24 junho 2015

Meus erros


Errei tanto por aí
e por aqui também.
Cansei de tanto erro,
de tanto tentar não errar,
de tanto errar tentando.

Descobri, então,
que os erros ensinam
muita coisa,
prestam enorme
serviço à imaginação,
à paz de espírito.

A cada erro -
e hoje errei de novo -
reaprendo a amar,
a mim,
a quem está próximo,
aos sonhos que
não morrem,
apesar dos erros
que os entristecem.

Meus maiores erros
são pessoas,
indivíduos
que partejo
para depois
me arrepender -
são os erros
que nada ensinam.

Mas o erro de
considerar
um acerto quem
nada pode nos dar
é um acerto
de contas,
um alívio
também -
é um erro que
frustra,
mas não incrusta:
a alma segue leve,
limpa,
sem vergonha de ser
o que é e daquilo que
ainda sonha ser.

19 junho 2015

Minha fé


Na casa do meu Pai há muitas moradas; 
se não fosse assim, 
eu lhes teria dito. 
Vou preparar-lhes lugar. 
JOÃO 14:2

Sempre fui religioso. De muitos modos, associo Deus à luta pela felicidade e à construção da verdadeira fraternidade. Vejo em personagens como Chico Mendes e Carlos Marighella, por exemplo, um pouco da fortuna cristã de liberdade. E neles também enxergo limites e equívocos. Impossível imaginar uma experiência, divina ou mundana, que não seja permeada pelo erro, pela dúvida e pela necessidade de autocrítica.

Muitos amigos e colegas, ao longo do tempo, estranharam minha fé. "Como pode um sujeito de esquerda acreditar em outros mundos?" - viviam a me questionar. Hoje, essas indagações praticamente sumiram. Não faltam exemplos na história de um socialismo cristão e de movimentos religiosos que lutaram por transformações radicais. Algo, entretanto, permanece a me incomodar.

Se Jesus estivesse por aqui, estaria na periferia, faria suas parábolas em formato de RAP e - não tenho dúvida! - andaria lado a lado com negros, gays, prostitutas, favelados e todos os tipos de rebeldes com causa. Penso até que não entraria em igrejas nem daria a menor bola para Malafaias e Felicianos, deixando que o diabo se encarregasse deles. O incômodo é: por que não se enxerga isso por aí, Deus?

Não há fé sem engajamento em favor dos mais pobres e das causas dos subalternos. Só existe a imagem de Cristo nos espelhos que põem no mundo a insurgência e a contestação. Só há fé que valha a pena onde houver (todas as formas de) amor e muita vontade de botar no chão o conservadorismo moral dos que se julgam filhos da verdade e, para animar seus dias, aninham-se no poder e nas estruturas de mentira, corrupção e mesquinharia.

A fé não alimenta preconceitos, estupidez e segregação. A fé é necessariamente uma ida ao outro, ao diferente, àquele a quem não foi dado o mapa para a festa. O resto é patifaria e enganação.

11 junho 2015

Mais livros, menos "kkkkk"


Antes deste nosso tempo de tanta interatividade, poucos encontravam meios para se expressar. Era preciso um espaço físico num jornal ou revista, um microfone aberto em um estúdio de rádio, um rosto previamente aprovado diante de alguma câmera de TV. Ademais, havia a exigência de escrever razoavelmente bem ou falar com desibinição e clareza. Fora disso, reinavam o anonimato e a reclusão de ideias e impressões do mundo.

De uns anos para cá, a coisa vem se modificando de forma cada vez mais rápida e impactante. Primeiro vieram os blogs pessoais, nos quais aqueles que têm algum talento para a escrita e nunca tiveram oportunidade de se inserir no contexto dos grandes veículos de comunicação e grupos editoriais passaram a colocar no mundo virtual suas histórias, análises e versos.

Mais recentemente, com as redes sociais, uma multidão saiu do completo anonimato e começou a publicar fotos, vídeos e textos enxutos sem nenhum critério que não fosse o desejo de referendar a própria existência. Por meio de meia dúzia de caracteres - muitas vezes incompreensíveis para a maioria dos mortais que vivem longe de seus guetos -, novíssimos personagens entraram em cena, promovendo em ampla escala a intolerância e o mais profundo desrespeito à inteligência.

