14 abril 2015

Vermelho


Poucos anos atrás tive a oportunidade de ministrar uma disciplina de Teoria da Comunicação num curso superior de Publicidade e Propaganda. No programa da disciplina havia um item que me preocupou em particular: Semiótica. Tempos antes, de forma meio atabalhoada, tive um desencontro grosseiro com os estudos semióticos. Jurei que fugiria deles como vampiros correm da luz solar, dos colares de alho, das balas de prata e das estacas de madeira. No final das contas, assim como vampiros nunca sublimam seus desalinhos, eu sucumbi à necessidade de estudar para ensinar Semiótica.

O desencontro, entendi, havia sido feito só de ignorância e preconceito. Muita coisa interessante aprendi com a ciência dos significados e significantes. Até hoje, encanta-me a discussão sobre ícones, índices e símbolos. Para mim, é impossível assistir a um comercial de TV sem fazer analogias semióticas. De tudo, permanecem com mais intensidade em minha memória as reflexões que fiz sobre as capas de LPs históricos do rock. Foi a ocasião, inclusive, em que descobri existir gente deste mundo de nosso Deus que nunca ouviu falar nos Beatles nem no cruzamento universal da Abbey Road. Como diria Drummond, vasto mundo este aqui.

A lembrança da Semiótica como desafio intelectual serve agora ao propósito de refletir sobre uma cor especial: a vermelha. O que ela significa nas mais diversas situações da vida? Na atual onda neoconservadora (que de nova pouquíssimo tem), o vermelho foi convertido em litígio ideológico. Para salvar o Brasil e o mundo das ameaças esquerdistas, é urgente extinguir todos os históricos sentidos do vermelho. De que trata e a que remete essa tão viva cor, afinal?

O encarnado – que no Fluminense, minha paixão eterna, é vermelho-grená – evidencia o desejo, a fúria apaixonada, o vigor dos ímpetos que movem o humano. O encarnado vem daquilo que é desconhecido (outros mundos?) e também da carne, o único motivo pelo qual o pecado é invencível. Os puritanos, modalidade quase pré-histórica dos atuais reacionários, têm medo das tentações – e toda tentação é preciosamente vermelha na carne e no espírito, uma encarnação contra a qual se luta em vão.

O vermelho é também escarlate, um rubi valioso. Por isso mesmo, é sinônimo de alcunhas e adornos de heróis (penso rapidamente na armadura de Tony Stark, na capa de Clark Kent, nas cores protagonistas do alter-ego de Peter Parker e no uniforme inteiro de Matt Murdock, o homem sem medo). Nesse sentido, é uma onda que excede os limites da tão propalada fragilidade humana: torna-se, então, infravermelho e passa a enxergar aquilo que ninguém pode ver. O vermelho, por ser heroico, é um poder especial, sonhado, que apavora quem insiste viver de acordo com rotinas e poderes supostamente intocáveis.

A cor do pecado é, portanto, revolucionária, uma utopia viva que não pertence a ninguém, ao mesmo tempo que está ao alcance de todos, desde que, para conquistá-la, não falte coragem. O vermelho é fé, transcendência, um pouco do temor que nos acumplicia ao gosto inexplicável pela vida, mesmo em sua brevidade irreparável. De vermelho, em todas as suas tonalidades, a vida vai além, muito além de promessas ou ameaças. Rubra, a vida é somente vida, nada menos.

O contato tardio, rápido e provisório com a Semiótica me repôs em contato com as bandeiras que ergui no tempo. Não lembro nenhum ideal que me tenha arrebatado sem tremular pelo menos em parte listas ou tórridas faixas vermelhas. Se a vocação dos rebeldes é sangue fervilhando, o vermelho é sua condição. A cor da paixão é também a do pecado, de tudo que é proibido e atiça nossos sentidos, mexe com nossos códigos de alerta. O vermelho fala do tabu, das coisas que precisamos encontrar, sobre as quais falar, de cujas fontes – boas ou más – todos viemos. Há um carregamento imensurável de causas vermelhas em tudo que é humano, estimulante, perigoso...

É no mínimo desfaçatez fugir ao vermelho. Nenhuma cor diz tanto; nenhuma cor deixa tanto a desejar (gigantes desejos!). O vermelho que está na literatura, na poesia, nas utopias e nas paixões é ingrediente essencial, sem o qual a própria vida deixa de ser, sentir, fazer, repartir. Os melhores temperos e as mais indizíveis motivações da sexualidade têm no vermelho sua matriz original. A ancestralidade das palavras – que está lá onde havia cavernas e seus registros rupestres – é signatária da santidade do vermelho, bem como as tintas que na pele sempre expressaram a riqueza cultural dos povos do mundo. Só existe fertilidade onde o vermelho é livre, soberano, paixão do humano pelo humano. 

As bandeiras vermelhas -  os lábaros de cruzeiros estrelados -, de fato ou na rubra imaginação dos lutadores da história, são sempre os símbolos maiores da liberdade e da cruzada infinita pela conquista da igualdade. “Sede vermelho!”, foi uma máxima que aprendi com a Semiótica.