06 abril 2015

Um muro nada republicano


Acredito que o peso exercido pela imaginação sociológica sobre mim tenha recaído de modo mais intenso na minha incurável mania de observar tudo silenciosamente. Prefiro a conciliação ao enfrentamento, a paz de espírito à alma em chamas. O mundo é um lugar pequeno demais para que nós, humanos, frágeis e finitos, queiramos aparecer além da conta. Fortalecer o olhar que observa alimenta meu desejo pelo anonimato.

É por isso que julgo ter um temperamento tranquilo, acolhedor. Detesto brigas e evito polemizar bobagens e transitoriedades. Quando percebo que alguém quer porque quer mostrar ao mundo a melancia que carrega pendurada ao pescoço, digo a mim mesmo: “Marco, não bata palma para maluco dançar, não!”

Tenho vivido como professor. Muito mais do que uma carreira ou um ofício diário, o professor é uma teoria existencialista. Só persiste na docência aquele que se entende professor antes de tudo, apesar e além de todas as circunstâncias. Ensinar, ouvir, trocar ideias e observar são atitudes que não permitem meio expediente. É-se professor durante o sono e a cada instante do tempo desperto. Não tem jeito.

Há pouco conquistei o que mais queria como mestre – uma luta que atravessou os últimos vinte anos. Hoje trabalho onde sonhei, com o que sonhei, ladeado por tudo que sempre quis. A chegada ao momento atual, contudo, teve turbulências: o caminho foi duro, as veredas, escarpadas.

O universo privado do ensino superior no país é pavoroso. Estive nele por quase duas décadas, muito menos por convicção, muito mais por necessidade inquestionável de sobrevivência material. Ao longo de todo esse período, senti-me um personagem aterrorizado do filme B “Pague para entrar, reze para sair”. Em quase todas as experiências por esse mundo de corrupção e amor patológico pelo dinheiro, presenciei os limites do tratamento vil, no qual o professor era visto como um obstáculo para o comércio de diplomas. Toda vez que a influência do professor pudesse ser cortada, como redução de carga horária ou criação de conteúdos virtuais no lugar das aulas presenciais, não havia hesitação alguma. Vi tanta gente aparecer e desaparecer, perder poder aquisitivo, desfazer-se de bens, rebaixar drasticamente a qualidade de vida. Nas fronteiras do absurdo, esse universo apontava para os trabalhadores da educação a porta dos fundos do inferno, atualizando os círculos de Dante e afundando o futuro do país.

Agora é hora de chorar por causa das novas regras de acesso ao FIES, o financiamento estudantil do governo federal, que impulsionou nos últimos anos um mercado dramático de vagas em instituições que compram tudo pela frente, principalmente almas e corações. Essas faculdades e universidades não admitem critérios mínimos para o ingresso no ensino superior (o que daria a ele algum grau de consistência) e disseminam um discurso fanfarrão, que vai da falsa preocupação com a inclusão social até a ameaça de demissão de mais professores por conta da queda no número de alunos. Esse destempero cínico e criminoso alia-se ainda a uma educação instrumental precária, sem extensão nem pesquisa, a qual condena as novas gerações a um futuro de fracassos irremediáveis.

O dinheiro público deve garantir a vez de escolas e universidades públicas em todos os níveis. Os investimentos em educação devem ensejar horizontes cidadãos e aperfeiçoamentos na vida democrática, e não a recriação de grupos empresariais poderosos, não raro golpistas e nada éticos, responsáveis diretos pelo atraso de nossa via republicana ao terceiro milênio.