29 maio 2015

A pedagogia da greve


Em 2015, os educadores paranaenses se imortalizaram e estarão nos livros de história do terceiro milênio, que terá uma data-símbolo: 29 de abril

Alguns anos atrás, depois de uma sucessão de atrocidades impostas pela direção de uma faculdade privada em que eu trabalhava, relatei aos meus colegas como seria bom que fizéssemos uma greve, paralisássemos todas as atividades da instituição. No final das contas, aparadas as arestas da violência - que resultou no desânimo de alguns, na cooptação de vários e na covardia paralisante da maioria -, não houve greve alguma. Disse, então, a uma ex-colega que havíamos perdido a chance de escrever uma importante página da história de Londrina. O tempo passou, eu saí da faculdade e as atrocidades, em nome da fome de dinheiro dos proprietários, continuam a ocorrer semestre a semestre, sempre acordadas a portas fechadas, à revelia de professores, alunos e funcionários.

Agora, ingresso na universidade pública, constato que a greve é uma realidade muito dura. Tudo, no entanto, deveria ser bem diferente. O desejado pela maioria da comunidade acadêmica é que as relações com o governo fossem amistosas e inteligentes, que os repasses de recursos fossem observados na sua legitimidade, que os salários fossem ao menos reajustados de acordo com os índices inflacionários oficiais. Nada disso. O governo e uma boa parte da sociedade (a do tipo que se vê representada por gente que chama Kim Kataguiri de "homem-livro") não têm ideia da importância do ensino público em todos os níveis, responsável pela construção de conhecimento e humanidade livres, sem amarras nem obediência a interesses mesquinhos e vendilhões. A liberdade nas escolas e nas universidades significa crescimento de verdade, progresso alternativo, sensível, revolucionário. Talvez por tudo isso é que tantos lhe sejam indiferentes ou avessos.

A greve, que é o último recurso, não resolve tudo. Antes: acumula prejuízos e estabelece futuras dificuldades. O calendário de trabalho será árduo e comprimido; a retomada das atividades será doída e terá de contar com a solidariedade ampla, geral e irrestrita entre todos; a vida terá dado um baque em todos nós, independentemente da vitória que já se deu - não há nada que supere a pedagogia dos afetos que um movimento grevista põe no mundo. Eu, em particular, construí relações de ternura e amizade que irão me acompanhar pelos próximos vinte anos, no mínimo.

O governo paranaense é ruim de diálogo e sofrível na gestão da coisa pública. Composto por inábeis laureados (onde, hein?), joga todo o Estado numa crise sem precedentes e continua a arrotar vaidade e inescrupulosidade. A greve, portanto, acaba se tornando um recurso inevitável, difícil de contornar. Já houve o saque da poupança previdenciária e continua a haver o desprezo pelo processo educacional e pelo patrimônio público. No tocante aos professores - esses que, como ensinou Florestan Fernandes, educam os filhos dos outros e recebem em troca um salário de miséria -, o governo não consegue disfarçar o nojo que por eles tem.

Por isso tudo (e haveria mais ainda a relatar e especular), a greve é sadia e unifica sentimentos de descontentamento e indignação. A beleza das flores que certamente será contemplada num futuro próximo está sendo desde já, na greve e na união, sonhada e semeada. Os caminhos não foram escolhidos pelas escolas e universidades; foram impostos pelo governo. Mas a caminhada será feita por nós, amantes da vida e da arte de educar para mudar o mundo.