31 dezembro 2016

Caracóis


Passei dias
pensando em versos
que coubessem
neste tempo
tão avesso
a poesias,
tão bruto
com as palavras.

Instante após instante
inundava-me o vazio:
nada me visitava,
pouco me acenava,
um sentimento
desolador
tomava conta de mim.

Nem mesmo
de olhos fechados,
quando penso
nela toda,
toda minha,
me fazendo feliz,
algo me vinha
à cabeça,
ao coração.

A morena
dos cabelos
encaracolados
tentou então
me dizer algo.

Acordei,
percebi que
estava num
imenso sonho...

Os tempos difíceis
irão acabar...
Será que
os cabelos
de caracóis
virão?

Sigo pensando,
só não sei se
estou dormindo
ou permaneço
acordado.

30 dezembro 2016

Amigos prováveis


Desestabiliza-me o tempo presente. Durmo e acordo tentando entender o que está acontecendo e quais eventos nos trouxeram com tanto ardor a esse abismo sob a ponta dos pés.

Preferencialmente, reflito sobre tudo isso dormindo.

Noite passada, sonhei com Walter Benjamin. Em lugar desconhecido (pela paisagem urbana, arrisco-me a dizer que vivíamos em algum ponto à margem do Mediterrâneo), a década era a de 1960. Benjamin morrera antes. Eu nasceria um pouco mais tarde. Como nos sonhos tudo é possível, encontramo-nos entre a morte e a vida, desenvolvendo uma cumplicidade que me fez mergulhar em sono profundo por mais de oito horas.

Benjamin e eu éramos adolescentes (outra artimanha do universo onírico). Acreditávamos, pois, que mudaríamos o mundo. Ouvíamos rock – um estilo que o Benjamin histórico não pôde conhecer – e brindávamos os dias escrevendo poesias, crônicas, contos e aforismos. Éramos metidos a besta.

Conversávamos sobre os acontecimentos políticos e culturais daqueles anos efervescentes e gloriosos. O decênio de 1960 quebrou tabus e dividiu tudo em duas partes mais ou menos iguais: uma, dos sonhadores incansáveis; outra, dos que se negavam a aprender com a imaginação e a potência dos devaneios utópicos. Ingênuos, jurávamos que o grupo dos primeiros era infinitamente maior e mais influente...

Benjamin, aquele que desapareceu em 1940, foi vencido pelos avós desses seres que não sabem sonhar. Eu, que vim ao mundo nos 70, sinto-me derrotado pelos seus netos. No sonho (no meu sonho), insistíamos na autocrítica e buscávamos uma maneira de escrever o futuro, o meu e o dele.

Quando acordei, olhei para a minha mesa de trabalho e vi os textos de Benjamin à minha espera, como de praxe. Foi só um sonho?

28 dezembro 2016

2017, uma odisseia no mundo


Quase todo fim de ano escrevo um breve texto sobre minhas expectativas em relação ao ano seguinte. A fórmula não é nem um pouco exclusiva: faço votos de paz, amor, inspiração e, principalmente, evolução humana. No curso do ano novo, invariavelmente, percebo que meus escritos do ocaso eram muito otimistas, excessivamente românticos.

Não acredito que haja mudança substantiva fora das pessoas. Mesmo as mais impositivas realidades objetivas carecem de acomodações n'alma, aceitação nas ideias já elaboradas e cristalizadas, consentimento entre pares e ímpares. O homem novo, como quis boa parte da tradição revolucionária do século XX, não será fabricado fora do mundo nem à revelia das consciências existentes. Isso, para mim, é pacífico.

É óbvio que não vou desistir de meus clássicos votos: que em 2017, a crise nacional e internacional não afete nossa disposição para a luta, não bloqueie nossa criatividade, não impeça nossa paixão torrencial pela vida. Mais do que isso: que o Fluminense seja campeão; que o Pearl Jam lance um álbum novo; que meu livro de Sociologia escrito com o Prof. Nelson Tomazi venda milhões de exemplares; que meu livro de crônicas - a ser lançado em janeiro com o título Coração de Benjamin - seja lido nas escolas, nos saraus e nos almoços de domingo; que o Luiz Alfredo Garcia-Roza publique mais um romance policial protagonizado pelo Detetive Espinosa; que o marxismo continue firme na condução de sua velha carroça por estradas empedradas e difíceis. Enfim, que 2017 seja tudo de bom nas ideias e intenções.

Quero, contudo, um pouco mais das pessoas comuns. Desejo menos ódio, menos exibicionismo, menos dispositivos móveis e internet, menos pudor, menos desafeto, menos polemismo barato. Aspiro a mais paixão desenfreada, mais coragem, mais olho no olho, mais ética, mais viagens pelo país e pelo mundo, mais curvas à esquerda (com e sem caviar), mais rock, mais filmes cativantes, mais músicas emocionantes, mais gente sorrindo... Quero apenas que sejamos mais humanos, mais frágeis, mais imperfeitos, mais... gente.

As lutas serão necessárias. As batalhas serão incessantes. No fim - e até bem antes disso -, venceremos, se (e somente se) tivermos sido capazes de olhar para dentro muito antes de apontar dedos duros e implacáveis para tudo e todos que estejam fora.

Que 2017 seja o seu ano, meu caro e minha cara. Seja, portanto, nossa odisseia.

05 dezembro 2016

Grito


Há um grito
que prendo no peito
que impeço de viver.

Tenho medo
de não saber
o que fazer
com aquilo
que em mim
deseja explodir.

Há um grito
e um homem
e um menino
todos à espera
de amor
e uma pitada
de falta de juízo.

Não entendo
por que isso
tudo ocorre
comigo
contra mim
limitando
minha alma
sufocando
meu corpo
entristecendo
minhas tantas
paixões.

Há um grito
que quer cantar
que quer declamar
poesia
que sabe versar
prosas
que tem prazer
para dar
e aceita muitas
emoções
fantasias
tabus
searas proibidas.

Há um grito
um berro
um coração
desesperado
um homem
prostrado
um corpo
em chamas.

Há um grito
preso
exilado n'alma
que ninguém quer.

Há um grito
sem ninguém
para amá-lo
sem ninguém
para acalmá-lo.

Há um grito.
Eis-me aqui.

14 novembro 2016

Eu não sou filho da UEL

Foto: Celio Costa

Para um bom início de conversa, vale dizer que filho eu sou da dona Edna e do seu Osmar. De minha mãe, de forma irretocável, recebo até hoje carinho e bençãos. Com meu pai, que hoje mora no céu, tive a alegria de partilhar muitas emoções, os louros na vida.

Da UEL, com orgulho, eu sou o que se convencionou chamar prata da casa. Lá estudei, lá sou professor. Nos últimos vinte e poucos anos, desde que começou nossa história comum, levo seu nome aonde quer que eu vá. Encho o peito de satisfação para dizer que sou formado na UEL. Lembro como se fosse ontem a queda de lágrimas do meu pai ao ouvir meu nome sendo pronunciado na UEL FM, durante a divulgação dos aprovados no vestibular, no verão de 1994. Quis o destino que eu não flagrasse seus olhos marejados ao me ver nomeado professor, exatos vinte anos mais tarde. Ainda assim, ele me protege, lançando sobre mim paz e pistas para o discernimento, do bom lugar em que, tenho certeza, está.

Assim, a relação entre pais e filhos é única e intransferível. Para cada uma de suas fases, distintos interesses se sobrepõem, tornando a afetividade algo muito subjetivo e instável. Os pais ora são heróis, ora são caretas, ora são um banco de crédito supostamente ilimitado, ora são os melhores amigos, ora são a autoridade que precisa ser exercida em nome da proteção física e espiritual da prole. Em todos os momentos, contudo, pais e filhos estabelecem códigos renovados de relacionamento, enfatizando que precisam construir sua independência e não podem abrir mão de segredos que se acumulam ao longo do tempo. Trata-se de uma ligação, portanto, estreita, privada, romântica e volúvel, que só se entende dentro dos limites da vida familiar.

Eu não sou filho da UEL. O que há entre nós ultrapassa os muros da contenda doméstica e não tem nenhum grau de instabilidade. Não me aproprio da UEL de acordo com as conveniências das etapas diferentes da minha trajetória. O que sinto por ela, o que faço em seu nome, o que recebo dela, tudo é único, público, um gesto permanente de cumplicidade.

É isto, sou cúmplice da UEL. Ao seu lado, solidarizo-me com todos aqueles que a querem bem pelos próximos vinte anos, e não apenas almejam seus gracejos ao término de cada período letivo. Não me reportarei a UEL somente quando precisar dela, quando sua excelência me prometer prêmios ou acessos particulares. Não. Recorro a ela todo dia, abraço-a, carrego-a no peito, na raça, em cada sonho que alimento sobre a cidade, o país e o mundo. Nossa cumplicidade não é a do tipo cego, subserviente e medroso, como aquelas que acobertam erros e ações criminosas. O que temos em nossa união é um pacto em nome de um ideal generoso de educação pública, de espaço da diversidade, de campo de luta em favor dos trabalhadores. A UEL e eu somos cúmplices numa paixão crescente e desinteressada pela liberdade.

Nossa paixão inegociável apoia os estudantes que abrem mão de interesses mimados e individualistas (típicos de filhos malcriados), que não veem os pais como financiadores de seu dilatado ego e ocupam, pois, os espaços do campus de forma corajosa e a incitar um debate oportuno sobre a frágil democracia que nos assola. A paixão da cumplicidade é explosiva e não aceita menos do que o melhor dos mundos. 

A UEL e os estudantes que resistem contra as afirmações políticas do retrocesso e do autoritarismo são cúmplices na paixão pela vida, pelo futuro dos que ainda estão por vir. Em casa, os acadêmicos da UEL têm aqueles que os criam e lhes dão carinho e proteção. No mundo público, temos bandeiras e vocações, sonhos e muita, muita luta. Somos cúmplices da história.

