24 julho 2015

Vida cotidiana e pensamento crítico


Publicado originalmente no jornal A Cidade, de Cornélio Procópio/PR, em 06 de junho de 2004.

O lugar de nossa experiência é a vida cotidiana. O trabalho, o espaço da família, de nossos hobbies, nossas preferências musicais, literárias, gastronômicas, bem como as cidades, as praças, as festas, as casas e as lojas que gostamos de frequentar, tudo isso é o grande quadro de práticas e impressões que nos lapidam o caráter, formam a consciência que temos (ou podemos ter) da vida e do mundo.

Há, contudo, na experiência de nossa existência cotidiana, uma grande armadilha, uma cilada das boas. Raras vezes percebemos que nos limites e pressas de nossa vida diária não existem meios para refletirmos com mais cuidado sobre os acontecimentos que nos circundam, que nos envolvem, que nos tomam de corpo e alma. Limitados pela nossa existência pessoal intransferível e muitas vezes difícil e “suada” (família, trabalho, etc.), usamos dinheiro, brigamos por ele, poupamos, fazemos contas, mas não sabemos de onde vem o vil metal, quem o estabeleceu como valor de troca, por que alguns têm tanto, outros, nada. Do mesmo modo, assistimos a TV, lemos o jornal, ouvimos o rádio, mas não paramos para nos perguntar sobre a fantástica descoberta, a incrível invenção desses meios de comunicação social; não nos damos conta também de que a notícia que eles nos passam tem interesses específicos, mascara a realidade, tenta nos “doutrinar”, “ensinar” o que seus proprietários e financiadores querem que a gente saiba, aceite por verdadeiro.

Contra essa loucura de uma vida cotidiana que nos absorve inteiramente, deixando pouco espaço para atividades importantes como a leitura, as artes, os bons programas culturais (cinema, teatro, etc.), resta-nos desenvolver de alguma forma o pensamento crítico. Trata-se, portanto, de entender o que não está visível, o que está propositadamente ocultado, escondido. Em uma palavra: pensar criticamente significa, como nos ensina o sociólogo estadunidense Peter L. Berger, em importante livro escrito em 1963 (“Perspectivas Sociológicas”), olhar por trás dos bastidores.

Para o fortalecimento do pensamento crítico, no entanto, muitas coisas são necessárias em nossa sociedade. Antes de mais nada, a educação (nossas escolas e universidades) precisa se livrar do “maldito” ensino técnico, exclusivamente profissionalizante, voltado quase totalmente para a formação do (precário) trabalhador. É preciso que tenhamos uma educação humanista, cidadã, que nos prepare para a vida, para os desafios de construção de um mundo melhor. Para tanto, o incentivo à leitura e a disseminação de valores como a solidariedade e o respeito pela coisa pública necessitam de maiores cuidados e preocupações. Saber ler, por exemplo, é muito mais do que reconhecer letras e palavras; é poder interpretá-las, traduzi-las, usá-las de modo crítico, humano, construtivo. Gostar e ler de verdade bons livros, bons jornais... é mais importante do que apenas saber ler (o que não significa entender o que se lê!)

Além disso, os meios de comunicação social, como as TVs e rádios, bem como as revistas e jornais impressos, precisam ser democratizados, para que a diversidade de opiniões e a multiplicidade dos valores e sentimentos críticos possam debater conosco, nos ensinar, nos possibilitar uma experiência de vida mais rica. Para ter uma breve ideia, os principais veículos de comunicação em nosso país (incluindo nisso as redes de TV, as estações de rádio e os grandes jornais de circulação nacional) pertencem apenas a meia dúzia de famílias, ricas, poderosas, que estão no poder (ou têm bons “amigos” por lá) desde que o Brasil é Terra de Santa Cruz. Somente a crítica de nosso pensamento, que pode nos levar para muito além da limitada existência cotidiana de todos nós, desvenda essas histórias e oferece saídas para nós. Portanto, pensemos nisso e comecemos já a investigar criticamente nossas próprias existências. Afinal de contas, o que está em jogo é o nosso próprio destino: não o deixemos nas mãos de ninguém. Ele nos pertence. É isso.