17 março 2015

A ignorância é um lugar quentinho


Em sua belíssima autobiografia, “Memórias de um intelectual comunista” (2008), o filósofo brasileiro Leandro Konder (1936-2014) afirmou que temia deixar transparecer o desprezo que tinha pela ignorância dos seus alunos. “Eles não têm culpa”, concluiu o professor. Em vez de acusá-los e condená-los, Konder escreveu que preferia lutar contra o mundo e a realidade responsáveis por tanto absurdo.

Nesses termos, as grandes batalhas precisam ser travadas no campo das mídias e da sociedade do consumo fácil, generalizado e vazio.

O fato de os jovens de hoje gostarem tanto das coisas e das pessoas do seu tempo não deveria desobrigá-los de desejar conhecer a diversidade das culturas humanas de outras épocas e variados lugares.

O que torna a ignorância um lugar quentinho e confortável é exatamente isto: o desprezo que se alimenta por aí pelo acervo de saberes acumulados na história, por todas as gentes e gerações.

Gostar da música de agora não proíbe o conhecimento das sonoridades de ontem. Preferir um convívio mais intensificado com aparelhinhos tecnológicos de ponta não representa abominar a leitura de livros e a visita a bibliotecas e ambientes literários. Considerar a internet algo fabuloso não significa concebê-la como vital, alguma coisa sem a qual a felicidade não será possível.

A cultura, a arte, a linguagem, tudo se transforma e modifica as pessoas. Os indivíduos que percebem isso não apenas veem a passagem do tempo, mas o guiam, domam suas conexões inevitáveis com a vida.

Ignorar, no sentido de não saber ou simplesmente desconhecer, não é erro grave, tampouco pecado. Inadmissível, posto que nada humano e sensível, é mudar a conjugação do verbo e dar a ele o entendimento de “não quero saber” e “tenho raiva de quem sabe”.

Eu também prefiro lutar contra as fontes da ignorância a jogá-las sobre as costas do ignorante. Isso me posiciona na contramão dos apelos mágicos do perigoso “lugar quentinho” do não pensamento.