19 janeiro 2016

O tempo


A antidiva estadunidense Riley Reid, despertando para tentar, um dia mais, abraçar e contrariar o tempo de uma só vez.

Há um lugar para o tempo. Os casos e causos da vida se passam de um determinado modo a depender do espaço em que se encontram e se movimentam. O deslocamento dos eventos da história, não importa seu tamanho, nos lugares em que se originam ou se instalam, é que produz o tempo.

O tempo, portanto, é movimento. Talvez por isso é que se diga tanto sobre as feridas que ele cura. A verdade é que o tempo se encerra em mais tempo, as horas se sucedem, os dias passam e trazem inevitavelmente muitas novidades. O tempo ameniza, produz conforto, realiza milagres. Mas o tempo também agride, desespera e mata. O tempo é tudo que se pode ter. Sem ele, nada pode ser, ninguém nada pode ter.

O melhor amigo do humano só pode ser o tempo. As horas ensinam, ajudam no amadurecimento, permitem que ações sejam revistas, histórias sejam resgatadas, pessoas encontrem perdão e liberdade. O tempo, como movimento, constrói pontes e ergue castelos, aproxima indivíduos, grupos e classes. O tempo, ininterruptamente, desloca o que antes parecia fixo e imutável, sólido e indestrutível. De tipo sereno ou grotesco, o tempo tem muito senso de humor.

É precisa e até impiedosa a máxima segundo a qual o tempo destrói tudo. Nada nem ninguém subsiste ao tempo. Ídolos, heróis e potências estão sob as ruínas do tempo. Sobre tudo e todos, eleva-se a mudança. Tempo, nesses termos, é o eterno vir-a-ser.

Sol, chuva, calor, frio, tempestades e bonanças, todos os elementos e fatores do clima estão intimamente ligados ao tempo. Tempo bom. Tempo ruim. Tempo instável. O tempo transforma tudo e sabe que, para tanto, é preciso que se mantenha em permanente estado de mutação. Jamais haverá um mesmo tempo novamente.

Nada é mais desafeito ao tempo do que o desperdício. O tempo que vai não volta. O tempo que se perde nunca mais se localiza. Não há túmulos para o tempo. Ele somente voa e não faz escala em nenhum lugar. Alguém já cantou: “O tempo não para”. Ainda bem.

Tive de reservar um tempo para escrever esta crônica. Precisei definir uma ideia central e destacar um ponto gerador. Fui dar uma olhada em “Sobre o tempo”, de Norbert Elias, e em “Conversas sobre o tempo”, um belo, fecundo e longo bate-papo entre os escritores Luis Fernando Veríssimo e Zuenir Ventura, mediado com generosidade pelo jornalista Arthur Dapieve. Recordei filmes e canções que tratam do tempo – e percebi que muitas histórias relacionadas com a música e o cinema constituíram o tempo da minha vida e demarcaram diferentes fases da minha trajetória.

O tempo faz olhar para trás e exige que se vislumbre o horizonte. Embora esteja sempre no presente, o tempo vem de algum lugar e se dirige a muitos outros; sofre alterações culturais, adaptações de acordo com as circunstâncias em que vivem homens e mulheres, adultos e crianças, velhos e gente que está por vir. O tempo, num certo sentido, não concede privilégios. Mas distribui graúdos prêmios àqueles que o utilizam de maneira sábia e equilibrada. Já escreveu o profeta que há tempo para cada coisa e, portanto, para tudo.

O tempo, enfim, adorna e encanta o mundo. Aqueles que sabem envelhecer convertem as marcas do tempo em signo da beleza. A obra humana, quando suportada pelo tempo, transforma-se em tradição e história, exemplo e inspiração. Na vida, afinal de contas, só o tempo tem algo a revelar.