27 abril 2015

Gramsci, os fundos de pensão e os brucutus da rede


Há momentos na vida em que tudo parece nos desafiar de uma só vez. Isso não é ruim. Antes, ao contrário: é nossa chance de averiguar a quantas andam nossos pensamentos e nossas habilidades para botar as ideias no lugar.

Em 2003, li encantado o livro "O ornitorrinco", do sociólogo Francisco de Oliveira. No texto - um ensaio original e instigante que analisava de modo visceral o Brasil que sobrevivera aos trancos e barrancos aos dois governos de FHC -, o tema eram os fundos de pensão e os fragmentos de classe que se tornariam poderosos, independentes e furiosos na disputa pelo acesso aos seus valores. Talvez seja o momento de perguntar quem, de fato, instruiu o governador do Paraná a saquear a poupança dos servidores públicos e chamar a manobra de "ajuste sem maiores consequências e meramente contingencial". Quais ideologias nefastas o orientam? A quem o mandatário serve? A disputa é pelos valores do fundo ou pelo poder que o acesso a ele garante na luta por hegemonia política no Estado? Toda tentativa de olhar superficialmente o problema em nada ajudará. A questão (como toda questão envolvente e complexa) é mais embaixo, muito mais embaixo.

Hoje, 27 de abril, também é aniversário de morte do italiano Antonio Gramsci (1891-1937), cujo túmulo em Roma amanheceu florido, tomado por homenagens e visitas de lutadores da Terra. É um ato simbólico importante, digno de nota neste nosso tempo de ideologias enfraquecidas e utopias apagadas. Gramsci, atacado duramente pela direita recrudescida neste início de século como o grande responsável pelo mal-estar contemporâneo, é um autor gigante, generoso, aberto, em cuja obra se podem constatar beleza, brilho e substantividade democrática. Acredite-se: Gramsci faz bem e deve estar ao lado dos professores paranaenses em sua luta contra os escombros-zumbis neoliberais do último quarto do século XX.

A luta não pode ser entre iguais. E o problema é que os mais fortes entendem a engenhosidade dessa desigualdade. Já que a questão são os fundos de pensão e os poderosos agentes em disputa pelo seu domínio político (muito mais que econômico, repito), que tal entendermos que a mesma Assembleia Legislativa que não se envergonha nem um pouco por arquivar denúncias e pedidos de investigação contra um de seus deputados mais sórdidos e ancestrais é também a casa que se prostra diante do Executivo, abrindo mão de sua autonomia? E que tal olharmos o total acumpliciamento entre os três poderes no Paraná? Aqui, mais que em muitos outros lugares do país, a velha assertiva de Raymundo Faoro em "Os donos do poder" vale ouro: "As elites nunca perderam uma em nossa história." Foi Gramsci em seus escritos sobre os intelectuais e também acerca do Americanismo e do Fordismo que me alertou sobre essa unidade dos poderosos, dissimulada, encoberta por discursos de falsidade jurídica e retórica moralista. Não há independência nem verdade na ação da classe burguesa (ou o que equivalha a isso entre nós): só existem mentiras e busca por benefícios privados.

E por falar em mentiras e amor exclusivíssimo pelos temas da (in)existência privada, andei pensando (e juro que de modo irrefletido e casual) no tanto de gente que entra e sai de nossas vidas no mundo virtual. Confesso que muitos me solicitam amizade e, sem deixar pistas, desfazem o laço. Dos mais de três mil "amigos" que tenho no Facebook, garanto que somente uns cinco por cento correspondem a pedidos de amizade feitos por mim. Não gosto de pedir nada a quem não sei bem quem é ou se vale a pena. Do mesmo modo, não rejeito ninguém, não obstante já tenha desfeito umas poucas relações virtuais e bloqueado uma meia dúzia de brucutus, o tipo de gente que, muito provavelmente, acha que os professores do Paraná e de São Paulo estão equivocados em seus legítimos movimentos grevistas, são safados e indolentes, e os governadores dos dois Estados são gente boníssima, altamente confiáveis e dignos. Desse tipo de gente quero distância. Quando não os deleto nem bloqueio; simplesmente ignoro-os, deixando de seguir o que, digamos, escrevem. As redes sociais, ao contrário do que postulam esses arautos da grosseria e do português sofrível, não é um espaço livre e descampado. Meu perfil é para amigos e pessoas realmente bem-vindas. Quem quiser mostrar a melancia que ostenta sob o pescoço que utilize seus próprios perfis. Escrevi em russo?

Fundos de pensão, barbárie em redes sociais, amizades fugidias e frágeis, governantes e deputados estúpidos, a grandeza do comunista sardo... Tudo isso voou e caiu no olho do furacão de meus pensamentos, tudo ao mesmo tempo, ontem e hoje. Por ora, resta-me somar minhas esperanças à luta dos trabalhadores paranaenses. Elevar o pensamento a um último átimo de razoabilidade dos poderes constituídos no Estado é ato-contínuo a manter mobilizada a frente dos servidores e dos defensores da qualidade e decência na vida pública. Aos que só querem privatismos, como os pugilistas do Facebook, minha sincero aspiração de que deixem em paz os que querem da vida muito mais. Eu, Gramsci e o futuro bom agradecemos desde sempre.