06 março 2015

A cidade


"Favela em Cores", de May Naif, uma tela em acrílico e tinta relevo.

É impossível andar pela cidade e não perceber como é frágil sua estrutura, como são vulneráveis nossas vidas em suas ruas.

Caminhando no mundo ou observando seus trechos pelas mídias alternativas, a cidade se revela; todas as cidades se desnudam. Há uma "cidade nua" em cada pedacinho do planeta.

As chuvas embaralham o tráfego, fazem transbordar rios e córregos, encharcam vias e casas. Um trovão, um raio, e muitos se põem em estado de alerta. As cidades nos falam diariamente sobre nossos medos, sobre a angústia da angustiante espera das horas. (Em sua ficção científica “A cidade & a cidade”, China Miéville atenta para o fato de que dentro de cada cidade existe uma outra, oculta e pulsante.)

Na insensatez mais provocadora, os habitantes saem a comprar e dirigir automóveis. Em veículos em que cabem cinco ou seis, um ser solitário passa horas do dia, dias de suas prorrogadas horas. O rádio faz companhia. No íntimo, o desejo do campo, da praia, a contagem regressiva para o fim de semana.

Os seres e seus veículos são um obstáculo para o transporte coletivo de qualidade. Entretanto, sem reivindicação cidadã e coletiva, nada de conforto e decência. O asfalto implora pés e bicicletas, quer mais amigas calçadas e ciclovias. O ar que de mal a pior respiramos suplica mais limpidez. Ele mesmo precisa respirar.

Nas casas de trocas, para onde todo o mundo leva dinheiro e de onde todos saem com coisas e mais coisas, a realidade é refém do sistema. Tudo está on-line e em comunicação permanente, menos as pessoas. Nos bancos, nas lojas e à frente dos computadores, em uníssono, reza-se para que o sistema não caia. Celulares tocam, tocam... As vozes falam muito e não dizem quase nada.

Entre teclas, volantes e cartões que imploram crédito e pedem senhas, temos medo, todos nós. Desconhecemos o outro; ele nos incomoda e é inoportuno. Ao temer e rejeitar o outro, tornamo-nos também eternos desconhecidos de nós mesmos. A programação da TV, então, chega para dizer quem somos e o que devemos ter. Com um clique, curtimos isso; com outro, compartilhamos aquilo, sem comentários. O vazio e a palavra ausente prometem companhia nas andanças pela cidade, mas apenas pela cidade aparente, longe das sombras e das contradições do mundo.