantes e cartões que imploram crédito e pedem senhas, temos medo, todos nós. Desconhecemos o outro; ele nos incomoda e é inoportuno. Ao temer e rejeitar o outro, tornamo-nos também eternos desconhecidos de nós mesmos. A programação da TV, então, chega para dizer quem somos e o que devemos ter. Com um clique, curtimos isso; com outro, compartilhamos aquilo, sem comentários. O vazio e a palavra ausente prometem companhia nas andanças pela cidade, mas apenas pela cidade aparente, longe das sombras e das contradições do mundo.