24 abril 2015

Uma singularidade plural


O escritor cubano Leonardo Padura, iluminado pela capa de seu belíssimo e obrigatório 
"O homem que amava os cachorros"

Tenho inúmeras e colossais dificuldades para pensar no singular. Há em mim uma multiplicidade de experiências, vidas, encontros e encantamentos. Mesmo quando me predisponho a levar em consideração somente a mim mesmo, erro feio, durmo mal, sinto-me menor. A questão não é de altruísmo. Acredito que seja algo inerente a perceber que, no mundo, somos um mutirão incessante de trocas, materiais e simbólicas, sem as quais nada nem ninguém teria valor algum.

Doem-me de forma aguda e insistente a palavra sem nexo, a crítica descabida, a demonstração fácil da pérfida ignorância. Todas essas agressivas formas de ser (e viver) ganharam explosiva ampliação com o mundo sem fronteiras da internet. Sem mediações nem critérios éticos de exploração do próprio pensamento, indivíduos e organizações elegeram como suprassumo da liberdade o mais insultante apelo de horror contra a antiga e já esquecida massa cinzenta. Concordo com Mauro Iasi: a direita e o conservadorismo que hoje ascendem violentamente nos espaços públicos (pouco públicos e nada aconchegantes) não são novos; estão aí há tempo imemorial - antes, envergonhados; agora, por motivos tão alienígenas quanto suas cosmovisões, faceiros, constrangedores e a conquistar os incautos que não leem, não pensam, têm ódio da história e da reles insignificância, apesar de se acharem tudo de bom e do melhor.

Parte desses zumbis desavergonhados (que não se constrangem nem diante do espelho da vida) inverte e deforma categorias e conceitos, segue inadvertidamente gurus ignorantes, perde de vista o fascismo como um perfil, algo muito mais nocivo e doloroso que sua realização histórica sob proteção estatal na era da guerra total que abriu e atravessou o século XX. Para esses neófitos no universo da inteligência terceirizada, Leonardo Padura, por exemplo, autor cubano do célebre "O homem que amava os cachorros", publicado no Brasil pela Boitempo Editorial, aparece agora como um crítico impiedoso do socialismo e da experiência histórica inspirada na Revolução Russa de 1917. Padura, que vive em Cuba e luta por seu país em campo, no jogo, sem fugir para alpes ou refúgios além-mar, é um pensador generoso, de esquerda, que retrata em seu livro obrigatório, de modo condoído, as lutas e as crenças equivocadas de grande parte dos socialistas do século XX. Mas ele não pula a cerca, não abnega sua história, não rejeita os sonhos pelos quais tanto brigou. O que ele faz em seu livro é algo raro hoje em dia: autocrítica. Por ser irracionalista e se julgar o último refrigerante com gás da senda moral, a direita não entende Padura, não consegue ler seu livro, mente e ainda faz jogo de cena na imprensa e na batalha das ideias.

Por ser plural no pensamento e na ação, procuro me abster de mentiras e autoenganos. Corto na pele quando me flagro em alguma pequena viela de incoerência. Ao mesmo tempo, insurjo-me contra minhas intenções ao captar, ainda que de forma frágil, alguma tentativa de manipular quereres, distorcer fatos, eventos, biografias em movimento.

Minha singularidade plural (não, isso não é um paradoxo!) me põe no mundo para aprender com os percursos e percalços da história. O único requisito para esse aprendizado exigido diariamente é, como poetizou Cazuza, "olhar o mundo com a coragem do cego, entender as palavras com a atenção do surdo e falar com a mão como fazem os mudos."