12 novembro 2016

Matei minhas musas (2)

Ruth, a pin-up

Eu já havia matado minhas musas,
embora a memória de algumas delas
tenha se convertido em fantasmas
dentro de mim.

Eu precisava ter coragem
de expulsá-las
da mansão assombrada
em que meu coração
se transformou.

Como ter paz de espírito?
Como olhar para frente
sem sentir medo
daquilo que me segue
feito sombra?
Como, enfim, sentir-me
livre e de fato
capaz de crescer,
ser e viver?

As alternativas possíveis
eram todas muito radicais:
clausura, repressão,
autopiedade, prazer solitário.
Todos os acenos me causavam
espanto e dor,
tristeza e desesperança.

Resolvi, então,
combater
fantasmas com luz,
enfrentar
a escuridão com ideias,
clarear
a estrada com sonhos.

Desfiz-me de ilusões e percebi
que o maior prazer é vislumbrar
o horizonte e saber-me digno
dos meus sonhos mais elevados.

Quando me dei conta
de que o mundo ainda estava
disponível e de braços abertos,
matei todos os fantasmas
de minhas musas.
Todos.

Solitárias serão elas,
sem nenhum pedaço de mim.

05 novembro 2016

Rascunho ilusório


O ritual é o mesmo toda manhã: desperto e corro para a primeira xícara de café do dia. Só depois me ocupo do resto (tomar banho, ler o jornal, verificar a agenda de trabalho, etc.). Entre pequenos goles de café, a velha pergunta se repete: "Por que sou escritor?"

Concluo, via de regra, que escrevo para lidar com a enorme dificuldade de deixar o bom da vida para trás. Virar a página me dá medo. Receio muito mais perder de vez o que ficou para trás do que ter de encarar o improvável que viria pela frente. Essa aflição é a razão pela qual insisto em escrever. O novo amanhece, mas não quero que o sol seja algo surpreendente para mim.

Nunca me convenço de que o passado está encerrado e não voltará por nada neste mundo. Remoo lembranças. Evito assumir que a vida tem de seguir seu curso. A escrita me permite congelar o tempo e visitar as personagens que fizeram de mim o que sou. Quando me dou bem nas artes da palavra, sou capaz até de sentir que estou em antigos cenários já ocupados, nos quais penso ter encenado os atos mais brilhantes do teatro universal. Graças à atitude corajosa de escrever diariamente, domino o meu tempo, ainda que saiba, no íntimo, não passar tudo isso de uma gigantesca ilusão.

A ilusão, aliás, é um ingrediente vital da existência.

Escrever é olhar profundamente para o casual que há em nós. Meu caso não é de melancolia. Penso que também não seja de nostalgia. Meu caso (seria ocaso?) é de carência extrema.

Eu gostaria de amar para sempre a quem só pude amar um pouco. Eu acredito que seria feliz se pudesse eternizar os breves pedaços do tempo que me fizeram sorrir e sentir o doce melado da vida. Mas eu fracassei na tentativa de manter acesa essa chama. Menti. Errei demais. Na empolgação para me transformar no que nunca fui nem precisava ser, meti os pés pelas mãos e abandonei a senda amorosa da minha própria história. Não posso mais viver o amor. Então, escrevo sobre ele. No fundo, iludido que sou, as duas tarefas são coincidentes.

Virar a página me dá muito medo. Apavora-me constatar que só terei pela frente novíssimas páginas em branco. No vazio, a vida é um interminável índice remissivo, no qual só há memória e dor, um estranho e impossível desejo de voltar e fazer diferente. Para que as páginas em branco não inibam sonho e aventura, preencho-as com as histórias que invadem a imaginação. A palavra escrita torna-se, portanto, minha fantasia com grandes chances de se tornar realidade. Ilusão, de novo.

Passo os dias reescrevendo os detalhes perdidos na alma.

11 outubro 2016

Há tanta vida lá fora


Nas últimas semanas, o país tem vivido o que muita gente chama de um "grande auê". Medidas provisórias escandalosas, PECs criminosas, jantares ostentosos nos bastidores do poder, insistente e até comovente esforço midiático para justificar o inolvidável, subserviência jurídica de praxe, empresariado com todas as asinhas de fora na militância pela invasão da política pelo capital, etc. Se visto com rigor, o cenário revela histórias corriqueiras de nosso país.

O velho Barão de Itararé dizia, em uma de suas máximas mais geniais, que o sujeito que se vende sempre recebe mais do que merece. Ora, é só contar o número de apoiadores do atual e ilegítimo governo federal no Congresso Nacional - a maior parte deles compunha a antiga base venal dos governos do PT - para entender o que queria dizer o nosso humorista da democracia. Não se trata de apoio a ideias e valores, projetos e interpretações do Brasil. A questão é mais simples: o que se ganha individualmente e em nossos nichos eleitorais com um apoio cego às desmedidas de articulação entre o capital e a política institucional? Nos subterrâneos dessa questão, uma certeza: o Brasil precisa continuar a ser de poucos, na teoria e na prática.

Do lado de cá, na trincheira dos que sonham, resistem e lutam, é urgente construir alternativas. É trivial que as estratégias políticas da esquerda e dos movimentos sociais tornaram-se previsíveis. No limite, fazemos, como dizia Darcy Ribeiro, aquilo que a direita quer que façamos - e nos desgastamos, nos pulverizamos e, no fim e ao cabo, acumulamos derrotas e tristeza. Para aliviar a dor, culpamo-nos uns aos outros e voltamos, cada qual, ao nosso mundo de fantasias e aspirações utópicas, sem força nem coragem para pensar projetos de mudanças efetivas. Já disse e repito: colecionar palavras de orden e soltá-las ao vento para angariar aplausos daqueles que já pensam como nós é, no mínimo, pouco inteligente.

A luta continua porque nunca parou nem pode ser encerrada. A história nunca será um grande consenso, mas também jamais produzirá hegemonias totais. É no "quase" de todas as tentativas de construção da hegemonia que as lutas têm de se inserir. Um cantor já disse que há tanta vida lá fora... Hora de visitá-la.

15 setembro 2016

Hegel Sci-Fi


"Tudo que é real é racional.
Tudo que é racional é real."
(G.W.F. Hegel)

Os sindicatos serão proibidos. O mundo do trabalho sofrerá colapsos contínuos. O cenário urbano será meio Mad Max, meio Blade Runner. Quem resistir será duramente reprimido e criminalizado. Mais do que nunca, o Estado será policial. O parlamento se converterá num ventríloquo de sete cabeças. O judiciário não passará de um dócil criado. Intelectuais de esquerda serão presos ou forçados ao exílio. O amor será vigiado. O futuro terá de passar em revista diariamente e só poderá dar o ar da graça acompanhado de velhos parentes do século XIX. 

Não haverá batuques. A cor vermelha será banida. Nas escolas, cartilhas produzidas por amigos do tirano e pelos bobos da corte serão o único material didático concedido aos professores. Às segundas e sextas-feiras, no início e no fim de cada semana letiva, a Bíblia será lida em sala de aula (apenas lida, jamais debatida), tarefa devidamente supervisionada pelos exploradores da fé alheia alçados à condição de conselheiros vitalícios da pátria. 

Praças serão completamente interditadas. O único lazer permitido e bastante incentivado será no shopping center. Para tudo será exigido dinheiro: saúde, educação, diversão, beleza e, principalmente, paz. Grátis só haverá a dor, amplamente distribuída. Serão cassados os direitos de sonhar e lutar. Toda indignação será castigada. Toda paixão pela vida será ridicularizada. Crianças terão de trabalhar de sol a sol. Negros, índios, mulheres e gays terão o direito único a permanecer calados – o que disserem será utilizado contra eles nos tribunais permanentes de exceção. 

Diante do mar serão erguidas barreiras de contenção. A felicidade será proscrita. Descanso, nunca mais. Sorrisos, só diante dos donos do poder. O poder, aliás, nunca mais emanará do povo e em seu nome jamais será exercido. 

O povo, por fim, será só lembrança – o mundo será habitado exclusivamente pela saudade.

14 setembro 2016

Utopia de mim


O passado não
me assusta,
pois conheço seus
contornos e
aprendi algo
sobre seus impulsos.

O futuro é que
me acua,
pois me põe
medo,
me dá calafrios
e sensações
que não reconheço.

O presente só pode
me fascinar,
pois guarda
segredos do
passado e
ingredientes dos
sabores do
futuro.

O mistério do nada
saber e do
tudo saber,
do já sentido e do
nunca imaginado,
do agora,
do ainda,
do quem sabe,
sei lá,
vamos ver.

Como Hannah Arendt,
vivo entre o
passado e o
futuro,
entre o que me
faz rir e o que me
faz chorar,
entre a dor e
o alivio,
entre quem
fui e quem
acredito poder
ser – da saudade de quem
se foi e da expectativa
sobre quem e o que
virá.

Vivo no tempo,
na curva e na
reta da história,
no ser e no
não ser da filosofia,
na emotiva razão
da sociologia.

Vivo e insisto
na utopia de
mim.

09 agosto 2016

Toque


Foi apenas um toque,
um ligeiro toque,
que eu mesmo quase ignorei.

Mas ele seguiu comigo
me lembrando do que fez
meu coração sentir,
meu corpo desejar,
minha insensatez suspeitar.

Antes do toque (intencional?),
fiquei a contemplar curvas,
e dores,
e sensações que não tenho mais:
acho que foi um toque
desesperado
em busca de amor,
um imaginário,
improvável e,
por tudo isso,
delicioso encontro
de almas e peles.

Não senti a pele no toque;
senti o que tenho medo
de recordar como é,
delírio,
paz,
erupções.

É, foi apenas um toque.

