25 março 2015

Preconceito


Normalmente, as pessoas preconceituosas são aquelas que não admitem ser vítimas de nenhum tipo de preconceito. Consideram-se muito corretas, amplamente aceitáveis, nem um pouco responsáveis (mesmo indiretamente) por histórias de violência e exclusão.

As mais duras lições de intolerância partem de pessoas que se acreditam em total sintonia com a vontade geral. Julgam que suas roupas, suas falas, suas músicas, suas ideias são exemplo do bom e do melhor. Nem lhes passa pela cabeça a não aceitação, o olhar de soslaio, uma reprimenda por mínima que seja: são seres que se veem situados bem acima de toda condenação prática ou moral.

Essas ilibadas personagens são aquelas que burlam regras públicas, privatizam o mundo da vida, mentem em benefício de seus miúdos interesses e acham que tudo isso é normal. Para essas pessoas tão boas, anormal é ser negro, pobre, gay, diferente, enfim. Só os que são iguaizinhos a elas é que valem a pena.

Infringir leis, desacatar autoridade pública, adulterar números e evidências, tudo é legítimo na defesa de seus finitíssimos particulares. Se uma ínfima parte de qualquer um de seus “erros amigos” for experimentada por gente que não circula em sua roda, aí a questão é criminosa, absurda, um verdadeiro desconjuro – correm para seus gabinetes e templos e organizam uma marcha com Deus e a família, pela liberdade e contra corruptos e comunistas.

Para os puritanos que enchem a boca para falar em compaixão e amor, mulheres podem menos, negros e índios são menos, gays nem deveriam existir. Do mesmo modo, o pobre que trabalha é um coitado e o pobre que rouba é um monstro. O menor que comete um delito deve ser eliminado, desde que não tenha se rebelado dentre os de seu círculo social. Nesse caso, o problema é psicológico e terá todo apoio familiar e dos editoriais da grande mídia.

Preconceito tem cor, sim. Preconceito é também uma questão de gênero, classe, escolha. Ele tem ponto de partida e um mapa de viagem. Ele deseja atingir alguém. Lutar contra o preconceito só pode começar pelo entendimento e pela anulação dessas intenções e desses mapas de ódio e poder.