09 junho 2015

Vida limpa

Uma simples biografia em mosaico: aos 17, tocando punk-rock; aos 22, na formatura da UEL; aos 30 e poucos, militando; aos 40, pai, sujeito, sociólogo. Em todos os momentos, sempre à esquerda!

Eu cursei Ciências Sociais. E fi-lo porque o quis, de coração aberto e alma na mão. Ouvi de muitos amigos, desde a adolescência, que deveria ir para a universidade e me formar em medicina, direito, engenharia etc. O importante, diziam, é que se faça algo que dê oportunidade de trabalho, alguma estabilidade e não seja perda de tempo.

Bom, segui meu sonho e acabei me tornando sociólogo. Prefiro até dizer que virei Professor de Sociologia. É assim que me vejo. É assim que me sinto. Nunca ganhei rios de dinheiro, sempre tive de apertar cintos e gravatas (poucas gravatas), não agradei a gregos e troianos e fui obrigado, por força de muitas circunstâncias, a dar aula de quase tudo em tudo que é lugar para não capitular diante do deserto do real. Quer saber? Faria tudo de novo.

Num mundo em mutação negativa - contra direitos, fantasias e amor -, eu resisto. Não aspirei a tribunais, clínicas de luxo, escritórios pomposos. Estou me lixando para carrões, mansões e viagens na primeira classe. Como ser comunista e ter tudo isso como prioridade? Seria, no mínimo, uma coisa estranha, incoerente. Não sou "caviar". Na melhor das hipóteses, uma comidinha japonesa no capricho.

Quis o destino que eu me tornasse professor de uma importante universidade pública, a mesma em que estudei. Quis o destino que isso me trouxesse algum alívio. Mas quis o destino, principalmente, que isso coroasse as escolhas que fiz, a insistência em ser um Professor de Sociologia num país em que tantos buscam somente matéria e frivolidade. (Nas horas vagas, é verdade, concorro a um cargo de poeta e cronista.)

Ando livre por aí, sem guarda-costas, sem medo da própria sombra, sem ostentar riqueza num mundo de pobres e miseráveis. Educo meu filho segundo princípios socialistas que são caros a todos em casa. Leio e escrevo à vontade. Olho nos olhos de todo o mundo.

Sabe, sou Professor de Sociologia. E morro de orgulho disso. Quer dizer, VIVO de muito orgulho disso. Vida limpa.