06 junho 2015

Os espaços do silêncio


Um ano atrás, mais ou menos, perguntei numa sala de aula com mais de cem alunos de "Publicidade & Propaganda" quem ali tinha o hábito de ler jornais e revistas. Para minha total perplexidade, ninguém (sim, NINGUÉM!) sequer folheava veículos impressos de comunicação. Dezenas de rugas se formaram em minha testa.

A informação em nada contrasta com os chamados "passaralhos" - os turnos sucessivos de demissão em massa nas redações de velhos órgãos de imprensa. Apenas para ficar com os mais visíveis, "Estado de São Paulo", "Folha de S. Paulo", "Editora Abril" e "Organizações Globo" vivem demitindo em bloco, reduzindo publicações e e deixando mais enxutos seus periódicos. De um lado, fuga de anunciantes e o já clássico país de poucos leitores; de outro, o fenômeno internet, que certamente está reconfigurando de maneira radical a forma de os indivíduos se informarem e entreterem.

O lamentável é a perda dos referenciais. Num passado nada distante, optar pela leitura do jornal "A" ou da revista "B" definia identidade política, perfil cultural e visão de mundo. Os veículos eram feitos pensando em seus leitores e nos modos variados de mantê-los felizes e, portanto, fiéis. Na rede virtual isso é bem mais complexo: a velocidade e a fluidez das palavras e imagens na internet levam consigo raízes e tornam tudo perversamente mutante.

Comecei no ensino superior privado como professor "exclusivo" num curso de Jornalismo. Menos de dez anos depois, o curso foi fechado pela instituição. Conheço dezenas de profissionais de comunicação social e ouço quase todo dia da maioria deles que o futuro profissional que escolheram é nebuloso e angustiante. Sofrem eles, agonizam os leitores em busca de notícias confiáveis e reportagens inspiradoras.

Não é o caso, certamente, de prever e cantar o apocalipse. As coisas irão se metamorfosear. O problema é que, em se levando em conta os ritmos negativos da mudança histórica do presente (com terceirizações e precarizações aos montes), fica difícil imaginar o que poderei ler para reforçar e qualificar minha identidade, com autonomia e coerência, num futuro próximo. Nuvens negras choram?