24 dezembro 2015

Lista de desejos para o Natal e 2016


O ano de 2015 foi mesmo difícil. Politicamente tenso. Economicamente pobre. Culturalmente assustador. É como se os guardiões do tempo tivessem descansado e largado a humanidade à própria sorte. Aliás, afirmar que este foi um ano da mais pura falta de sorte é só a maneira menos trágica de dizer que vivemos um ano de contumaz azar e grosso revés.

É compreensível, portanto, que todos queiramos o fim de 2015. Se possível fosse, adiantaríamos o relógio em uma semana e cairíamos ainda hoje, durante os brindes e festejos de Natal, em 2016. Seria um presente extraordinário e inesquecível. O fato, contudo, é que a chegada do ano novo não trará, em si, pessoas melhores, cenários mais belos, histórias mais justas. O ano novo está nos nossos sonhos e só pode se materializar nas nossas lutas cotidianas. 

Sei que estamos a poucas horas do Natal e o simbolismo da data pede que sejamos esperançosos (naquele inadequado sentido de “esperar” e nada realizar). Na vida, entretanto, o milagre somos nós, aquilo que pensamos e os resultados de nossas palavras e ações.

Por isso, fiz uma lista de desejos (pelos quais lutarei todo dia em 2016), os quais contêm expectativas e votos de grande expansão e disseminação.

Que o ano novo transborde palavras mais generosas e ideias mais estimulantes – e desapareçam a obscuridade e o ódio.

Que a partir de 1º de janeiro de 2016 reinem tranquilas e soberanas a beleza e a bondade – e seja para sempre extirpado de nosso convívio o abscesso horrendo das mentiras e da dissimulação.

Que o novo tempo traga mais luta – e encerre os longos e insistentes períodos de luto.

Que José Eduardo Agualusa, Luis Fernando Veríssimo, Gregório Duvivier, Vladimir Safatle, Márcia Tiburi e Guilherme Boulos escrevam muito mais nos jornais e revistas – e os cronistas e publicistas de direita se cansem do ofício de driblar o bom senso, a verdade e os livros de história.

Que passemos mais dias na praia – e o mínimo necessário em frente a computadores.

Que viajemos mais – e aprendamos a sair do chão.

Que dancemos como loucos – e desconfiemos sempre de quem não pratica um bom dois-para-lá-dois-para-cá.

Que se multipliquem os investimentos na educação pública – e sejam esquecidos os acréscimos de dinheiro público nas instituições de ensino privadas.

Que na política haja mais Chico Alencar e menos Eduardo Cunha. Que brilhe mais Jean Wyllys e apareçam muitíssimo menos Bolsonaro e Feliciano. Enfim, que resplandeça o PSOL e se apaguem o PMDB e seus genéricos e similares.

Que conquistem mais corações Leonardo Boff e Frei Betto – e caiam no anonimato Malafaia e afins.

Que sejam produzidas dezenas de programas Havana Connection na internet – e os leitores de Veja e da grande imprensa sejam tomados pela vontade de questionar pelo menos um pouquinho o que leem.

Que toque boa música em toda parte, que se leiam grandes livros mundo afora, que filmes inteligentes e divertidos reúnam à sua frente turmas e famílias inteiras – e o já famoso lixo cultural seja incinerado nos aterros da memória coletiva.

Que role mais bola na praça e ocorram mais caminhadas nos parques – e as redes sociais inspirem menos, muito menos.

Que triunfe o Fluminense e se propague pela América e pelo mundo a alegria tricolor – e no futebol desapareçam de vez a velha cartolagem, os erros criminosos de arbitragem e os programas esportivos obtusos.

Que a maioria dos comentadores e compartilhadores nas redes sociais descole um emprego ou encontre uma boa roça para carpir – e o bom debate seja travado com brindes à boa educação e afagos à inteligência.

Que seja apreciado o pôr-do-sol – e desligada de vez em quando a rede Wi-Fi.

Que se caminhe demoradamente pelo campus da UEL – e sejam ignoradas as atribulações e tarefas estafantes e nada produtivas.

Que se multipliquem as delícias do amor – e se vão as dores no coração.

Que pululem as ideias para debater - e suma a vontade de bater naqueles que têm ideias.

Que vinguem mais produções originais Netflix – e percam todos os telespectadores o jornalismo da desgraça e os humorísticos sem graça nenhuma.

Que 2016 seja um ano de muita Sociologia – e bem pouco positivismo, quase nenhum formalismo, nada de filosofia de boate.

Que as bibliotecas recebam milhões de visitantes – e o Google seja abandonado de vez em quando.

Que sobre tempo – e falte preguiça.

Que abraços, beijos e momentos acalorados absorvam os amantes – e o desamor do capital seja desmascarado como ilusão.

Que toque muito Pearl Jam e Zé Geraldo por aí – e tenham pouco ânimo os baluartes da indústria cultural.

Que os bolsos se enriqueçam na mesma proporção dos espíritos – e a vida deixe de ser vista como uma mera mercadoria.

Que a esperança que conduz a mais voz e vez soterre o medo, a mordaça e os sujeitos de colarinho branco.

Enfim, que neste Natal um lindo conto de paz e paixão seja lido a céu aberto para toda a humanidade – e seja 2016 o ano de início da conversão deste conto em doce e revolucionária realidade.