02 agosto 2016

A radicalidade do equilíbrio


Lembro que uns vinte e poucos anos atrás, quando ingressei na universidade para cursar ciências sociais, assumi como objetivo de vida a busca pelo equilíbrio, tanto no que diz respeito à vida do espírito quanto no que se refere às exigências da materialidade. À época causava-me alguma perplexidade o comportamento inconsequente e despropositado de muitos dos que me cercavam, dentro e fora da faculdade. E eu, decididamente, não queria aquilo para mim. Seduzia-me a ideia de independência, serenidade e paciência diante dos turbilhões do mundo. Flertavam comigo, portanto, as curvas do equilíbrio.

Hoje, em meio a tanto binarismo cognitivo, tanta incoerência entre pensamento e ação, tanto sectarismo e absurdas manifestações de ódio, desrespeito e pouco apreço à inteligência, vejo-me uma vez mais diante da necessidade de encontrar um consistente ponto de equilíbrio para a minha vida. De muitas maneiras, reconheço-me ainda o teen que sonhava mudar o mundo quando se viu estudante numa importante universidade pública do país.

Equilíbrio não significa nem pode significar uma postura de concessões sem critérios para evitar fadigas ou conquistar amigos artificialmente, dando ênfase à promoção de benefícios privados no espaço público. Equilíbrio, aliás, não prescinde de firmeza e radicalidade na defesa de princípios e valores. A questão, insisto, é que se faz urgente ampliar o campo do diálogo, revitalizando convicções e, ao mesmo tempo, reacendendo a esperança utópica.

Venho estudando há bom tempo as manifestações da utopia no tempo e no espaço, lendo autores visionários, obras de ficção científica, relatos e análises de experiências comunitárias e alternativas na história. A riqueza de críticas ao que era presente e a disposição de tantos espíritos humanos para erguer mundos novos, justos e potencializadores da felicidade são extraordinárias, enternecedoras. Exageradas ou realistas até demais, as utopias reclamam luz e política, planejamento e ação, força e poesia, enfim, clamam pela esperança.

Meu equilíbrio, em cuja busca me encontro em tempo integral, não dispensa a radicalidade tão cara à utopia, às manifestações daqueles que nunca aceitaram as coisas como naturais e jamais absorveram o discurso dos que afirmam ser a ordem existente a única possível e razoável. Aliás, razoabilidade e utopia são termos antitéticos.

O razoável é carente de utopia, vê exagero em tudo e tem medo de encarar os processos de mudança. No geral, é sujeito conformado e individualizado ao extremo – entende as massas como os liberais exaltados interpretam as lutas coletivas: irracionais e perigosas.

Por ser frio e indiferente a dor dos outros, o razoável não reconhece motivações para a utopia, acusando sonhadores de alienados. No fundo, o razoável é a caricatura mais fiel do pessimista, que anuncia trovoadas e desastres em belas e ensolaradas manhãs de domingo.

O indivíduo à cata de equilíbrio sabe e sente quão desequilibrada é a realidade pautada pelo capital e suas relações sociais orientadas para o mercado, para o comprar e vender tudo e todos. Ele não deseja equilibrar essa relação historicamente desigual e opressora; ele deseja sua superação e a promoção de um mundo equilibrado, em que todos possam ver e ser vistos, ouvir e ser ouvidos, no melhor sentido do espaço público arendtiano. O ser equilibrado, nesse sentido, é radical porque luta incansavelmente e é sereno porque se posiciona em convergência aos demais, fazendo da democracia uma ação concreta, e não apenas um apelo discursivo vazio e oportunista.

O equilíbrio, nesses termos, só pode ser busca incessante, posto que é condição do movimento da vida. Encontrar o equilíbrio, portanto, é, acima de tudo, assumir um estilo de vida, um jeito de ser e estar no mundo, avesso a simplificações, amante da complexidade, militante do juízo crítico e em favor da inteligência pluralista e diversa, a qual bebe em muitas fontes.

Assim, o equilíbrio é uma (des)construção de si, uma luta implacável contra demônios internos e externos, uma viagem para entender o mundo e os labirintos da alma.

28 julho 2016

Paulo Silva e a cidade da esperança


Não conheço pessoalmente Paulo Silva, o jovem estudante de Psicologia que o PSOL lançou como candidato a prefeito de Londrina. Confesso que sou um militante nada assíduo e relapso. Frequento pouco a sede do partido, por conta das exigências de trabalho na universidade e de minhas disposições utópicas em relação à literatura, o que me inclina à solidão e a uma vida entre livros e ideias. Ainda assim, estou convencido de que o PSOL é a mais interessante e rica alternativa à esquerda no espectro partidário brasileiro. Dentro de meus limites, atuo como suposto intelectual orgânico da agremiação com voluntarismo e paixão.

Sei que Paulo Silva é jovem e não tem medo de erguer bandeiras que atemorizam o senso comum e o viés notadamente conservador de boa parte da sociedade londrinense. Nos últimos dias, o candidato do PSOL foi vítima de agressões inadmissíveis numa sociedade democrática pela internet, praticadas por pessoas que se consideram impunes e representantes daquilo que julgam ser a "moral social". Trata-se, na verdade, de gente criminosa, disposta a gritar e depois se esconder nos labirintos da rede mundial de computadores. Mais do que perigosas, são covardes e inaptas ao debate público, posto que seu único qualificativo é o vazio do pensamento.

Paulo Silva é simbolicamente um candidato à altura do momento histórico que vive o país. Desde junho de 2013, quando muitas jornadas populares saíram às ruas reivindicando novos caminhos políticos e novas formas de organização social e cultural, os jovens estudantes brasileiros vêm protagonizando no espaço público a revitalização da utopia, o reacender dos sonhos por uma nação livre e justa, fraterna e decente. As ocupações nas escolas denunciando os ataques sistemáticos contra a educação pública; a solidariedade aos movimentos grevistas e de trabalhadores sem teto e sem terra; a coragem na defesa de temas essenciais ao processo social educativo, como a questão de gênero e a laicidade dos ornamentos estatais; a luta contra raízes crueis de nossa sociabilidade, como o racismo, o machismo e a homofobia; tudo isso tem na candidatura de Paulo Silva a prefeito de Londrina espelho e estrada, reflexo e caminho, palavra e ação.

Paulo Silva com sua camiseta batida, sua barba por fazer, sua morada na periferia, sua obstinação em frequentar uma grande universidade e enfrentar a difícil inserção em campos de trabalho dos quais os filhos das velhas elites da cidade se sentem donos, para dizer o mínimo, é o candidato que anuncia como nenhum outro a primavera londrinense.

Não tenho voz na mídia da cidade e não tenho espaço como cronista nos jornalões. O que posso é me manifestar de forma livre e independente, ciente de a verdade estar a bombardear meu coração e minha mente. Assim, declaro meu apoio, minha militância política cotidiana e meu voto a Paulo Silva, que espero poder conhecer pessoalmente em breve. Se houver conspirações de esquerda entre os astros celestiais, iremos nos conhecer em sua posse, no dia em que Londrina olhar para frente e tiver coragem de estender sua mão ao amanhã.

26 julho 2016

Amor platônico


Amor a distância, quase sempre idealizado e silencioso. Inevitavelmente, um sentimento casto. É assim que o amor platônico é definido em prosa e verso. Uma utopia das sensações, um desejo que, de tão improvável ou proibido, resiste escondido nos labirintos da alma e nas transgressões solitárias do corpo.

Penso, por exemplo, no amor adolescente pelas meninas mais lindas e inalcançáveis que conheci nos tempos de escola; nas musas do mundo das celebridades efêmeras que marcaram minha juventude nas décadas de 80 e 90; nas estrelas do cinema estadunidense e nas divas da música e da literatura que povoaram minha mente de escritor romântico; nas antidivas da indústria pornográfica que me contaminaram de desilusão; nas protagonistas dos selfies mais non sense das redes sociais. Penso, portanto, naquilo que esteve e nunca esteve ao meu alcance. Percebo-me, então, um amante de amor nenhum.

O amor platônico também se instala em mim após a leitura de um bom livro, de um belo poema, de uma história que consiga reunir biografias e realidades, promovendo sensações maiores e complexas de pura excitação. Inconfessáveis, os amores platônicos. Pertencem ao eu e só se perdem em algum ponto do mundo com a permissão da imaginação.

Tive, enfim, inúmeros amores platônicos. A maioria deles eu conservei por tempo demais. Como nunca fui nenhum galã de novela global e ainda era visto como exemplar perfeito de nerd na adolescência (com direito a ser visto por alguns, equivocadamente, como intelectual depois de adulto), as beldades todas a quem dediquei prantos e profundos sentimentos abstratos jamais me deram bola. No limite, consegui ser um zagueiro meio desajeitado – raçudo, é verdade! -, daqueles que, vez por outra, vão para a área do adversário para tentar marcar um gol de cabeça após a cobrança de um escanteio. Fiz alguns gols. Alguns, aliás, bem bonitos. Mas nunca estive entre artilheiros e atacantes badalados. A realidade, é preciso dizer, me confinou ao campo de defesa, à proteção do pouco que tinha a perder. E acabei fazendo meu melhor. Só.

Bem mais tarde, um quarentão, notei que amei desesperadamente toda promessa de deslocamento do meu mundo, de redenção, de algum tipo de justiça tardia. Foi quando também me apercebi de quanto meus amores platônicos, além de potentes ilusões, eram meu mais ingênuo e doloroso autoengano.

Desnudado o amor platônico, saí em busca de mim. Tive, sim, recaídas, elegi novos “alvos” para a redenção diante de dias de tristeza, solidão e ansiedade, mas mantive o espírito resoluto no tocante à máxima do conhecer-me a mim mesmo. Lembro que meus últimos amores platônicos estiveram bem perto de se tornar reais (ou tinham muito potencial para tanto, se eu insistisse). Ao me dar conta de que os distintos mundos da imaginação e da fatídica veleidade dos fatos se aproximavam mais e mais a cada eleição de um novo amor inconfesso e silencioso, dei-me por mim e me flagrei prestes a encarar o desatino irreversível. Os mapas da minha alma estavam sendo interpretados corretamente, mais de quatro décadas depois de o mundo ter tido o desplante de me receber em seus domínios. Como diriam nossos sábios avós, antes tarde do que nunca.