Os meios de comunicação tradicionais, assustados com a perda de prestígio e obrigados a se reinventar para atingir os novos "leitores", optaram por falar a língua dos assanhados "autores" da nova realidade. No lugar de colunistas e jornalistas forjados no justo trato à palavra e no respeito aos parâmetros da mínima argumentação, os protagonistas da mídia contemporânea (na internet e fora dela) são agora filósofos (sic) que não concluíram o antigo ginasial e em tempos pretéritos, quando o bom senso e o compromisso com fatos e teorias precisava lapidar dizeres e escritos, não teriam lugar nem em pés de página de periódicos de quinta categoria. 

Elevados à condição de gurus das novas gerações, cujo grosso de representantes tem na galhardia e no preconceito seu elixir, esses novos arautos do debate nada público estão a serviço da mesquinharia política, do medievalismo moral e da perseguição brutal aos sujeitos que insistem em ampliar o debate em torno de questões verdadeiramente públicas. 

Esse fenômeno de estupidez e ódio é uma estranha síntese entre 1) a bestialidade da exposição sem critérios num suposto mundo livre de comunicações virtuais, 2) o horror à escola como espaço de formação cidadã e aos livros e 3) a valorização daqueles que antes não eram aceitos em nenhum lugar onde houvesse apelo mínimo à decência pessoal e ao espírito democrático. Vivemos, pois, uma era de zumbis do conhecimento a mercê da máxima do "quanto pior, melhor".

Sentenças que no passado enrubesceriam até o cachorro do vizinho, como, por exemplo, "Mais prisões, menos escolas", hoje são publicadas em blogs e revistas de grande circulação à revelia de qualquer vestígio de vida cerebral. Pior: são compartilhadas nas redes sociais, aplaudidas e acrescidas de risos cínicos, cretinos e acumpliciados ao vazio do pensamento. Não é difícil, portanto, concordar que há um novo fascismo no ar, pouco sutil, violento e covarde, que faz da negação ao enfrentamento público e balizado de ideias a sua principal bandeira.

Antes da chamada WEB 2.0 (desconheço em que versão isso está no momento), era suposto que houvesse no país (e no planeta) crenças preconceituosas e sentimentos de ojeriza às diferenças. As manifestações contra a diversidade, entretanto, eram pontuais e facilmente isoladas de um contexto social mais amplo. Com a abertura dos portais do mundo virtual, a truculência saiu de suas cavernas e ganhou as ruas, sem vergonha, nenhuma timidez, grande disposição para tumultuar o desenvolvimento da vida. Desde então, exemplos de xenofobia, machismo, homofobia e toda sorte de segregação podem ser vistos e sentidos diariamente. Nas redes sociais, aliás, festeja-se a barbárie, compartilhando casos de brutalidade e desamor explícito. No Facebook, virou moda solicitar a amizade de desconhecidos só para ter a quem ofender por posições ideológicas.

Não acredito que essas reflexões sejam fruto de saudosismo ou mesmo de uma melancolia disposta a perceber no presente somente seus aspectos mais negativos e nevrálgicos. A pólis grega e sua fama de ser um espaço público por excelência estão fora de questão - e é muito bom que assim seja. O desafio desta nossa "modernidade megatardia", posto que já foi e voltou no tempo inúmeras vezes, é reelaborar sentidos para o processo educacional, que estará muito além da escola. Nisso tudo, a interatividade deverá estar presente, mediada por pessoas engajadas no respeito mútuo, no rechaçamento dos galanteios à mediocridade de ideias e ações que visem apenas ao interesse dos históricos particularismos de significativa parcela da vida política e cultural. Sem hipérboles, é preciso que tenhamos muito mais livros e muito menos "kkkkk".

09 junho 2015

Vida limpa

Uma simples biografia em mosaico: aos 17, tocando punk-rock; aos 22, na formatura da UEL; aos 30 e poucos, militando; aos 40, pai, sujeito, sociólogo. Em todos os momentos, sempre à esquerda!

