16 março 2015

Da mesma lixeira

Marcelo de Paula Correa e eu, no sábado 14/03/2015, no aconchegante 
Restaurante Frutal do Campo, em Londrina.

Num mundo tão utilitarista e orientado por interesses privados e mesquinhos, uma amizade de quase vinte e cinco anos, que supera distância e seduções do esquecimento, é esperança que não se pode negar; é motivo para festejar a resistência da vida em ser bela e radiante.

Nesses últimos dias aqui em Londrina, Marcelo e eu pudemos relembrar grandes histórias que protagonizamos juntos. Olhando e refletindo em retrospectiva, não é loucura alguma constatar que havia um quê de realismo fantástico em nossa adolescência. Os criadores do excelente desenho animado “Apenas um show” sentir-se-iam inspiradíssimos se nos vissem naquele início dos anos 1990’.

Tínhamos uma boa banda. Lembro que Marcelo era a voz punk, nossa síntese entre Sid Vicious e Johnny Cash; Ronaldo, o baterista, era nosso Animal dos Muppets; o baixista Uirá, o bebezão, era nossa carranca; e eu era o guitarrista cheio de firulas, metido a Eddie Van Halen. O resultado, penso ainda, era autêntico, honesto, promissor. O grande problema era nossa inconsequência: bebíamos tudo que ganhávamos e tínhamos no bolso (quase nada) e na cara-de-pau (infinita); subíamos ao palco sempre bêbados e arrumávamos todo tipo de confusão. Enfim, nunca gravamos um álbum. Pior para a história da música underground, não?

Nosso jubileu consagra também as diferenças que tanto nos aproximam. Marcelo foi para as ciências exatas (um meteorologista de renome internacional), eu, para as humanas (um sociólogo que caminha no Zerão); ele vive em Minas Gerais, eu, no Paraná; ele é um rebelde sofisticado, eu, um comunista impenitente. Nessas aparentes desconexões, nós nos encontramos no espírito cosmopolita, na proposição de valores universais, na carreira acadêmica, na paixão pela boa cerveja e pelo imortal rock’n’roll. No final das contas, temos hábitos tão semelhantes, temperamentos tão gêmeos, vícios e manias absolutamente convergentes. Como muito bem – e com necessário humor – afirmou Marcelo dias atrás, somos da mesma lata de lixo.

Espero que possamos passar bem pelo tempo, que nossos filhos cresçam e se tornem pessoas bonitas, sensíveis e generosas. Espero também que possamos posar para uma fotografia alegre e emocionante em nosso futuro encontro de cinquenta anos de amizade – e até lá possamos reunir muitas novas e sagazes aventuras para lembrar e deixar para a memória da vida. Como disse algum feliz trovador: “A aventura tem de ser louca; os aventureiros é que precisam ser serenos”.

Um brinde permanente à nossa trajetória e à nossa bonita e bem-sucedida geração, Mano!