Hoje – e me refiro ao dia que nasceu depois de ontem à noite – coleciono amores recíprocos, amores em sintonia. Amo os livros que leio, os lugares que frequento, o trabalho que realizo, as pessoas que beijo, abraço e às quais dedico tudo que há de bom e verdadeiro em mim. Protejo-as do meu lado obtuso – com isso, protejo-me também.

Haverá sempre ditosas doses de utopia na minha palavra e na minha ação, fato que revela haver amores ainda por realizar, sentimentos a nutrir. A conversão de amores platônicos intransferíveis e alucinantes em utopias que motivam ideias e passos, contudo, devolveu-me à vida, àquilo que o velho Marx chamava de síntese de muitas determinações, unidade no diverso

Passei a amar possibilidades, aspirações, frutos de pequenas conquistas, uma atitude que me ensinou a valorizar a mim mesmo como sujeito e artífice do mundo. Aprendi, enfim, a amar a existência como um movimento, aberto à novidade, disposto a condecorar tudo que posso ser e pelo que luto. Estou, na prática, conhecendo a mim mesmo.

08 julho 2016

Um marxista (meio) pós-moderno


Olhar em redor de si é um vício dos mais perigosos. Corre-se sempre o risco de ter de encarar grandes descobertas, fatos reveladores. Aquele que observa atentamente o mundo é vulnerável e está a toda hora por um triz. A ameaça mais poderosa é a de capturar a si mesmo, confrontando anjos e demônios que convivem de forma aparentemente silenciosa dentro do peito.

Mais do que me audeclarar ou imputar, tornei-me marxista. O velho e bom barbudo, mais indispensável do que nunca, é ainda hoje meu interlocutor predileto. Com ele dialogo sobre as desventuras do capital e a tendência crescente de tudo virar coisa, inclusive os humanos e suas ideias.

O autor de A ideologia alemã insiste no desafio de não me permitir esquecer que o mundo não é um mar de rosas, os indivíduos (mesmo seus declarados e eufóricos seguidores) não são bonzinhos nem perfeitos e os sonhos - até os mais floridos e bem-intencionados - nem sempre acabam bem quando se materializam. Diante da realidade, de sujeitos e aspirações complexas e às vezes hostis, a utopia se desgarra da liberdade, amordaça a igualdade e torna frágil a fraternidade. Apesar de tudo isso, a utopia é o que temos de melhor - a matéria-prima daquilo que resta de verdadeiramente humano em nós.

Por causa dessas revelações inevitáveis a quem não teme olhar em redor e dentro de si, tornei-me um marxista acústico, (meio) pós-moderno, aberto a diálogos com outros atores e novas ideias. Nem por isso, fiz-me eclético ou herético: minhas referências, no dissenso, são todas crias da beleza utópica, amantes da fé inspiradora num mundo diferente e melhor, posto que entusiastas de que nós, humanos incompletos, podemos ser diferentes e melhores também e antes de tudo.

Acredito que me tornei marxista para fazer amigos e ouvir o que têm a dizer outros sujeitos, noutros cenários, sob mantos de variadas cosmovisões. Foram Antonio Gramsci e Walter Benjamin que me convenceram disso. Devo-lhes quem sou. Eternamente.

Carrego comigo uma lição decisiva de mestre Leandro Konder - Deus, que saudade! -, segundo a qual o real é inesgotavelmente maior que a capacidade humana de apreendê-lo. O real, enfim, é um desafio permanente. Se há alguma chance de enfrentá-lo e vencê-lo (parcial e temporariamente, é claro), ela está na negação da desistência, na afirmação da resistência, no gosto pela autossuperação por meio de ideias generosas e práticas solidárias. Inesgotável e em desdobramentos sucessivos, o real é impiedoso, impactante e exigente, mas não é invencível, não está dado como inevitabilidade para ninguém, em nenhum lugar.

Tornei-me marxista, portanto, para encarar o real e a mim mesmo, em busca de um universo e de um sujeito mais pertinentes, abrangentes e avançados. Entre mim e o sonho, reina a realidade, dura e às vezes implacável. Humanizá-la depende do processo de humanização de mim mesmo. Desse esforço que parte da minha ação subjetiva e a mim retorna na condição de lições e exigências pode vingar as chances da mudança. Aprendendo essas coisas e delas me convencendo, tornei-me marxista. Quer dizer, torno-me marxista cotidianamente, em intermináveis reinvenções.

26 junho 2016

Um sereno radical


Leandro Konder (1936 - para sempre) soube como poucos aliar crítica e inteligência num radicalismo sereno, alicerçado sobre valores e forte otimismo. Faz falta imensurável. E eu tenho muita saudade...

Gosto da expressão serenidade radical. Utilizei-a para qualificar Leandro Konder, meu maestro soberano, cuja vida foi sinônimo de defesa apaixonada de princípios e valores e, a um só tempo, de invejável capacidade para dialogar com o outro e respeitá-lo.

Ser sereno para desafiar-se permanentemente a encarar as mais duras e necessárias autocríticas e compreender que, em muitos momentos, passos leves e prudentes representam a melhor maneira de caminhar em direção ao mundo com o qual se sonha e pelo qual se luta.

Ser radical para evitar modismos e ecletismos, bem como para aderir a pensamentos e ações coerentes, frutos de resultados conquistados na história da vida (e na vida da história também).

A radicalidade do humano, no velho e bom sentido hegeliano, escapa às tentações aparentes e às estratégias de cooptação e acomodação de mentes e corações levadas a cabo por aqueles que, na defesa da ordem vil e excludente da realidade, não temem ser radicais intransigentes, sem serenidade nem tampouco coerência.

Se pudesse me autodefinir política e ideologicamente, diria, sim, que sou um sujeito em busca da serenidade radical.

15 junho 2016

O nosso sonho de Luiza


Luiza Erundina foi a prefeita de São Paulo durante meus últimos anos na capital paulista. Lembro-me do preconceito contra ela por ser mulher, nordestina e do Partido dos Trabalhadores. Ouvi barbaridades de familiares, dos pais dos meus colegas de escola e da vizinhança; vi nos adesivos nos vidros dos automóveis da classe média paulistana dizeres com todos os absurdos. Um deles, no ano das eleições presidenciais de 1989, me é inesquecível: "Lula lá, Erundina aqui e nós ó”. O adorno estava numa dessas até hoje cobiçadas e gigantescas pickups, tipo 4 x 4, sei lá mais o quê.

De minha parte, recordo uma prefeita humana e sensível, que viu e ouviu a periferia, que nomeou Paulo Freire seu secretário da educação, que ergueu e manteve hasteadas as bandeiras da luta contra a desigualdade e as injustiças.

Erundina me encaminhou politicamente na vida. Descobri-me de esquerda, permiti-me sonhar, não obstante as adversidades crescentes e os horizontes nebulosos. Percebi que deveria ser professor, ir para a universidade, estudar Ciências Sociais. Às avessas, o tratamento covarde do conservadorismo dispensado a Erundina e a tudo que ela representava historicamente (ascensão social dos mais pobres, educação livre e emancipatória, democracia de fato, gestão pública orientada pela defesa de ideais progressistas etc.) me induziu às reflexões que mantenho vivas comigo a respeito das questões de classe, suas contradições e sinuosidades. Erundina, de alguma maneira, foi meu primeiro momento de liberdade e conscientização. Graças a ela, me dei conta do tipo de sujeito que queria e podia ser.

Cheguei a Londrina em 1992, no ano em que os eleitores de São Paulo resolveram ressuscitar Paulo Maluf e consagrá-lo prefeito de São Paulo, em sucessão a Luiza Erundina. Entendi, então, que a história não tem sentido único e vive também de retrocessos e lástimas inusitadas.  Acho que escapei de uma boa enrascada ao migrar para o norte do Paraná.. À época, nem me passava pela cabeça que renovadas mentalidades fascistas já estavam em gestação no país. Para mim, um jovem da geração 80 – um “maior abandonado” -, nada que tivesse alguma relação com os nada dóceis anos da ditadura civil-militar (1964-1985) poderia uma vez mais fazer sentido ou tivesse chance de vingar. Hoje, reconheço minha enorme ingenuidade. Sou obrigado a admitir, contudo, que ela foi ingrediente essencial na minha formação e na elaboração dos mapas da minha vida.

Erundina ainda tentou ser prefeita de São Paulo outras vezes. Renegada pelo seu partido (o que já era sinal de que o PT era bem pouco socialista e muito utilitarista), tornou-se símbolo de coerência e decência, artigos de luxo pouquíssimo apreciados no grosseiro e mercantilizado mundo das eleições no Brasil. 

Luiza Erundina é deputada federal por São Paulo e se filiou recentemente ao PSOL, posicionando-se ao lado de gente que admiro muito, como Marcelo Freixo, Chico Alencar, Jean Wyllys e Ivan Valente. Soube que será candidata à chefia da prefeitura de São Paulo agora em 2016, apostando na ideia (correta) de que os sonhos não envelhecem. 

Estou com Erundina, para o que der e vier. Há um componente simbólico poderoso na sua luta política nestes tempos de tantos anacronismos. Sobrevivem, com Erundina, as resistências contra o ódio e as insistências em nome e em favor de mais amor.

Como lá atrás, em 1988, vou “erundinizar” o que há de bom. É, no mínimo, pura gratidão.

12 maio 2016

Só sabe lutar quem não tem vergonha de chorar


Sou um incorrigível manteiga-derretida. Choro até por causa de comerciais na TV. Uma amiga me disse que os piscianos são assim mesmo, emotivos e sensíveis. Na verdade, não levo astrologia a sério. Mas será que o fato de eu ser de peixes com ascendente em peixes justifica alguma coisa?! Haja lágrimas.

