27 maio 2015

Cansaço


Cansa esperar por migalhas. Cansa viver de pequenos acordos e longos adiamentos. Cansa (e preocupa) ver crescer a pilha de livros que chegam e não podem ser lidos por pura falta de motivação. Cansa saber que os filmes que se quer ver jamais serão vistos. Cansa ouvir pouco rock'n'roll nas ruas. Cansa perceber e não poder contestar que o mundo é muito, muito maior que a capacidade humana de apanhá-lo e dominá-lo.

Cansa constatar que pouco mudou no Brasil desde 1500. Cansa também ter de ouvir que o mundo de hoje é melhor quando se sabe que isso alcança um número ínfimo de pessoas. Cansa assistir a uma felicidade seletiva e restritiva e, ao mesmo tempo, a uma tristeza amplamente democrática e inclusiva. Cansa não poder negar que o sonho acabou, que o tempo está passando e todo o mundo está mudando. Cansa não poder sentir que o liberal acuado de antes (disfarçado de comunista "pós-moderno") quer ser um sujeito equilibrado daqui a pouco, à mercê da autonomia que tanto lhe é cara. Cansa se esconder aqui ou acolá. Cansa a escuridão que abate indivíduos de olhos abertos e corações fechados.

Cansa atestar que aquilo que é prioritário no discurso não é prioridade nas ações. Cansa não ter partidos políticos e em seu lugar ver surgirem clubes privados de interesses mesquinhos. Cansa ter conhecimento do cerco da corrupção de meio milênio e da exponenciação do cinismo ancestral. Cansa a pequena política que afeta enormemente a vida das pessoas, que, apequenadas, não podem crescer. Cansa que haja pouca política na política e que ela tenha virado sinônimo de coisa ruim e exclusividade dos que não são políticos.

Cansa não vencer o vício e, de muitas maneiras, elegê-lo como o que se tem de bom. Cansa o desamor. Cansa a falta de afeto. Cansa não fazer sexo com paixão. Cansa muito mais uma vida de paixões sem sexo ao cair de todas as tardes e aos domingos de manhã. Cansa reprimir instintos. Cansa sustentar aquilo que, no peito, já é insustentável há muito tempo. Cansa, então, a paisagem no horizonte.

Cansa ter ideias que não se materializam. Cansa ser incompetente para fazer isso. Cansa continuar a povoar o mundo ao redor de ideias que serão para sempre somente ideias. Cansa admitir que as ideias não fazem amor. Cansa a deselegância do cansaço.