18 abril 2015

Um cafajeste latino


Fotografia de Tatiana Stock, para a instalação fotográfica "Rouge: nas curvas da libido"

Vivo tentando
beijar as bocas
que não me veem
e fitar os olhos
que não me beijam.

Vivo desejando ser
o corpo latino
que aquece e incendeia,
em vez da mente iluminista
que aplaudem (e já nem tanto)

Quero aquelas
que não me percebem
para além de ideias e palavras.
Não sou para o gozo,
o delírio,
a premeditada perda
absoluta dos sentidos.

Nem Galileu, nem Marx;
nada de Bourdieu ou Foucault:
sonho ser amante do
festejo das curvas,
da dança das línguas,
do pulo da pele
que sua,
nua,
despudoradamente,
na rua.

Topo fazer poesia
com as mãos livres,
percorrendo
corpos inteiros,
sem nenhum verso,
nenhuma rima.

Troco tudo por tesão,
sem hesitação,
tão somente
um velho cafajeste.