13 março 2015

Domingo na poltrona da esquerda


Este é um país livre, apesar das tentações e oposições autoritárias de muita, muita gente. Protestar contra o governo federal (ou qualquer forma de mando ou opressão, aliás) é legítimo e deve ser encarado como direito irretorquível de cidadania. Motivos também não faltam: o governo tem sido omisso na luta histórica dos trabalhadores, fazendo estranhos gracejos ao neoliberalismo, aliando-se a velhas e nefastas raposas da política, esbanjando timidez em políticas públicas de desconcentração da renda e constituição de um Estado minimamente social e democrático no país. Ademais, o Planalto Central tem fulgurosa dificuldade de se estabelecer num campo ético à esquerda, que possa ser verdadeiramente mais alternativo e radical, menos oficialesco e conservador. Nesses termos, a discussão é saudável e se notabiliza por pensar o país, seus horizontes e mudanças de fato.

O dia 15/03/2015, no entanto, será resultado de uma convocatória estreita e pouco política, no sentido amplo da expressão. Não é o Brasil que está em questão; é uma determinada visão moralmente preconceituosa, que se alimenta de rusgas e estridentes vazios do pensamento. A pauta da autointitulada "Marcha dos bons" não permite desvios: "redução da maioridade penal" (combater o mal pela superfície, não pela raiz), "gritar que aqui não é Cuba nem Venezuela" (cegueira geográfica e tacanhice sem tamanho), "defender a família contra o comunismo" (????), "exigir intervenção militar constitucional" (meu Deus!!!) e outras diatribes dos publicistas da direita e atuais "estrelas pop" da mídia empresarial. Em vez de qualificar o debate e criticar aquilo que o governo não faz ou faz muito mal, o pessoal do dia 15 baterá novas panelas contra aquilo que o governo tem de menos ruim, ou seja, a realização de um mero ensaio de alguma justiça social no país, abrindo picadas e permitindo acessos àqueles que sempre estiveram silenciados na escuridão da história oficial.

Definitivamente, com esse tipo de gente nas ruas (exercitando um direito conquistado pela democracia que querem negar e pela qual nunca lutaram), o melhor será ficar em casa, vendo um bom filme de David Lynch, ouvindo John Coltrane e lendo Mia Couto.

PS: Se você se percebe ou se declara à esquerda no espectro político-ideológico, não use relógio bacana, não dirija automóveis, não frequente restaurantes, não tenha assinatura de revistas, jornais ou TV a cabo, não crie perfil em redes sociais, não compre produtos da Apple, não viaje para lugares bonitos e jamais segure uma sofisticada caneta MontBlanc. Tudo isso (e muito mais!), segundo os defensores da "economia de mercado", é proibido aos seus opositores. Essas coisas todas seriam conquistas da civilização burguesa e constitui terrível hipocrisia utilizá-las ou delas usufruir e, ao mesmo tempo, postular uma sociedade alternativa. Para o discurso dessa ordem, nada é vitória da inteligência dos trabalhadores e de sua difícil luta pela omnisciência (a palavra é essa, sim!). Tudo é permissão e benevolência do mercado livre e risonho, sem contradições nem opressões de classe, de gênero, de raça, de quase tudo. É dessa gente que se espera algo melhor para o pais e para o mundo no atual e bisonho périplo anticomunista e antibolivariano?!