Chorei em 1982, menino, quando vi aquela seleção linda do Telê Santana perder para a Itália na Copa da Espanha. O sobrenome Rossi do carrasco da seleção canarinho só aumentou minha dor. Foi a primeira vez que não quis ver ninguém após uma "tragédia" e fui dormir antes de jantar. Carrego marcas na alma daquela tarde de domingo.

Em 1986, Telê ganhou nova chance de comandar a seleção numa Copa do Mundo. Foi o único técnico que dirigiu o país em duas competições seguidas. A França eliminou o Brasil nas cobranças de tiro livre da marca do pênalti (sim, esse é o nome correto), nas quartas-de-final. Chorei, então, duas vezes pelo time do mesmo técnico, por não me conformar em ver o futebol mais lindo do planeta perder duas vezes a chance de encantar o universo e entrar para a história. Depois da Copa do México naquele ano, levei muito tempo para voltar a gostar de bola e torcer pela seleção. Até hoje, aliás, torço com o nariz torcido pela amarelinha. 

Entre uma Copa e outra, perdi meu avô materno. Descobri o choro do amor por outro ser humano. Sinto falta de meu avô Euclides até hoje. E choro sempre que o coração aperta por causa de sua ausência.

Garoto, chorei quando vi o filme “Rocky II, a revanche” na TV. Rocky Balboa me faz chorar ainda. Foi com ele que aprendi que não se luta apenas com as mãos e a força do corpo; luta-se, sobretudo, com o coração. As melhores conquistas nascem e deságuam no coração.

Em 1988, chorei por causa do assassinato de um seringueiro que lutava na Amazônia pelos trabalhadores da floresta. Chorei por Chico Mendes. Vinte e cinco anos mais tarde, em 2003, chorei ao tirar nota máxima na defesa da dissertação de mestrado sobre... Chico Mendes.

Chorei em 1989, quando Lula perdeu para Collor, depois de vinte e nove anos sem eleições diretas para a chefia do poder executivo do Brasil. Estava no ensino médio, lia de tudo sobre o país e sobre política. Foi quando, ainda de modo inconsciente, decidi que cursaria Ciências Sociais e seria professor de Sociologia. Eu sonhava mudar o mundo. Admito que ainda sonho, mas não me deixo levar pelas ilusões da adolescência.

Em 1992, quando deixei a capital paulista para morar em Londrina, chorei. Chorei pelos amigos que deixei para trás. Chorei pela banda de rock com a qual não cheguei a gravar um álbum (e merecia!). Chorei por saber que eu não tinha a menor ideia do que seria do resto da minha vida. Anos mais tarde, ao descobrir que amava Londrina de uma forma quase inenarrável, chorei. Choro por Londrina diariamente. Choro por paixão. E choro por São Paulo. Choro de saudade da linda infância e da adolescência tão vibrante.

Em 1994 e 1998, não chorei quando FHC foi eleito e reeleito presidente da República. Fiquei triste, sim, mas decidi que aguentaria o tranco e converteria a tristeza em luta. De lá para cá, nunca cessei de lutar - de alguma maneira, canalizo minha indignação em direção à palavra que antecede a ação política e me mexo, seguindo à risca um velho ditado africano: "Quando juntar as mãos para rezar, mova os pés".

Em 1997, na minha formatura no ensino superior, entreguei ao meu pai a Láurea Acadêmica que a Universidade Estadual de Londrina (UEL) me deu em razão de eu ter sido o aluno com o melhor desempenho acadêmico daquela geração, entre os formandos de todos os cursos da instituição. Obtive média 9,62 durante a graduação em Ciências Sociais. Lembro que meu pai, um simples e honrado almoxarife, chorou feito um menino. Eu, que havia decidido não derramar nenhuma lágrima, descumpri a promessa, abracei meu velho e chorei copiosamente. Mais do que em 1982, 1986 e 1989 juntos. Muito mais. (Em 2009, perdi meu pai. Choro desde então, sem trégua.)

Adulto, formado e disposto a correr o mundo atrás da felicidade, o choro não me abandonou. Chorei em 2002 quando me casei; chorei em 2006 ao segurar meu filho na maternidade para lhe dar o primeiro banho; continuei chorando assistindo a filmes, ouvindo músicas e lendo romances. Toda vez que ouço “A Internacional”, em qualquer lugar ou ocasião, choro também. Choro com o Fluminense, na alegria e na tristeza. (Em 2008, na final da Libertadores da América, em pleno Maracanã, quando o Tricolor foi derrotado por um time equatoriano cujo nome tento esquecer, chorei durante dias e entrei em estado de letargia: passei um bom tempo sem demonstrar emoções, sem sorrir, sem achar muita graça na vida.)

Se fizesse um balanço das lágrimas que derramei na vida até agora, faltariam números conhecidos pela matemática para registrar tudo. Chorei por alegria, tristeza, inconformismo e até raiva, que é um sentimento contra o qual luto incessantemente. Tenho raiva de mim mesmo quando sinto raiva, contrariando uma das tantas verdades de Chico Buarque: “Não se deve sentir raiva de quem tem raiva”. No fim, é possível aprender que o ódio é algo que destrói quem o exala.

Em 2014, chorei ao ser convocado para assumir vaga de professor da UEL, na instituição em que estudei e amo mais do que a mim mesmo. Fiz o concurso público em 2010 e já havia perdido a esperança de ser chamado para o trabalho. Segui em frente, dando aula em ambientes insalubres e muitas vezes hostis a Sociologia e às ideias livres. Era preciso sobreviver, pagar as contas, fazer uma pequena poupança para comprar um apartamento e escapar do voraz aluguel. O choro, portanto, teve dois motivos: o da alegria de realizar o maior sonho profissional da minha vida e o do alívio de deixar para trás uma experiência longa e infeliz, que roubou, pelo menos, dez anos da minha história pessoal. Ah, e eu consegui comprar meu apartamento também.

Ano passado, em 2015, chorei lutando ao lado dos professores e servidores públicos do Paraná, numa greve cujas vitórias mais significativas foram afetivas e simbólicas: durante a greve, enxerguei-me no espelho da história do Brasil e reencontrei o menino que sonhava com um gol de Zico (apesar de ele ser flamenguista) numa final de Copa do Mundo. Em 29 de abril, quando o governo estadual promoveu um verdadeiro massacre no Centro Cívico contra os grevistas, jogando bombas e descendo o pau em estudantes e trabalhadores, acho que chorei sangue. Passei noites em claro e pensei em desistir de tudo. Só reencontrei forças na solidariedade dos meus pares, no olhar dos meus alunos, na memória dos lutadores do povo brasileiro. É estranho e dolorido demais chorar sangue.

Em 2002, ano em que me casei, chorei com a chegada de Lula lá. No ano seguinte, decepcionado (e chorando), deixei o PT e fui ver o sol brilhar no PSOL, em 2004. Apesar disso, nunca fiz o jogo fácil e perigoso de rechaçar tudo que o governo federal fazia. Se estava longe de ser o governo com o qual sonhara e pelo qual lutara, era algo novo na história do país e apresentava uma linguagem política que precisava se expandir, alçar voo, aprimorar seus sentidos. Vivo dizendo que o PT foi a esquerda que o Brasil conseguiu fazer, numa trajetória insólita de cultura golpista, pactos infames e mentalidade conservadora que invade a tudo e todos, a toda hora. Mais do que nunca, é urgente que uma nova esquerda seja pensada, fundada e praticada. Disso depende, no mínimo, o futuro do país.

Chorei, choro e ainda terei muita lágrima precipitada por ser um sujeito de esquerda num país que tem pela frente um imenso passado, como dizia Millôr Fernandes; por torcer pelo Fluminense (haja coração!); por gostar de pensar e me emocionar com discos, filmes e livros; por amar as pessoas como se não houvesse amanhã (apesar das pauladas na cabeça por causa desse vício amoroso); por fazer da escrita um ofício; por ser professor e ter a Sociologia como matéria-prima da existência.

Algumas semanas atrás, chorei de tristeza ao ver os deputados brasileiros desferirem seu golpe contra a democracia tão arduamente alcançada. Chorei pelas coisas que diziam e pelas que não souberam dizer; chorei pela nossa miséria política; chorei por constatar que a luta será longa e empedrada em defesa do país, da liberdade e da igualdade.

Hoje de manhã, chorei no momento em que li nos jornais de todo o mundo que o golpe contra a democracia havia se consumado por aqui, com aplausos das classes médias e brindes com champanhe nos círculos empresariais. Chorei ao saber que não haverá mulheres nos ministérios do lapso golpista (que nunca será legítimo nem será chamado por mim de governo). Chorei lendo a lista de novos ministros (lacaios de golpistas). Chorei por, naquele momento, não poder fazer outra coisa a não ser chorar. 

Chorei ouvindo a Presidenta Dilma dizer um até logo. Chorei de emoção por saber que há coragem a destacar em dias de nuvens cinzas e céu escuro. Chorei por sentir que haverá resistência. Chorei por saber que vou resgatar do baú aquelas bandeiras da adolescência que estavam amareladas e servindo de alimento às traças. Chorei para poder enxugar as lágrimas, levantar a cabeça, sacudir a poeira e seguir pelejando. Há um país para fazer, nas ruas e com o povo. E haverá muita história ainda pela qual eu possa chorar de emoção e alegria. No fundo, nunca deixei de sonhar com um gol do Zico numa final de Copa do Mundo. Por isso luto. E choro. E volto a lutar.

03 maio 2016

Almas Universais


Óleo sobre tela, sem título, do paraibano Bruno Steinbach (2004)

A noite era para ser inesquecível. Havia meses que Eli ansiava reencontrar Mariana. O jantar em comemoração ao centenário da obra-prima de seu bisavô Dario Rossi, um dos mais aclamados autores do século XX, seria o cenário do momento tão aguardado.

