15 maio 2015

A luta continua!


Por razões que se aliam à formação em família e às concepções ideológicas da vida, nunca consegui me juntar àquilo que considero injusto. É assim no tocante a amizades, atividades do trabalho e militância social. Guardo comigo que a única coisa realmente importante que um sujeito tem é a sua trajetória pessoal, a sua linha de coerência em relação ao que diz e faz. Creio, assim, que as perspectivas existam sempre no plural. Quem busca um manual pronto e acabado de como se conduzir no mundo termina mal, triste e altamente sugestionável, inclinado a balançar de um lado a outro na vida. Daí, noves fora coerência, decência, sensibilidade etc.

Alguns meses atrás assisti pela TV a uma entrevista com o estadunidense Richard Sennett, um dos meus diletos sociólogos contemporâneos. Perguntado sobre o porquê de não acreditar no otimismo desenfreado das intenções de DAVOS, cidade suíça em que anualmente se reúne a cúpula do Fórum Econômico Mundial - ou seja, os milionários do mundo -, disse que não poderia manter ilusões quanto às promessas de bem comum e prosperidade geral proferidas por gente que só fala em cifras, lucros, investimentos financeiros e negócios miraculosos com o dinheiro de quem trabalha e não leva muita coisa para casa. Sennett afirmou que é uma opinião que se ancora na coerência, naqulio em que ele aprendeu a acreditar.

Aqui, ao sul do Equador, tenho convicções semelhantes às do autor de "O declínio do homem público". Quando vejo gente graúda (ou a serviço dela) mentindo ou se envolvendo em falcatruas, logo me pergunto se é razoável confiar nesses sobrenomes tão insistentes na seara da corrupção, do tráfico de influência, da longa e doentia tradição patrimonialista brasileira. Em Londrina e no Paraná, por exemplo, o pedigree de certas famílias consideradas "top de marca", sempre presentes em jantares beneficentes, lançamentos de empreendimentos imobiliários e casamentos de deputados, senadores e ministros de Estado, é visto como sinal de qualidade e ilibada moral. Ah, tá.

Conheço muitos desses senhores da alta roda londrinense. Muitos de seus filhos e netos foram meus alunos em um ou outro momento de minha errância pelo ensino superior particular, uma extensão de seus "negócios" pela cidade, aliás. Preconceituosa e arrogante (quando não agressiva e covarde), a maioria dos herdeiros da Davos do Terceiro Mundo é um fiasco ético e moral. Por trás da soberba, dívidas; à frente do sorriso falso, prevaricantes relações com o poder e muita, muita sonegação fiscal, o que permite sobrar para pagar honorários exorbitantes a advogados que dirigem carrões, fazem pose de bons moços e defendem o fascismo praticando-o. (É interessante observar o tanto desses sobrenomes que agora aparecem nos escândalos de pagamento de propina aos fiscais e auditores da Receita Estadual aqui na Pequena Londres.) Tal qual Sennett, não mantenho ilusões. Como diria o velho Barão de Itararé, de onde menos se espera é de lá que não sai nada mesmo.

Durmo mal quando sei que criei expectativas em alguém, sejam de natureza financeira, sejam de ordem afetiva ou profissional. Para evitar a insônia e acalmar o espírito - ciente de que estou a fazer o que é certo -, mantenho minhas contas em dia e só adquiro o que posso pagar. Assumo um padrão de vida compatível com minha realidade de classe e com meu salário como professor da Universidade. Quando gosto de algo sofisticado, vou atrás, junto os pontos e compro, mas isso se limita à minha obsessão por livros e objetos culturais. No geral, aprecio coisas e gentes simples, com as quais tenho aprendido inúmeros sentidos estrondosos para a vida.

Orgulho-me de ser um Rossi, sobrenome italiano tão comum e popular quanto Silva, Souza, Oliveira ou Santos. Satisfaz-me o tempo que passo brincando com meu filho e lendo para ele (ações diárias). Alegra-me saber que meu ofício exclusivo é o de ler, escrever e dar aulas, além de fazer algumas pesquisas para entender um pouco mais do mundo que quero tanto alterar. Alterar, a propósito, é ir em direção ao outro (alter), mudar-se em seu nome. Na vida, o outro é uma generosa porção do que somos e quase tudo que podemos de verdadeiro fazer. Viver só e apenas por si mesmo é o equivalente a não viver.

É por essas e mais algumas razões (e afetos) que vale a pena dizer sempre: "A luta continua!"