23 dezembro 2015

Oração ao arqueólogo do futuro


Alguns anos atrás, a Agência Carta Maior publicou uma série de textos num especial intitulado “Ao arqueólogo do futuro”. Notáveis da literatura, do pensamento social, da ciência e das artes escreveram artigos endereçados àqueles que, após a extinção da humanidade, viriam de outras galáxias para tentar descobrir o que pensamos, fomos e fizemos. Enfim, os extraterrestres estariam interessados nos motivos de nossa extinção e dariam aos tribunais do universo um parecer de justiça ou injustiça quanto ao nosso desaparecimento.

Os convidados do projeto escreveram, em sua maioria, em defesa de nossa história comum. Filmes, livros, discos, lutas que merecem lugar de destaque em qualquer lugar deste ou doutro planeta rechearam seus argumentos. Em cada texto, o que havia eram mensagens aos exploradores espaciais, dando-lhes dicas sobre o que procurar e levar em conta antes de considerar os seres humanos um projeto falido desde a nascença.

Se o fim viesse hoje, por exemplo, seria pouco sensato desconsiderar o nível a que chegamos na evolução técnico-científica; na beleza de nossa arquitetura em cidades de todo o mundo; na trajetória de lutas dos povos dos cinco continentes em favor da liberdade e da justiça; na precisão instrumental e emotiva do cinema; na imaginação de nossas sendas literárias; na suavidade de nossa poesia; no caráter paradisíaco de nossas praias, montanhas e dádivas naturais; no essencial de nossas lições de solidariedade em face do outro, do menos favorecido. Apesar da extinção – que teria vindo da ambição de poder e guerra de alguns poucos e da fúria irracional contra o meio ambiente de corporações e parceiros do absurdo -, os vestígios de nossa presença na Terra revelariam também epopeias de amor, resistência e coragem.

Às vezes, considero que estamos bem próximos do aniquilamento. Melhor: que já vivemos num estágio posterior, algo como uma existência depois do fim do mundo. Há muito o que lamentar nos dias atuais. Da política que anda para trás (revirando túmulos de farsas e tragédias seculares) à economia que diz amém às desventuras mais insanas de investidores sedentos por muito lucro e quase nenhum trabalho, o tempo presente tem sido angustiante. Como de supetão, ideias que pouco tempo atrás se envergonhavam de si mesmas e pessoas que evitavam se olhar no espelho ganham às redes sociais na internet e, em vários momentos, as ruas e vielas urbanas de todo o planeta, pregando soluções fáceis e estúpidas para questões difíceis e exigentes. A defesa do indefensável abraçou o senso comum, colidiu contra a inteligência e se converteu em comentário de internet. Mais do que nunca, todos são agora especialistas em política, cultura e sociedade. E para chocar ainda mais a velha e desgastada razão iluminista, a ética virou uma mercadoria como outra qualquer, cujo valor está no interesse mesquinho e insalubre mais urgente.

Se chegasse a visitar nossos escombros “civilizatórios”, o arqueólogo do futuro teria convulsões ao ler comentários fascistas em algum smartphone resistente a hecatombes. Ele provavelmente se perguntaria se aquilo foi verdade ou mentira, tamanha a falta de razoabilidade expressa nas palavras – sem falar, é claro, nos insultos incessantes contra a língua portuguesa, uma das mais sofridas vítimas dos neofascistas da rede. Para evitar o mal-estar, prefiro acreditar que os absurdos que leio nos perfis de alguns indivíduos são sempre mais uma postagem do site de humor “O Sensacionalista”. Dói menos.

Há multidões ávidas por visibilidade na sociedade contemporânea. A internet, que não se fez acompanhar de mais leitura e muito mais sensibilidade, deu margem aos delírios dos ex-anônimos. Da inocência pueril dos autorretratos nas praças de alimentação do shopping center às fotografias tiradas em frente a espelhos para mostrar corpos e adornos, o desfile de egos é uma lei em expansão. Em restaurantes, salas de aula, sofás de casa, pontos de ônibus, filas de banco, praças, praias e parques, lá estão os indivíduos e seus aparelhos portáteis conectados às redes sociais, compartilhando o buraco do mundo que se encontra na pré-existência daqueles que não têm um sentido para a vida. Repito: esse enorme vácuo, contudo, não entristeceria os arqueólogos do futuro, uma vez que nada desnudam, nada inspiram. O problema é a delinquência que faz escola, o ruído obtuso daquilo que Hannah Arendt chamou de vazio do pensamento, hoje alocado com pompa e circunstância nos feeds do Facebook, do Twitter etc.

Discursos e sentenças de orientação misógina, machista e homofóbica são comuns no mundo virtual (aqui a ideia de virtual, infelizmente, tem tudo para se tornar um porvir, um provável cada vez mais comum na vida real). Muitas vezes travestidos de “piada” ou “simples brincadeira”, os insultos apontam para os caminhos do ódio e da incongruência, da intolerância e do desapego à democracia como um valor universal. Moralistas e desavergonhados, os comentadores da internet gritam que são censurados toda vez que alguém questiona seus absurdos. Dizem-se liberais, sem ter a mínima ideia do que isso, de fato e historicamente, significa. Acusam de “comunistas” e “bolivarianos” (pasmado, caro leitor?) aqueles que julgam a razão do atraso do mundo. Na prática, entretanto, nem liberais conseguem ser, posto que são mesmo autoritários, intransigentes e, não raro, covardes.

Rogo aos céus que os arqueólogos do futuro não encontrem na Terra notebookstabletscelulares e nenhum tipo de computador que porventura tenha pertencido a esses exemplares desumanizados da espécie. Rogo ainda mais que nossos vistantes sejam incapazes de estabelecer conexão com algum servidor de internet perdido soterrado nos destroços de nosso servilismo à barbárie que, um dia, teria (ou terá) nos exterminado.

Ao mesmo tempo – graças a Deus, a vida é pura contradição! -, torço pela sobrevivência da obra literária e poética de Mia Couto, Machado de Assis e Manoel de Barros; da discografia do Pearl Jam, dos Beatles e do Led Zeppelin; da rebeldia de Bob Dylan e Che Guevara; dos filmes de Stanley Kubrick e Ken Loach; das ideias de Antonio Gramsci e Walter Benjamin; dos amores impossíveis e inspiradores das pessoas simples e sonhadoras que existem aos montes na vida real (e também virtual).

Ao arqueólogo do futuro caberá saber separar o joio da joia. Oremos.