Almas Universais, o livro prestes a completar cem anos, é ainda hoje uma das peças de ficção mais devastadoras da modernidade. Na verdade, mistura a imaginação e o real, sonhos vividos e amplamente desejados, suores, sangues e lágrimas das histórias e das utopias de várias gerações. Publicado pela primeira vez em 1916, na Sardenha, o livro conquistou o planeta quando deixou a ilha e atracou na península itálica. De Roma, Milão e Nápoles voou alto e longe, foi traduzido para mais de vinte idiomas e vendeu nos cinco continentes algo em torno de cinquenta milhões de exemplares. O que tornou Almas Universais um sucesso sem concorrentes foi a capacidade narrativa de Dario Rossi em aproximá-lo de muitas maneiras do essencial das lutas dos trabalhadores nos últimos decênios. A linguagem da esperança que exala das páginas do livro é mais que universal – é atemporal.

Desde a edição russa de 1920, Almas Universais é republicado com o prefácio escrito por Lenin. O texto preciso, elogioso e instigante do então líder bolchevique da União Soviética também atravessou com sobriedade o tempo, convertendo-se numa iniciação indispensável à leitura da obra maior de Dario Rossi.

O luxuoso jantar organizado pela nova editora brasileira dos escritos do bisavô sardo de Eli era, em termos, uma provocativa contradição ao que expressavam as palavras revolucionárias e a vida modesta do autor de Almas Universais. Dario Rossi foi ao longo de seus 96 anos de idade um sujeito de hábitos simples e duradouros. Morou sempre em casas pequenas, aconchegantes, sem nenhuma ostentação. Passou os anos a escrever de tudo um pouco: artigos para jornais, textos de intervenção sindical, alguma poesia, vinte e tantos romances. Dedicou-se a uma existência reclusa, absorvida pelo amor discreto aos filhos, aos netos e à companheira de toda a vida, a doce Valentina. Um jantar regado a vinhos cujas garrafas não saiam por menos de três mil reais cada uma e pratos sofisticados preparados por um chef belga contratado a quarenta mil euros não combinava em absolutamente nada com o velho comunista italiano.

Eli se formara na Escola de Sociologia e Política. Pouco tempo depois de formado percebeu que suas ideias se encaixavam muito bem nos cuidados com a herança cultural do bisavô ilustre e com a preservação material de sua obra. Deixou de lado o sonho acadêmico e decidiu se dedicar com exclusividade aos negócios da família. Tinha uma vida financeira tranquila e sem sobressaltos. Dinheiro, de fato, nunca lhe foi um problema.

Naquela noite, embora trabalhasse muito na promoção das novas edições de Dario Rossi e estivesse preocupado em receber bem a todos os convidados, estava interessado mesmo era em Mariana. Haviam se conhecido em uma bienal do livro na Europa (em Berlim, parece) e, desde então, se encontravam algumas vezes por ano em diferentes eventos e países, sempre em razão da divulgação dos escritos de Dario Rossi.

Mariana era uma jovem deslumbrante. Trinta e poucos anos (uns dez a menos que Eli), diretora executiva de um grande conglomerado transnacional de editoras – hoje, em relação ao seu posto de trabalho, costuma-se dizer CEO, chief executive officer -, cabelos dourados, sorriso paralisante. Mulher independente e consciente da sua beleza e dos seus inúmeros atributos de sedução, Mariana acabou entrando na vida de Eli como um raio, inesperadamente e com consequências permanentes e insuperáveis.

Antes da noite do jantar por júbilo a Almas Universais, Eli e Mariana se viram em Nova Iorque e Buenos Aires, em reuniões de negócios, no ano anterior. Fazia mais de seis meses que não se encontravam pessoalmente, mantendo somente contatos virtuais.

Eli era fascinado por Mariana, cujo conjunto de qualidades – das físicas e aparentes às espirituais e essenciais – enlouquecia o jovem sociólogo que jamais exerceu a profissão. Num de seus bate-papos virtuais, resolveram se provocar sexualmente com o auxílio de imagens transmitidas por minicâmaras. O sexo virtual rendeu a Eli semanas de devaneios e muita dificuldade de concentração no trabalho. Para Mariana, restou a certeza de que encontrara um sujeito além de todas as expectativas.

O salão estava tomado por celebridades, escritores best sellers, autoridades políticas, empresários do entretenimento, roteiristas, atores e atrizes que interpretaram no teatro, no cinema e na TV peças, filmes ou especiais adaptados da obra de Dario Rossi. Letícia Sabatella, que imortalizou a rebelde Chiara de Almas Universais no cinema, numa coprodução Brasil-Itália dirigida por Ettore Scola, era, provavelmente, a sensação dos holofotes da imprensa. Alessandra Negrini e Wagner Moura, que viveram na novela Beijos Latinos (título homônimo ao romance de Dario Rossi publicado na década de 1960), exibida no horário das nove pela emissora campeã de audiência durante quase dois anos, o casal Monica e Federico também eram assediados sem trégua por repórteres, jornalistas e publicitários interessados em estrelas para seus produtos e novidades.

Paradoxalmente, operários e camponeses, protagonistas em tudo que escreveu Dario Rossi, não tinham lugar nem representantes no iluminado jantar.

Enquanto saboreavam seus belos e apetitosos pratos e se deleitavam ao sabor de vinhos e espumantes de primeiríssima classe, os convidados viam pelo telão trechos selecionados da obra de Dario Rossi levada para o cinema e a TV e ouviam depoimentos de escritores badalados e respeitados sobre seus livros, principalmente Almas Universais.

O comunicado sobre o lançamento da edição centenária foi feito por Eli, muito emocionado e feliz. A nova edição teria acabamento editorial luxuosíssimo e uma pequena tiragem de mil exemplares destinada a fãs abastados, colorida, em papel especial, ilustrada por imagens dos mais importantes fotógrafos do mundo, tudo isso a uma bagatela de dois mil reais cada exemplar. Enfim, histórias de um mundo escritas pelo capital, não pelos escritores de carne, osso e alma universal. Eli sabia que nada daquilo deixaria seu bisavô contente. Nada.

Eli, na verdade, não sabia ao certo por que aceitara a proposta de um jantar naqueles moldes. Não queria nem precisava impressionar ninguém; não era por dinheiro; não era de jeito algum pelos microfones, câmeras e luzes da imprensa (Eli preferia o anonimato e Dario Rossi dispensava apresentações em todo o globo); não era por exigência da família... A proposta partiu da editora, que sabia dos lucros angariados com a obra do sardo e, provavelmente, ignorava o desnecessário rito dispendioso daquela noite. Eli apenas não soube ou não quis dizer não.

Mariana, contudo, estava lá. Estaria de qualquer maneira, linda como sempre, apaixonada e disposta a ter momentos incríveis com Eli antes, durante e depois do jantar. Para ela, a grande festa era Eli e tudo que ele significava em sua vida: decência, inteligência, tesão... Eli e Mariana caberiam tranquilamente no rol das personagens imortais de Dario Rossi, como um casal estonteante e fora dos padrões. Em Almas Universais todos os amores eram deliciosamente anarquistas, valentes e destemperados, assim como cada encontro entre Eli e Mariana, não importando quando nem onde.

Após a sobremesa, um vistoso chandelle branco coberto por um afrodisíaco licor de tâmaras, Eli tirou Mariana para dançar. No saguão do clube italiano escolhido como palco do jantar em reverência a Almas Universais e seu autor, Dario Rossi, ecoavam canções do álbum acústico do guitarrista britânico Peter Frampton. Ainda no primeiro minuto de Show me the way, Eli e Mariana se beijaram demorada e profundamente. Aos acordes finais de Baby, I love your way, decidiram continuar a noite no apartamento dele, uma cobertura da qual se podia avistar panoramicamente toda a cidade.

Convencidos de que a mistura de voz e violão tocando músicas que marcaram suas histórias era a grande pedida da noite, Eli e Mariana optaram por mais uma taça de vinho ao som de Starkers in Tokyo, um álbum de David Coverdale e Adrian Vandenberg lançado em 1997.

A programação das faixas feita por Eli foi certeira: enquanto executavam The Deeper The Love, Coverdale e Vandenberg inspiravam Eli e Mariana a se despirem. O lindo vestido vermelho-grená de Mariana foi ao chão depois de dois toques sutis nas alças. Eli tirou a gravata, desabotoou e retirou a camisa, desfivelou o cinto, abaixou o fecho da calça e a pôs rapidamente ao chão também. De calcinha branca com rendas artesanais, comprada numa feira popular em Paramaribo, no Suriname, Mariana ajoelhou-se, sorriu com gosto e abocanhou o pau de Eli, que indicava estar à espera do que houvesse de melhor no mundo. Mariana sabia do que Eli gostava e, principalmente, do que o punha em órbita. Chupou-o com força e cadência, sem pressa alguma, desejosa de uma noite de longas horas e demoradas paixões. Em pé, com as mãos na nuca de Mariana, Eli sentia o movimento da boca de sua amada, ao som de Give Me All You Love. Em instantes, puxou-a e a beijou só com os lábios, ternamente. Beijou-lhe o pescoço, os seios, a barriga, todo o corpo. Ateve-se, então, ao elixir: com suavidade, meteu-se com a língua na buceta de Mariana, nua, totalmente sem pelos. Ali permaneceu por vários minutos, intercalando lambidas delicadas e chupadas convincentes. No toca-CDs, Is This Love se espalhava pela casa quando, excitadíssimo, Eli penetrou Mariana, que não conteve um gemido de grande satisfação. Sobre o sofá, fitavam-se de olhos bem abertos e corações disparados.

