19 junho 2015

Minha fé


Na casa do meu Pai há muitas moradas; 
se não fosse assim, 
eu lhes teria dito. 
Vou preparar-lhes lugar. 
JOÃO 14:2

Sempre fui religioso. De muitos modos, associo Deus à luta pela felicidade e à construção da verdadeira fraternidade. Vejo em personagens como Chico Mendes e Carlos Marighella, por exemplo, um pouco da fortuna cristã de liberdade. E neles também enxergo limites e equívocos. Impossível imaginar uma experiência, divina ou mundana, que não seja permeada pelo erro, pela dúvida e pela necessidade de autocrítica.

Muitos amigos e colegas, ao longo do tempo, estranharam minha fé. "Como pode um sujeito de esquerda acreditar em outros mundos?" - viviam a me questionar. Hoje, essas indagações praticamente sumiram. Não faltam exemplos na história de um socialismo cristão e de movimentos religiosos que lutaram por transformações radicais. Algo, entretanto, permanece a me incomodar.

Se Jesus estivesse por aqui, estaria na periferia, faria suas parábolas em formato de RAP e - não tenho dúvida! - andaria lado a lado com negros, gays, prostitutas, favelados e todos os tipos de rebeldes com causa. Penso até que não entraria em igrejas nem daria a menor bola para Malafaias e Felicianos, deixando que o diabo se encarregasse deles. O incômodo é: por que não se enxerga isso por aí, Deus?

Não há fé sem engajamento em favor dos mais pobres e das causas dos subalternos. Só existe a imagem de Cristo nos espelhos que põem no mundo a insurgência e a contestação. Só há fé que valha a pena onde houver (todas as formas de) amor e muita vontade de botar no chão o conservadorismo moral dos que se julgam filhos da verdade e, para animar seus dias, aninham-se no poder e nas estruturas de mentira, corrupção e mesquinharia.

A fé não alimenta preconceitos, estupidez e segregação. A fé é necessariamente uma ida ao outro, ao diferente, àquele a quem não foi dado o mapa para a festa. O resto é patifaria e enganação.