04 abril 2015

Fragmentos


A antidiva Remy Lacroix, cuja beleza arrebatadora unifica desejos 
e fragmenta as possibilidades da sedução.

O incomparável poeta Carlos Drummond de Andrade disse que vivemos uma época de homens partidos. O mundo há tempos se quebrou. Por toda parte, ainda que busquemos uma visão mais abrangente, tudo que vemos são estilhaços da realidade. Vivemos, pois, um tempo de incontáveis fragmentos.

Um fragmento, que é o que todo indivíduo não pode deixar de ser, é um sinal daquilo que vive aos pedaços. A vida anda incompleta demais; falta-lhe sentido – homens e mulheres, alhures, não se entendem, o humano e a natureza interagem precariamente, o bem e o mal se divorciaram, alimentando nas pessoas a ilusão de que em algum lugar a verdade reside intacta.

Ao fragmentar nossas vidas para além do suportável (uma medida cada dia mais difícil de definir), perdemos de vista a totalidade da qual viemos e o destino comum pelo qual seremos responsabilizados. Partidos, quebrados, estilhaçados, não temos como entender quem somos, o que podemos, quais são as esperanças que devemos nutrir. Fragmentos - parcelas miúdas e indecifráveis da condição humana - são presunçosos: creem ser a encarnação do todo, a expressão mais bem-acabada da criação.

Quando lançamos um olhar fragmentário sobre o mundo (dispensando-nos de buscar a complexa totalidade inerente aos fenômenos da vida e de admitir a indelicada parcialidade de nossa constituição como sujeitos), enxergamos tudo numa só direção, com uma só explicação. O médico que nega ser parte de algo maior e insiste na petulância quebradiça dos fragmentos vê a vida como uma doença. O sociólogo, nas mesmas condições, vê tudo como questão social. O futebolista, contagiado pelo “self made man”, como uma mera inspiração para delírios privados, impossíveis de compartilhar. Cada um na sua, enfim, mas com absolutamente nada em comum.

Pela ótica fragmentária que nos esmaga e consome, o mundo, em sua inteireza incapturável, converte-se numa redução tola que o empobrece e o torna frágil diante da arrogância dos que imaginam dominá-lo na teoria e na prática.

Contra os riscos de desumanização de uma vida fragmentada, na qual sobressaem a intolerância, a deselegância e a parca ironia dos petulantes, a grande busca é pela origem. Ao saber de onde vem, por onde passou e aonde pode sonhar chegar, cada um de nós tem a chance de recompor as tramas da vida e convidar para a partilha do mundo todos aqueles que não se perderam entre as mentiras deste nosso tempo de cabeças e corações partidos.