Eli repetia em voz baixa, ciente de que Mariana o ouvia e ficava com mais tesão a cada segundo: “Buceta boa, buceta boa!” Eli se deitou e se fez, então, domínio de Mariana, que cavalgava furiosamente sobre seu pau. Era irradiante a beleza da imagem da buceta de Mariana entrando e saído do pau de Eli, o qual, àquela altura, parecia querer explodir de tão grande e inchado. Too Many Tears embalava a magia do casal.

Controlando os batimentos cardíacos e segurando o gozo com impressionante mestria, Eli colocou Mariana de bruços e, com os braços em riste acima dos ombros dela, como se estivesse a fazer flexões, comeu-a do jeito que mais adorava num ritmo nem veloz, nem lento – correto, firme, penetrante. Coverdale e Vanderberg embalavam os dois com Here I Go Again.

Eli gozou na buceta de Mariana, depois de sentir que ela já havia gozado algumas vezes. Gemeram e deram alguns gritos juntos. Era impressionante a sintonia fina entre eles. Soldier Of Fortune encerrava o espetáculo no instante em que Eli e Mariana se beijavam exaustos e felizes.

O celular dos dois não parou de tocar enquanto se amavam. É provável que queriam saber, lá no jantar, onde estava o casal que sumira durante o baile. Toda vez que estava com Mariana, Eli certamente homenageava a memória de seu bisavô. De tudo que havia acontecido naquela noite, só o amor era algo que fazia jus aos escritos de Dario Rossi.

28 abril 2016

Pelas causas provavelmente perdidas


Na semana passada, motivado pelo discurso criminoso de Jair Bolsonaro na Câmara Federal, pedi aos seus admiradores que deixassem de me seguir nas redes sociais. Não entra na minha cabeça que alguém dê créditos a um indivíduo daquele naipe, que faz ode à tortura, estimula o grotesco e incentiva a prática da violência como forma de apaziguar conflitos e apagar diferenças. Acredito, sinceramente, que não deve haver tolerância serena aos intolerantes beligerantes. Considero-me um bom sujeito, dominado na alma por uma ética quase kantiana, mas não sou de oferecer a outra face, não. Falta-me vocação à santidade.

No mesmo dia em que publiquei o pedido de afastamento daqueles que apoiam direta ou indiretamente tortura e preconceito, notei que vários "amigos" de rede social hostilizavam o deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) por causa da cusparada que deu em Bolsonaro após ser xingado. Wyllys cuspiu num entusiasta da força bruta e da pena de morte que acabara de homenagear o Coronel Brilhante Ustra ao vivo em transmissão pela TV. Um cuspe de indignação foi mais forte e despertou mais ira do que aplausos a um militar que enfiava ratos na vagina das mulheres em longas e inclassificáveis sessões de tortura nas décadas de 1960 e 70. Esse tipo de reação reforça a clássica questão: "Que país é este?"

Jean Wyllys não é um deputado exemplar porque cuspiu em Bolsonaro e atacou simbolicamente tudo que representa o passado autoritário brasileiro. Ele é exemplar pela postura parlamentar que assume em favor das causas progressistas e dos direitos humanos; pela honestidade intelectual e material que recobre seu mandato; pelos prêmios que recebe no mundo inteiro em razão dos projetos que apresenta e dos princípios que incorpora a sua ação política. Acima de tudo, Jean Wyllys é um congressista muitíssimo além daqueles a que assistimos mandando beijos para netas e esposas traídas, pedindo misericórdia a Deus, vendendo a alma ao demônio numa sessão plenária que envergonhou o planeta e deixou ruborizados democratas e lutadores esperançosos por um país mais decente, livre e justo.

Saí, é claro, em defesa de Wyllys e declarei meu apoio a ele. Não ao cuspe. Não ao "não" na votação pela admissibilidade do processo de impeachment contra a presidente do país. Concordo com o "não" e compreendo muitíssimo bem as circunstâncias da cusparada (cheguei a sorrir de soslaio quando soube dela, aliás). Apoio Wyllys e registro toda minha solidariedade a ele porque acredito nas causas talvez perdidas que defende, no partido ao qual é filiado, na postura pública e transparente que assume dentro e fora do Congresso Nacional. Mais do que isso: admiro Wyllys porque não me somo aos que o atacam e não admitem que haja homofobia enraizada em tanta desfaçatez. Wyllys, em essência, é agredido costumeiramente pela mentalidade conservadora que não se declara abertamente; pelo anticomunismo que despreza a história, os livros e a cultura; pelos que não se dão conta do vazio em que estão metidos quando o assunto são os jogos políticos de poder entranhados na vida social.

Um caso curioso foi a de uma ex-aluna que me retirou de seus contatos na rede social e saiu praguejando contra Wyllys em seu perfil, disseminando informações equivocadas, preconceito e pouca inteligência. Por fim, a moça lamentou ter sido minha aluna um dia (vantagem para ela, que se lembra de mim; eu, até o momento, não recuperei um átimo de lembrança de ter sido seu professor alguma vez), posto que me julgava esclarecido, descolado e moderno. Agora, afirmava que eu tinha de estudar mais para saber que o que está ocorrendo no Brasil não tem nada de golpe. Sugeriu, bastante enfezada, que sou dono da verdade e que eu e a esquerda brasileira nos merecemos. Pois bem. Não tenho nenhuma verdade comigo, felizmente. Mas me orgulho de fazer parte da esquerda brasileira, apesar dos (ou graças aos) seus tantos erros e atropelos na história.

O terrível nessa experiência foi ver nos dias seguintes quanta gente de fato apoia Bolsonaro e seus, digamos, ideais, chamando-o de "Bolsomito" e outras tragicomédias afins. Vi gente que pedia a volta da ditadura civil-militar, que chamava Ustra de "brilhante", que justificava todas essas galhardias para evitar que o comunismo fosse instaurado no Brasil... Cheguei a ter pena de muita gente. Até de mim, que não tinha o que fazer, a não ser me aproximar cada vez mais dos sujeitos que valem a pena. O Brasil e o mundo, graças a Deus, estão cheios de lutadores e lutadoras, de gente que lê, pensa, converge, sintetiza, busca apoio na poesia e no amor. Estou à cata dessa gente, incansavelmente. E a tenho encontrado. Luta que segue.

14 abril 2016

O professor nos tempos do cólera


Ainda acredito na diferença que professores dedicados podem fazer na vida de seus alunos. Lendo Conversas com um jovem professor, de Leandro Karnal, essa crença ganha renovadas e animadas dimensões. É possível, sim, falar ao coração e também ao cérebro dos jovens (entendendo como jovem aquele que se dispõe a aprender e compartilhar o que sabe, independentemente da idade).

A ilusão de que professores podem alterar significativamente modos de ser e viver, entretanto, eu já não alimento mais. Vira-e-mexe, vejo, perplexo, ex-alunos defenderem causas contra as quais tudo que lhes transmiti existe. Penso nas aulas sobre democracia e liberdade; nas incontáveis discussões sobre os movimentos sociais; na biografia emocionante de gente como Chico Mendes e Carlos Marighella, por exemplo, que expus em verso, vídeo e prosa; na minha insistência diária de que há mundos e galáxias entre o aparente e o real; na minha única regra indiscutível: pensar historicamente...

Refletindo retrospectivamente, eu diria que algo em torno de cinco por cento dos alunos com os quais trabalhei (na melhor das hipóteses) permitiram que a sala de aula e o que ocorria dentro dela alterassem suas visões prévias de tudo. O restante manteve viva a máxima do escritor carioca Marques Rebelo: “Ninguém convence ninguém. Quem se deixa convencer já estava convencido.”

É nos momentos de crise que essas constatações assumem ares mais perturbadores. Ora, a escola e a universidade não seriam o celeiro de mentalidades menos simplórias e empobrecidas, do desabrochar de ideias mais frutíferas e frondosas? Não é na escola e na universidade que um universo de possibilidades críticas, artísticas, científicas e culturais se abre diante dos sentidos das pessoas? Afinal, a escola e a universidade têm qual papel na existência dos jovens? Mais: se jovem é aquele que se permite aprender e ensinar com abertura para o novo, mais oportuno e abrangente (pouco importando sua idade), estamos nos transformando numa sociedade de espíritos anciãos?

Entre o 1 e o 100, existem gradações, relevos, depressões, curvas e sequências de retas para grandes acelerações e ultrapassagens. A lógica binária e atemorizante do certo contra o errado e do bom versus o mal não deveria sobreviver ao trabalho de professores decididos a problematizar ideias e realidades, posturas e intenções. Numa autoanálise bastante sincera, digo que empenho nunca me faltou – a responsabilidade de estudar sempre mais e mais para levar às salas de aula discussões livres e emancipatórias me move hoje como na primeira aula que dei, vinte anos atrás. E o que houve de errado, então?

É certo que um professor não deve ter a pretensão de “criar” gente nova. Isso é tarefa dos deuses, eu acho. Ao professor cabe apontar caminhos e possibilidades, descortinar lugares-comuns e denunciar a má-fé ideológica que cerca e oprime os desavisados e distraídos. O professor, ainda que ciente de dar murros em ponta de faca, deve lançar poesia sobre a vida dos seus alunos, cujos versos se revelem aptos a enfrentar ódios, ressentimentos e a mais atual do que nunca luta de classes. O fato é que está faltando um toque de classe nas lutas que estão sendo travadas por aí, tanto no mundo real quanto no mundo virtual.

O mundo virtual, aliás, tornou irreal o debate público mediado pelo critério da fonte digna, da checagem de origem, do protagonismo da inteligência resistente. Quando espio o que publicam, e compartilham aqueles noventa e cinco por cento de ex-alunos nas redes sociais, por exemplo, tenho a nítida impressão de que vivemos um tempo além, um depois do fim dos tempos. Para sobreviver a tamanho desalento, desfiz um milhar de amizades em meu perfil do Facebook, entre ex-alunos e também ex-colegas, o que dá um tom ainda mais dramático ao que penso sobre o alcance do que ocorre numa sala de aula para os jovens-anciãos.