Eu cursei Ciências Sociais. E fi-lo porque o quis, de coração aberto e alma na mão. Ouvi de muitos amigos, desde a adolescência, que deveria ir para a universidade e me formar em medicina, direito, engenharia etc. O importante, diziam, é que se faça algo que dê oportunidade de trabalho, alguma estabilidade e não seja perda de tempo.

Bom, segui meu sonho e acabei me tornando sociólogo. Prefiro até dizer que virei Professor de Sociologia. É assim que me vejo. É assim que me sinto. Nunca ganhei rios de dinheiro, sempre tive de apertar cintos e gravatas (poucas gravatas), não agradei a gregos e troianos e fui obrigado, por força de muitas circunstâncias, a dar aula de quase tudo em tudo que é lugar para não capitular diante do deserto do real. Quer saber? Faria tudo de novo.

Num mundo em mutação negativa - contra direitos, fantasias e amor -, eu resisto. Não aspirei a tribunais, clínicas de luxo, escritórios pomposos. Estou me lixando para carrões, mansões e viagens na primeira classe. Como ser comunista e ter tudo isso como prioridade? Seria, no mínimo, uma coisa estranha, incoerente. Não sou "caviar". Na melhor das hipóteses, uma comidinha japonesa no capricho.

Quis o destino que eu me tornasse professor de uma importante universidade pública, a mesma em que estudei. Quis o destino que isso me trouxesse algum alívio. Mas quis o destino, principalmente, que isso coroasse as escolhas que fiz, a insistência em ser um Professor de Sociologia num país em que tantos buscam somente matéria e frivolidade. (Nas horas vagas, é verdade, concorro a um cargo de poeta e cronista.)

Ando livre por aí, sem guarda-costas, sem medo da própria sombra, sem ostentar riqueza num mundo de pobres e miseráveis. Educo meu filho segundo princípios socialistas que são caros a todos em casa. Leio e escrevo à vontade. Olho nos olhos de todo o mundo.

Sabe, sou Professor de Sociologia. E morro de orgulho disso. Quer dizer, VIVO de muito orgulho disso. Vida limpa.

06 junho 2015

Os espaços do silêncio


Um ano atrás, mais ou menos, perguntei numa sala de aula com mais de cem alunos de "Publicidade & Propaganda" quem ali tinha o hábito de ler jornais e revistas. Para minha total perplexidade, ninguém (sim, NINGUÉM!) sequer folheava veículos impressos de comunicação. Dezenas de rugas se formaram em minha testa.

A informação em nada contrasta com os chamados "passaralhos" - os turnos sucessivos de demissão em massa nas redações de velhos órgãos de imprensa. Apenas para ficar com os mais visíveis, "Estado de São Paulo", "Folha de S. Paulo", "Editora Abril" e "Organizações Globo" vivem demitindo em bloco, reduzindo publicações e e deixando mais enxutos seus periódicos. De um lado, fuga de anunciantes e o já clássico país de poucos leitores; de outro, o fenômeno internet, que certamente está reconfigurando de maneira radical a forma de os indivíduos se informarem e entreterem.

O lamentável é a perda dos referenciais. Num passado nada distante, optar pela leitura do jornal "A" ou da revista "B" definia identidade política, perfil cultural e visão de mundo. Os veículos eram feitos pensando em seus leitores e nos modos variados de mantê-los felizes e, portanto, fiéis. Na rede virtual isso é bem mais complexo: a velocidade e a fluidez das palavras e imagens na internet levam consigo raízes e tornam tudo perversamente mutante.

Comecei no ensino superior privado como professor "exclusivo" num curso de Jornalismo. Menos de dez anos depois, o curso foi fechado pela instituição. Conheço dezenas de profissionais de comunicação social e ouço quase todo dia da maioria deles que o futuro profissional que escolheram é nebuloso e angustiante. Sofrem eles, agonizam os leitores em busca de notícias confiáveis e reportagens inspiradoras.

Não é o caso, certamente, de prever e cantar o apocalipse. As coisas irão se metamorfosear. O problema é que, em se levando em conta os ritmos negativos da mudança histórica do presente (com terceirizações e precarizações aos montes), fica difícil imaginar o que poderei ler para reforçar e qualificar minha identidade, com autonomia e coerência, num futuro próximo. Nuvens negras choram?