27 janeiro 2016

Dialética


Já escrevi muita coisa sobre a dialética. Fiz inúmeras incursões por suas versões grega, hegeliana e marxista. Destaquei os pensadores dialéticos do século XX que mais me fazem a cabeça, como Antonio Gramsci e Walter Benjamin, principalmente. Em minhas aulas, toda vez que o tema aparecia, brincava com os alunos dizendo que Dialética era o nome de uma pequena vira-latas que tive. Eu enfatizava que gostava muito dela e sofrera demais quando a vi ser atropelada. Na história, no vaivém da mentalidade conservadora seduzindo e conquistando corações, a dialética vive mesmo sendo atropelada e dada como morta...

Como Jason, o serial killer da franquia de filmes Sexta-feira 13, a dialética – não a saudosa cadelinha, infelizmente – sempre retorna e resiste um pouco mais, enlouquecendo de paúra seus detratores e opositores, todos eles seres muito aquém dos caprichos dialéticos mais sutis.

Muito mais do que um método para abordar e avaliar a realidade, a dialética é um modo de pensar que nutre e fortalece um estilo de ser e viver. Graças a sua insistência e presumível imortalidade, a dialética permite que o mundo seja percebido por suas contradições e inadequações, não por ilusórias linearidades e obviedades. A dialética é exigente: ou se admite que há muito mais entre o Céu e a Terra do que o aparente, consagrado e difundido, ou se apanha impiedosamente da realidade. Para flertar com a dialética, o sujeito deve minimamente assumir a complexidade de tudo o que é humano e, no limite, ajoelhar-se diante das misteriosas e irredutíveis formas de viver. A dialética, em suma, é uma imensa esfinge, a qual nunca se deixa decifrar e adora devorar seus desafiantes.

Complexa e atenta aos movimentos contraditórios da história, a dialética é também desaforada. É desaconselhável confiar-lhe certezas e verdades. João Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, dá uma aula gratuita e talvez involuntária sobre a melhor das dialéticas: a verdade, escreve o genial mineiro, não está no início nem no final dos percursos – está na trajetória.

Pelo olhar dialético, a realidade vai se compondo diante da razão iluminista e da emoção romântica. Objetividade e subjetividade, o eu e o outro, o ator e o roteiro, o musicista e a partitura, o poeta e os versos, os diferentes se atraem e se complementam, os iguais se afastam e se diferenciam. Ao cabo de tudo – que, de fato, é só mais um início -, o real se torna a síntese de muitas determinações, uma unidade da diversidade. Foi um velho barbudo quem escreveu isso, lá na metade do século XIX.

A faceta mais marcante da dialética é aquela que enfrenta o puritanismo das concepções esquematizantes e simplificadoras do mundo. Não há mal que não contenha o bem, assim como não há bondade que impeça de ser vista a maldade que nela reside, dela se alimenta e a partir dela se expande. A dialética, então, abomina juízos rápidos e sentenças unânimes, preferindo a diversidade de pontos de vista à multiplicação de um soberano e impositivo modo de ser/ver/fazer/viver. A dialética é pluralista, mas rejeita o ecletismo que revela incoerência, abraçando com ternura os espíritos que se autocriticam e buscam manter suas perspectivas à luz das mudanças que tempo e história estabelecem como requisito à sobrevivência da inteligência e da sensibilidade.

A dialética é uma forma de amar. Sim, um expediente de corações livres que se alteram pelo outro, que se sentem responsáveis pelo mundo e pelas vidas que nele desejam se realizar. Di-a-lé-ti-ca lembra diálogo, supõe voz, estimula vez. É amar porque convoca a todos, pertence ao gênero humano. Ela é amor porque ensina um pouco mais do humano para o próprio humano. A dialética, enfim, é um bom dia que nunca termina, com todas as suas implicações.

19 janeiro 2016

O tempo


A antidiva estadunidense Riley Reid, despertando para tentar, um dia mais, abraçar e contrariar o tempo de uma só vez.

Há um lugar para o tempo. Os casos e causos da vida se passam de um determinado modo a depender do espaço em que se encontram e se movimentam. O deslocamento dos eventos da história, não importa seu tamanho, nos lugares em que se originam ou se instalam, é que produz o tempo.

O tempo, portanto, é movimento. Talvez por isso é que se diga tanto sobre as feridas que ele cura. A verdade é que o tempo se encerra em mais tempo, as horas se sucedem, os dias passam e trazem inevitavelmente muitas novidades. O tempo ameniza, produz conforto, realiza milagres. Mas o tempo também agride, desespera e mata. O tempo é tudo que se pode ter. Sem ele, nada pode ser, ninguém nada pode ter.

O melhor amigo do humano só pode ser o tempo. As horas ensinam, ajudam no amadurecimento, permitem que ações sejam revistas, histórias sejam resgatadas, pessoas encontrem perdão e liberdade. O tempo, como movimento, constrói pontes e ergue castelos, aproxima indivíduos, grupos e classes. O tempo, ininterruptamente, desloca o que antes parecia fixo e imutável, sólido e indestrutível. De tipo sereno ou grotesco, o tempo tem muito senso de humor.

É precisa e até impiedosa a máxima segundo a qual o tempo destrói tudo. Nada nem ninguém subsiste ao tempo. Ídolos, heróis e potências estão sob as ruínas do tempo. Sobre tudo e todos, eleva-se a mudança. Tempo, nesses termos, é o eterno vir-a-ser.

Sol, chuva, calor, frio, tempestades e bonanças, todos os elementos e fatores do clima estão intimamente ligados ao tempo. Tempo bom. Tempo ruim. Tempo instável. O tempo transforma tudo e sabe que, para tanto, é preciso que se mantenha em permanente estado de mutação. Jamais haverá um mesmo tempo novamente.

Nada é mais desafeito ao tempo do que o desperdício. O tempo que vai não volta. O tempo que se perde nunca mais se localiza. Não há túmulos para o tempo. Ele somente voa e não faz escala em nenhum lugar. Alguém já cantou: “O tempo não para”. Ainda bem.

Tive de reservar um tempo para escrever esta crônica. Precisei definir uma ideia central e destacar um ponto gerador. Fui dar uma olhada em “Sobre o tempo”, de Norbert Elias, e em “Conversas sobre o tempo”, um belo, fecundo e longo bate-papo entre os escritores Luis Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura, mediado com generosidade pelo jornalista Arthur Dapieve. Recordei filmes e canções que tratam do tempo – e percebi que muitas histórias relacionadas com a música e o cinema constituíram o tempo da minha vida e demarcaram diferentes fases da minha trajetória.

O tempo faz olhar para trás e exige que se vislumbre o horizonte. Embora esteja sempre no presente, o tempo vem de algum lugar e se dirige a muitos outros; sofre alterações culturais, adaptações de acordo com as circunstâncias em que vivem homens e mulheres, adultos e crianças, velhos e gente que está por vir. O tempo, num certo sentido, não concede privilégios. Mas distribui graúdos prêmios àqueles que o utilizam de maneira sábia e equilibrada. Já escreveu o profeta que há tempo para cada coisa e, portanto, para tudo.

O tempo, enfim, adorna e encanta o mundo. Aqueles que sabem envelhecer convertem as marcas do tempo em signo da beleza. A obra humana, quando suportada pelo tempo, transforma-se em tradição e história, exemplo e inspiração. Na vida, afinal de contas, só o tempo tem algo a revelar.