14 maio 2015

Labirintos da memória


A história e a memória estão sempre juntas. Além de indissociáveis, revelam sinais de um mesmo fenômeno que se integra a muitos outros, de forma permanente e incessante. A riqueza dessa união está mesmo na complementaridade: enquanto a história reúne fatos e sujeitos reais, que se movimentam no tempo e no espaço, a memória protege os sonhos, tudo aquilo que, apesar de não ter sido, constitui também a realidade. Por carregar consigo a força dos desejos e ideais, a memória é parcela privilegiada daquilo a que se chama verdade.

O uruguaio Eduardo Galeano (1940-2015) e o moçambicano Mia Couto (1955-), dois escritores que têm na memória a matéria-prima de suas letras e narrativas, afirmam que são feitos de histórias (e não de átomos, como sugerem os cientistas menos poéticos). Cada sonho, cada batalha da vida vencida ou perdida, cada manhã desperta no peito, cada noite em claras nuvens, em tudo isso compila-se um traço (milhares de rabiscos) do humano. No fundo, há um esboço (reunião de traços) de história por segundo em toda vida que insiste ser humana, contrariando o ácido tempo presente dos sujeitos-máquinas.

É-se a infância vivida, a adolescência espirrada, os amores concretos, o emprego de fato; soma-se à casa, à roupa, ao carro ou às longas caminhadas; confunde-se com o dinheiro no bolso (ou sua ausência), o celular à mão, a preferência musical, os filmes vistos e os livros lidos. Dessas reuniões e associações é possível extrair os rabiscos, traços e esboços que desenham a história. É o ser que se vê e do qual se fala que nasce dessa complexa composição de fatos, cenários e personagens.

A vida seria acinzentada se fosse só realidade, apenas aparência e angústia particular. Há uma dimensão da memória que confecciona a estimada arte de viver. Tal qual a própria arte (poesia, literatura, pintura, escultura, música, fotografia, cinema etc.), a memória é necessária porque a história só não basta. Para ter luz, curvas, graça e força, a humanidade contém, em suas mais modestas parcelas, o desejo que ficou para trás, o amor não vivido, a viagem interrompida, a canção não tocada, o encontro nunca marcado, a crônica jamais escrita. Muito mais do que de histórias objetivas, registradas e perfeitamente compartilháveis, a vida é um inventário de perdas, reflexões, pulsões, tudo o que se guarda caladamente e, de modo resistente, forma o que não pode ser deflagrado ao mundo dos indivíduos, grupos e classes. Há uma memória do impossível que ronda o espírito humano e contorna as existências – é disso que sobressaem a unicidade e, a um só tempo, a pluralidade que se humanizam ao fazer a história (e serem refeitas por ela) e ao colecionar as múltiplas peças da memória.

Existem na memória, portanto, distintos graus de invisibilidade e esquecimento. Um beijo cujo gosto não se conhece, um corpo cujo cheiro não se pode sentir, uma paisagem cuja beleza não se pode apreciar... Fora d’alma tudo isso é imperceptível. Por causa da dor, do arrependimento ou da frustração, tenta-se em vão eliminar da memória o não vivido. O resultado, então, é o silêncio, esse protagonista daquilo que constitui grandiosamente o ser, tanto quanto anonimamente.

Nos documentos, registra-se a história que se permite conhecer. As motivações, os delírios, as lágrimas e os sorrisos da espessa subjetividade de vencedores e vencidos (de vencidos, principalmente) poucos sabem, quase nada se conta. Entender os porquês da história exige um longo passeio pela memória do tempo e pelos fantasmas que nunca abandonam os espaços em que seus antigos corpos viveram. A vida não pode ser só de história; para ser vida e se desnudar caminho e revelação, ela precisa ter cultivado o exercício de preservação da memória.

A memória é o lado luminoso da história, condenada aos labirintos das palavras que não podem ser lidas e das imagens proibidas de exposição pelo silêncio.