Faltam mediações (leituras, orientações, referências e repertórios). Lembro quase todo dia uma lição que tirei de um livro até bastante inocente, que resgatei num sebo por dez reais: a leitura é o hábito de indivíduos acostumados a contar histórias para si mesmos. Aquele que lê aprende a ouvir. Aquele que ouve reconhece palavras e aprende a interpretar textos e narrativas. O intérprete atento se comunica melhor, falando e escrevendo, se reconhecendo no outro e na história. Aquele que lê, portanto, é bom ouvinte e bom narrador, um sabedor de que tudo se constrói no tempo e no espaço. Enfim, aquele que lê pensa historicamente e não se permite enganar.

Como professor, contra todos e às vezes contra ninguém, é isto que organiza e motiva meu trabalho: incentivar alunos a ler o mundo e a si mesmos, tornando os livros cúmplices nessa trajetória. Apesar de reiteradamente concordar com Leonardo Sakamoto – que afirma ser um gigantesco meteoro a única saída para o nosso planeta -, ouso teimar nas manhãs de sol e nas noites esplendidamente lunares. Para tanto, vou me aproximando cada vez mais daqueles cinco por cento, desejoso de que eles sejam capazes de ampliar suas fileiras. Sozinho, definitivamente, é bobagem.

20 março 2016

A vida é bela: Leonardo Prota e a eternidade do amor


Leonardo Prota (Bari, Apúlia / Itália, 18/07/1930 - Londrina, Paraná / Brasil, 19/03/2016) e eu, na UEL, em 02 de setembro de 2014, no dia de minha posse como professor: “Fiz minha carreira aqui e fui muito feliz. Agora é a sua vez, Marco Antonio!”

Depois dos quarenta anos tornam-se mais frequentes as perdas, as notícias sobre doença e morte de amigos, familiares, ídolos e heróis. Aliás, é preciso dizer com todas as letras que heróis são imortais e, de tão grandes que costumam ser, habitam muitos mundos ao longo da sua eternidade. Brecht tinha razão quando disse, desapontado, que são infelizes as nações que necessitam de heróis. Os povos e as nações não carecem mesmo. Os indivíduos, contudo, sim.

Eu tive a oportunidade de ter um herói como mestre, melhor amigo e compadre durante um bom tanto do tempo que passou na Terra. Na verdade, nos últimos treze anos de sua estada neste planeta estivemos juntos, e por isso eu sempre me senti protegido. Agora que meu herói se foi - convencido de que tinha de continuar sua trajetória pelos muitos mundos -, eu estou só mais uma vez. É hora de examinar quanto será diferente a vida sem a companhia de Leonardo Prota.

Embora eu já soubesse fazia bastante tempo quem era o grande filósofo e estimado professor Leonardo Prota por causa de seu bonito trabalho na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e também pelo fato de ele ser companheiro de Lesi Correa, minha professora de Sociologia na época dos estágios da licenciatura no curso de Ciências Sociais, nós nos aproximamos em 2003, em Apucarana, quando éramos docentes num curso de Direito numa então pequena faculdade familiar, criada e dirigida por alguns amigos daquela cidade.

Ele era o professor de Filosofia; eu, o de Sociologia. Ele, um septuagenário; eu, um garoto de quase trinta anos ainda no início da carreira, obrigado a viver de modo peregrino, de escola em escola, disposto a juntar moedas suficientes para honrar compromissos e abastecer a dispensa. Eu estava casado havia um ano e meu coração era um oceano de ilusões no tocante à carreira acadêmica no mercado privado da educação superior.

De lá para cá, minhas ilusões foram desaparecendo, ao mesmo tempo que as relações entre mim e Leonardo Prota se estreitavam mais e mais. No começo, era coleguismo profissional e muito respeito; adiante, sintonia de valores (apesar de nossas marcantes diferenças ideológicas); a partir de um dado momento, em 2005, passou a ser um vínculo afetivo poderoso. Não posso dizer isso de muita gente, não, mas entre mim e Leonardo Prota a relação era de pai para filho e de filho para pai.

Num momento frustrante e entristecedor de minha vida pessoal e profissional, quando tudo e todos apostaram que era mais fácil e oportuno duvidar de mim e se posicionar ao lado das versões sobre os fatos que eu dizia ser inverídicas, Leonardo Prota me abrigou sob sua incontestável autoridade moral e me defendeu veementemente. Lembro que certa vez perguntei a ele por que acreditava tanto em mim, sem sequer fazer questão de ouvir os detalhes das histórias e alegações. Ele, com o apoio da contundência habitual do olhar, respondeu: “Eu acredito no que sei que você é. Não há necessidade de explicações”. O tempo, em seus inevitáveis registros, se encarregou de provar que eu dizia a verdade. Mais de uma vez tive a honra de ouvir Leonardo Prota dizer que eu sou um “grande homem”. Amizade assim raramente ocorre nesta vida. É pura dádiva.

Leonardo Prota e eu vivemos incontáveis momentos juntos. Antes de tudo, ele me recebia frequentemente em sua casa, onde conversávamos sobre o Brasil, o mundo e, principalmente, esse estranho e complexo projeto chamado humanidade. Mas houve muito mais: saboreamos todas as feijoadas, pizzas e churrascadas; brindamos a vida com coca-cola, cerveja e vinho; viajamos para a praia; escrevemos coisas juntos (ele, inclusive, foi o editor de meu primeiro livro); matamos a saudade que alguns dias de distância insistiam em nos impor com bate-papos ao telefone; confessamos nosso amor por João Gabriel – meu filho, seu afilhado – com a alegria de quem via nele o prolongamento de nossos sonhos. Na Academia de Letras de Londrina, eu o substitui duas vezes, em suas mensais reflexões filosóficas, por conta de suas viagens a Itália: na primeira oportunidade, falei sobre a Utopia; na segunda, sobre o Amor. Este ano, aliás, pude conhecer sua terra natal, fato que o deixou muito feliz. No retorno da viagem, mesmo obrigado a reencontrá-lo hospitalizado e frágil, narrei a ele todo o meu encantamento pela Itália e pela ilha da Sardenha. Lúcido, condição que manteve durante toda a sua longa internação, sorriu à vontade. Leonardo Prota era um italiano que optou pela brasilidade. Essa intensa liberdade de espírito fazia dele um cidadão universal, um tipo de sujeito em extinção nas sociedades contemporâneas.

Leonardo Prota era um homem genuíno, um humanista, um pensador liberal de fortes motivações sociais, que só soube fazer o bem na vida. Estava tão além da maioria dos seus parceiros de filiação ideológica que fez de mim - um jovem comunista – um amigo, um aprendiz, um filho. Discordávamos entre sorrisos e abraços, incapazes de ensejar decepções. Nosso mútuo bem-querer encontrava invariavelmente um jeito de produzir uma bela síntese de nossas teses e antíteses. Leonardo Prota e eu éramos um afeto grandioso que representava como poucas outras coisas que conheço a ideia de unidade na diversidade. O amor é capaz disso.

É impossível rememorar tudo que tive o privilégio de viver com Leonardo Prota. Compartilhamos inúmeros banquetes e saudações, estivemos em vários lugares, rimos e choramos diante de diversos acontecimentos. Quando perdi meu pai, por exemplo, ele foi o primeiro a chegar, me acolher em abraço e a ficar o tempo todo comigo. Dividi com ele em primeira mão a notícia de que eu seria pai (a propósito, João Gabriel nasceu em 06 de novembro, dia de São Leonardo). Partilhei com ele minhas angústias e bem-aventuranças profissionais. Sempre solicitei a ele que opinasse sobre meus escritos e desse uma arranjada em minhas ideias às vezes tão furtivas e carentes. Enfim, de um modo ou de outro, estávamos unidos por laços indissociáveis de admiração e ternura.

Guardo no coração, entretanto, um momento como o mais especial de todos, que se destaca por sua demonstração de generosidade sem limites e por sua lição de altruísmo em estado puro. Ao comparecer a Pró-Reitora de Recursos Humanos da UEL para tomar posse como docente, em 02 de setembro de 2014, às 14 horas, Leonardo Prota já estava lá, me aguardando para acompanhar o ato de posse e caminhar comigo até o Departamento de Ciências Sociais, onde me apresentaria para o trabalho. Ele, que se aposentou na UEL aos setenta anos de idade, depois de uma vida inteira dedicada ao mundo acadêmico e ao debate de ideias, a certa altura daquele inesquecível dia, me disse: “Fiz minha carreira aqui e fui muito feliz. Agora é a sua vez, Marco Antonio".

Prota (“Marco Antonio? Aqui é Prota!”, dizia no início de todo telefonema) me chamava sempre pelo meu nome duplo. Era um homem doce, gentil e de presença agradável e desejada. Era uma rara unanimidade, um sujeito ético, sábio e bastante discreto. Tinha uma fé inabalável em Deus e uma espiritualidade que inspirava todos a sua volta. Percorreu o mundo em busca de sinais de sua fé e acabou encontrando a si mesmo um sem-número de vezes, o que converteu suas convicções religiosas em repertório de solidariedade e amor ao próximo. Não era à toa que sempre encerrava suas aulas, discursos e conferências com a mesma frase: “A vida é bela”. Nada mais legítimo em se tratando desse gigante ser humano.

No hospital, dias antes de seu falecimento, pedi a ele que ficasse bom logo, disse que havia escrito algumas coisas e necessitava de suas observações, informei que queria lhe entregar uns livros que comprei na Itália, expus que João Gabriel estava com saudade... Impedido de falar por causa de uma traqueostomia, ele me olhou fixa e ternamente. Piscou-me demoradamente e respirou com profundidade. Naquele instante, entendi que ele me dizia adeus e me agradecia a amizade tão fiel. Apertei sua mão e lhe disse: “Eu amo o senhor!”

Nunca mais vi Leonardo Prota, mas tenho estado com ele o tempo todo.