20 março 2016

A vida é bela: Leonardo Prota e a eternidade do amor


Leonardo Prota (Bari, Apúlia / Itália, 18/07/1930 - Londrina, Paraná / Brasil, 19/03/2016) e eu, na UEL, em 02 de setembro de 2014, no dia de minha posse como professor: “Fiz minha carreira aqui e fui muito feliz. Agora é a sua vez, Marco Antonio!”

Depois dos quarenta anos tornam-se mais frequentes as perdas, as notícias sobre doença e morte de amigos, familiares, ídolos e heróis. Aliás, é preciso dizer com todas as letras que heróis são imortais e, de tão grandes que costumam ser, habitam muitos mundos ao longo da sua eternidade. Brecht tinha razão quando disse, desapontado, que são infelizes as nações que necessitam de heróis. Os povos e as nações não carecem mesmo. Os indivíduos, contudo, sim.

Eu tive a oportunidade de ter um herói como mestre, melhor amigo e compadre durante um bom tanto do tempo que passou na Terra. Na verdade, nos últimos treze anos de sua estada neste planeta estivemos juntos, e por isso eu sempre me senti protegido. Agora que meu herói se foi - convencido de que tinha de continuar sua trajetória pelos muitos mundos -, eu estou só mais uma vez. É hora de examinar quanto será diferente a vida sem a companhia de Leonardo Prota.

Embora eu já soubesse fazia bastante tempo quem era o grande filósofo e estimado professor Leonardo Prota por causa de seu bonito trabalho na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e também pelo fato de ele ser companheiro de Lesi Correa, minha professora de Sociologia na época dos estágios da licenciatura no curso de Ciências Sociais, nós nos aproximamos em 2003, em Apucarana, quando éramos docentes num curso de Direito numa então pequena faculdade familiar, criada e dirigida por alguns amigos daquela cidade.

Ele era o professor de Filosofia; eu, o de Sociologia. Ele, um septuagenário; eu, um garoto de quase trinta anos ainda no início da carreira, obrigado a viver de modo peregrino, de escola em escola, disposto a juntar moedas suficientes para honrar compromissos e abastecer a dispensa. Eu estava casado havia um ano e meu coração era um oceano de ilusões no tocante à carreira acadêmica no mercado privado da educação superior.

De lá para cá, minhas ilusões foram desaparecendo, ao mesmo tempo que as relações entre mim e Leonardo Prota se estreitavam mais e mais. No começo, era coleguismo profissional e muito respeito; adiante, sintonia de valores (apesar de nossas marcantes diferenças ideológicas); a partir de um dado momento, em 2005, passou a ser um vínculo afetivo poderoso. Não posso dizer isso de muita gente, não, mas entre mim e Leonardo Prota a relação era de pai para filho e de filho para pai.

Num momento frustrante e entristecedor de minha vida pessoal e profissional, quando tudo e todos apostaram que era mais fácil e oportuno duvidar de mim e se posicionar ao lado das versões sobre os fatos que eu dizia ser inverídicas, Leonardo Prota me abrigou sob sua incontestável autoridade moral e me defendeu veementemente. Lembro que certa vez perguntei a ele por que acreditava tanto em mim, sem sequer fazer questão de ouvir os detalhes das histórias e alegações. Ele, com o apoio da contundência habitual do olhar, respondeu: “Eu acredito no que sei que você é. Não há necessidade de explicações”. O tempo, em seus inevitáveis registros, se encarregou de provar que eu dizia a verdade. Mais de uma vez tive a honra de ouvir Leonardo Prota dizer que eu sou um “grande homem”. Amizade assim raramente ocorre nesta vida. É pura dádiva.

