11 junho 2015

Mais livros, menos "kkkkk"


Antes deste nosso tempo de tanta interatividade, poucos encontravam meios para se expressar. Era preciso um espaço físico num jornal ou revista, um microfone aberto em um estúdio de rádio, um rosto previamente aprovado diante de alguma câmera de TV. Ademais, havia a exigência de escrever razoavelmente bem ou falar com desibinição e clareza. Fora disso, reinavam o anonimato e a reclusão de ideias e impressões do mundo.

De uns anos para cá, a coisa vem se modificando de forma cada vez mais rápida e impactante. Primeiro vieram os blogs pessoais, nos quais aqueles que têm algum talento para a escrita e nunca tiveram oportunidade de se inserir no contexto dos grandes veículos de comunicação e grupos editoriais passaram a colocar no mundo virtual suas histórias, análises e versos.

Mais recentemente, com as redes sociais, uma multidão saiu do completo anonimato e começou a publicar fotos, vídeos e textos enxutos sem nenhum critério que não fosse o desejo de referendar a própria existência. Por meio de meia dúzia de caracteres - muitas vezes incompreensíveis para a maioria dos mortais que vivem longe de seus guetos -, novíssimos personagens entraram em cena, promovendo em ampla escala a intolerância e o mais profundo desrespeito à inteligência.

Os meios de comunicação tradicionais, assustados com a perda de prestígio e obrigados a se reinventar para atingir os novos "leitores", optaram por falar a língua dos assanhados "autores" da nova realidade. No lugar de colunistas e jornalistas forjados no justo trato à palavra e no respeito aos parâmetros da mínima argumentação, os protagonistas da mídia contemporânea (na internet e fora dela) são agora filósofos (sic) que não concluíram o antigo ginasial e em tempos pretéritos, quando o bom senso e o compromisso com fatos e teorias precisava lapidar dizeres e escritos, não teriam lugar nem em pés de página de periódicos de quinta categoria. 

Elevados à condição de gurus das novas gerações, cujo grosso de representantes tem na galhardia e no preconceito seu elixir, esses novos arautos do debate nada público estão a serviço da mesquinharia política, do medievalismo moral e da perseguição brutal aos sujeitos que insistem em ampliar o debate em torno de questões verdadeiramente públicas. 

Esse fenômeno de estupidez e ódio é uma estranha síntese entre 1) a bestialidade da exposição sem critérios num suposto mundo livre de comunicações virtuais, 2) o horror à escola como espaço de formação cidadã e aos livros e 3) a valorização daqueles que antes não eram aceitos em nenhum lugar onde houvesse apelo mínimo à decência pessoal e ao espírito democrático. Vivemos, pois, uma era de zumbis do conhecimento a mercê da máxima do "quanto pior, melhor".

Sentenças que no passado enrubesceriam até o cachorro do vizinho, como, por exemplo, "Mais prisões, menos escolas", hoje são publicadas em blogs e revistas de grande circulação à revelia de qualquer vestígio de vida cerebral. Pior: são compartilhadas nas redes sociais, aplaudidas e acrescidas de risos cínicos, cretinos e acumpliciados ao vazio do pensamento. Não é difícil, portanto, concordar que há um novo fascismo no ar, pouco sutil, violento e covarde, que faz da negação ao enfrentamento público e balizado de ideias a sua principal bandeira.

Antes da chamada WEB 2.0 (desconheço em que versão isso está no momento), era suposto que houvesse no país (e no planeta) crenças preconceituosas e sentimentos de ojeriza às diferenças. As manifestações contra a diversidade, entretanto, eram pontuais e facilmente isoladas de um contexto social mais amplo. Com a abertura dos portais do mundo virtual, a truculência saiu de suas cavernas e ganhou as ruas, sem vergonha, nenhuma timidez, grande disposição para tumultuar o desenvolvimento da vida. Desde então, exemplos de xenofobia, machismo, homofobia e toda sorte de segregação podem ser vistos e sentidos diariamente. Nas redes sociais, aliás, festeja-se a barbárie, compartilhando casos de brutalidade e desamor explícito. No Facebook, virou moda solicitar a amizade de desconhecidos só para ter a quem ofender por posições ideológicas.

Não acredito que essas reflexões sejam fruto de saudosismo ou mesmo de uma melancolia disposta a perceber no presente somente seus aspectos mais negativos e nevrálgicos. A pólis grega e sua fama de ser um espaço público por excelência estão fora de questão - e é muito bom que assim seja. O desafio desta nossa "modernidade megatardia", posto que já foi e voltou no tempo inúmeras vezes, é reelaborar sentidos para o processo educacional, que estará muito além da escola. Nisso tudo, a interatividade deverá estar presente, mediada por pessoas engajadas no respeito mútuo, no rechaçamento dos galanteios à mediocridade de ideias e ações que visem apenas ao interesse dos históricos particularismos de significativa parcela da vida política e cultural. Sem hipérboles, é preciso que tenhamos muito mais livros e muito menos "kkkkk".