31 outubro 2015

Espaço de captura


Foto-arte do genial Erik Johansson

Hoje, 31 de outubro de 2015, faz um ano que foi ao ar minha última coluna no extinto CBN Cidadania. Lembro que era um comentário entusiasmado sobre o filme brasileiro "O lobo atrás da porta". Como a insatisfação com o "ambiente" de trabalho já ocorria fazia um bom tempo, já se passa bem mais de um ano que não ouço nem um segundo da programação nacional e local da estação afiliada das Organizações Globo.

Nesse período, confesso, ainda não sei se o fim de minha coluna eletrônica diária me fez mais bem ou mais mal. Sinto falta da disciplina de redigir diariamente um comentário, de estar o tempo todo ligado no que acontecia em Londrina, no Brasil e mo mundo. A intenção - não sei se concretizada para valer - era oferecer um contraponto às opiniões hegemônicas disseminadas pelos grandes veículos de comunicação. Intimamente (e pela palavra de muitos amigos próximos), eu julgava cumprir ao menos parcialmente esse difícil papel.

Alguns meses atrás, desisti de uma ação judicial que movia contra a rádio por perdas e danos morais e materiais. A vitória, alertavam-me os advogados, era certa. Mas, honestamente, preferi declinar: a ideia de adquirir bens tangíveis ou intagíveis com dinheiro que viesse por indenização daquele grupo empresarial (e em particular de seu inclassificável diretor geral) me causava calafrios. Continuo convicto de que tomei a decisão certa. Graças a isso, mantenho minhas mãos limpas e olho meu filho de cabeça erguida e coração aberto.

Entristece-me que, após minha saída da rádio (uma demissão efetivada pelo telefone através de uma funcionária de segundo escalão), nenhum veículo comercial de Londrina tenha sequer respondido aos meus acenos interessados de a eles levar meus escritos e narrativas - nenhuma rádio, nenhum dos dois jornais impressos, nada.

Duas hipóteses para essa indiferença me parecem as mais plausíveis: ou o que eu fazia era ruim (e eu quero acreditar que isso possa ter acontecido em alguma medida, posto que estou de modo recorrente tentando melhorar e avançar), ou os "donos da mídia" em Londrina de fato tomam café, almoçam e jantam juntos todos os dias e noites, fritando em óleo quente seus opositores e desafetos - e com eles se senta à mesa uma expressiva parcela dos políticos locais, é óbvio. A segunda hipótese me parece mais compatível com a realidade das comunicações no país e com o histórico coronelismo midiático de Londrina.

O italiano Umberto Eco criou uma categoria analítica interessante para explicar a presença de sujeitos de esquerda no seio dos veículos de comunicação oligopolizados em todo o mundo: "espaço de captura". Creio que seja um cálculo frio e bastante preciso. Para cada visão crítica e autônoma, dez comentaristas empastelados e cooptados são produzidos e levados à "opinião pública", de modo que a letra independente se perca facilmente no vácuo e surja diante da população como algo excêntrico, um ponto fora da curva incapaz de produzir alguma coisa a mais.

Olhando em retrospectiva e recordando nome e opinião dos colunistas da CBN em Londrina e em todo o país, ilumina-me as ideias o conceito de Umberto Eco. Fui "capturado" para que os "donos da mídia" não parecessem sectários e exclusivistas, soassem democratas e liberais, quando, na verdade, minha presença em seu time de comentaristas reforçava exatamente o contrário, de modo sutil e bastante perverso, ideologicamente programado e eficaz. No fundo, fiz o que queriam que eu fizesse: falasse às moscas do estúdio onde gravava de modo tão apaixonado meus comentários de mínimo alcance.

Agora, exatamente um ano depois, dou por encerrada definitivamente essa parte de minha história. Tenho uma vida acadêmica para curtir e alimentar. É possível que dia desses apareça uma oportunidade para escrever num bom jornal. Quem sabe, não? Até lá - antes e depois - sigo em frente, fazendo o que sei e defendendo as coisas, pessoas e ideias em que acredito, sem me vender nem me emprestar - ainda que quase sempre levando para casa um bom monte de ilusões.