Leonardo Prota e eu vivemos incontáveis momentos juntos. Antes de tudo, ele me recebia frequentemente em sua casa, onde conversávamos sobre o Brasil, o mundo e, principalmente, esse estranho e complexo projeto chamado humanidade. Mas houve muito mais: saboreamos todas as feijoadas, pizzas e churrascadas; brindamos a vida com coca-cola, cerveja e vinho; viajamos para a praia; escrevemos coisas juntos (ele, inclusive, foi o editor de meu primeiro livro); matamos a saudade que alguns dias de distância insistiam em nos impor com bate-papos ao telefone; confessamos nosso amor por João Gabriel – meu filho, seu afilhado – com a alegria de quem via nele o prolongamento de nossos sonhos. Na Academia de Letras de Londrina, eu o substitui duas vezes, em suas mensais reflexões filosóficas, por conta de suas viagens a Itália: na primeira oportunidade, falei sobre a Utopia; na segunda, sobre o Amor. Este ano, aliás, pude conhecer sua terra natal, fato que o deixou muito feliz. No retorno da viagem, mesmo obrigado a reencontrá-lo hospitalizado e frágil, narrei a ele todo o meu encantamento pela Itália e pela ilha da Sardenha. Lúcido, condição que manteve durante toda a sua longa internação, sorriu à vontade. Leonardo Prota era um italiano que optou pela brasilidade. Essa intensa liberdade de espírito fazia dele um cidadão universal, um tipo de sujeito em extinção nas sociedades contemporâneas.

Leonardo Prota era um homem genuíno, um humanista, um pensador liberal de fortes motivações sociais, que só soube fazer o bem na vida. Estava tão além da maioria dos seus parceiros de filiação ideológica que fez de mim - um jovem comunista – um amigo, um aprendiz, um filho. Discordávamos entre sorrisos e abraços, incapazes de ensejar decepções. Nosso mútuo bem-querer encontrava invariavelmente um jeito de produzir uma bela síntese de nossas teses e antíteses. Leonardo Prota e eu éramos um afeto grandioso que representava como poucas outras coisas que conheço a ideia de unidade na diversidade. O amor é capaz disso.

É impossível rememorar tudo que tive o privilégio de viver com Leonardo Prota. Compartilhamos inúmeros banquetes e saudações, estivemos em vários lugares, rimos e choramos diante de diversos acontecimentos. Quando perdi meu pai, por exemplo, ele foi o primeiro a chegar, me acolher em abraço e a ficar o tempo todo comigo. Dividi com ele em primeira mão a notícia de que eu seria pai (a propósito, João Gabriel nasceu em 06 de novembro, dia de São Leonardo). Partilhei com ele minhas angústias e bem-aventuranças profissionais. Sempre solicitei a ele que opinasse sobre meus escritos e desse uma arranjada em minhas ideias às vezes tão furtivas e carentes. Enfim, de um modo ou de outro, estávamos unidos por laços indissociáveis de admiração e ternura.

Guardo no coração, entretanto, um momento como o mais especial de todos, que se destaca por sua demonstração de generosidade sem limites e por sua lição de altruísmo em estado puro. Ao comparecer a Pró-Reitora de Recursos Humanos da UEL para tomar posse como docente, em 02 de setembro de 2014, às 14 horas, Leonardo Prota já estava lá, me aguardando para acompanhar o ato de posse e caminhar comigo até o Departamento de Ciências Sociais, onde me apresentaria para o trabalho. Ele, que se aposentou na UEL aos setenta anos de idade, depois de uma vida inteira dedicada ao mundo acadêmico e ao debate de ideias, a certa altura daquele inesquecível dia, me disse: “Fiz minha carreira aqui e fui muito feliz. Agora é a sua vez, Marco Antonio".

Prota (“Marco Antonio? Aqui é Prota!”, dizia no início de todo telefonema) me chamava sempre pelo meu nome duplo. Era um homem doce, gentil e de presença agradável e desejada. Era uma rara unanimidade, um sujeito ético, sábio e bastante discreto. Tinha uma fé inabalável em Deus e uma espiritualidade que inspirava todos a sua volta. Percorreu o mundo em busca de sinais de sua fé e acabou encontrando a si mesmo um sem-número de vezes, o que converteu suas convicções religiosas em repertório de solidariedade e amor ao próximo. Não era à toa que sempre encerrava suas aulas, discursos e conferências com a mesma frase: “A vida é bela”. Nada mais legítimo em se tratando desse gigante ser humano.

No hospital, dias antes de seu falecimento, pedi a ele que ficasse bom logo, disse que havia escrito algumas coisas e necessitava de suas observações, informei que queria lhe entregar uns livros que comprei na Itália, expus que João Gabriel estava com saudade... Impedido de falar por causa de uma traqueostomia, ele me olhou fixa e ternamente. Piscou-me demoradamente e respirou com profundidade. Naquele instante, entendi que ele me dizia adeus e me agradecia a amizade tão fiel. Apertei sua mão e lhe disse: “Eu amo o senhor!”

Nunca mais vi Leonardo Prota, mas tenho estado com ele o tempo todo.