09 março 2016

Coração de Benjamin


"Amor Vagabundo" (1992), de Cláudio Francisco da Costa

Aquilo que aprendemos nos anos da infância e da adolescência é definitivo na formação do caráter e para as escolhas que faremos ao longo da vida. Quase nunca questiono essa sentença. Ao lembrar histórias, cenários e personagens de meus tempos de criança e da primeira fase da juventude, isso se consolida ainda mais na minha consciência.

Vivi até os dezoito anos na capital paulista. Lá estudei, toquei numa banda de rock, experimentei as primeiras paixões. Os autores de livros, os tipos de filme, os estilos musicais, as aptidões estéticas, a defesa de convicções, a filiação a ideais, todo o universo de minhas referências atuais vem daquele tempo, daquelas inter-relações humanas, das tantas trocas políticas e afetivas. Houve aperfeiçoamentos, pequenas guinadas, sutis transformações, é óbvio, mas o essencial carrego comigo, ponho no mundo, faço evoluir e amadurecer. No limite, sou um devir, uma longa e complexa trajetória. Creio que o humano seja assim, inexoravelmente.

Naqueles hoje perdidos anos das décadas de 1980 e 1990, a rua era uma extensão do lar. Brincávamos na praça da esquina e frequentávamos todo tipo de lugar na companhia de muitos amigos. A única maneira de viver de fato era abraçando as horas e as pessoas. O contato com o outro humanizava, alimentava inquietações e sugeria a necessária política dos afetos. O eu era também o outro, e ambos pertenciam ao mundo, um lugar que exigia cuidados e a partilha de sensações. A opção por ideais que se valessem da crítica contra o que desumanizasse e ferisse laços de fraternidade era comum e desejável. A suposta hegemonia dos ideários à esquerda, atacados como um dos mais nocivos males contemporâneos, não era um resultado do acaso; era o triunfo de histórias de vida que se cruzavam, percebiam, davam as mãos.

Essa relação estreita entre indivíduos que compartilhavam cotidianamente narrativas e vivências – tornando-se, assim, seres sociais singulares – já não existe de modo abrangente. Ao contrário: sobrevive como a exceção dos nostálgicos. As partidas de futebol no campinho do bairro, as temporadas de rodar peão, empinar pipa e jogar botão ou bolinha de gude deram lugar à solidão diante de telas cada vez mais coloridas e atraentes, um espelho a refletir o vazio deste estranho mundo líquido-moderno.

A grande aventura individual de meus tempos de moleque ocorria entre as estantes da biblioteca Mário de Andrade. Aparentemente sozinhos, eu e meus companheiros de geração convidávamos os heróis e anti-heróis de Monteiro Lobato, Marcos Rey, Ruth Rocha, Stella Carr, Lúcia Machado de Almeida e tantos outros para nos contar sobre outras realidades e desafiar a imaginação. Ao regressarmos para o nosso dia a dia, tínhamos mais histórias para compartilhar e novas impressões que se reconheciam na curiosidade de amigos, familiares e gentes que encontrávamos corriqueiramente pelo caminho. Pela realidade ou pela ficção (qual a fronteira precisa entre esses dois mundos?), fazíamos uns aos outros, juntos, humanamente.

Até hoje devoro livros. Tenho mais exemplares do que estantes; por isso, eles se esparramam pela casa. Vejo com muita emoção meu filho desenvolver por eles o mesmo carinho e uma paixão ainda maior que a minha. Nossa casa é um oásis de histórias – nenhum videogame, nenhum site de internet, nenhum smartphone, nada dessas coisas tem o poder de animar a criatividade e desabrochar a vida que tem um pequeno e à vista inofensivo livro. Olhar à volta, não temendo o choque diante de tanta miséria espiritual e insensatez comportamental, basta para compreender a força desse fenômeno.

No final dos anos 1980 e no início da década de 1990, estive no ápice da primeira juventude. Eram tempos de muitos sonhos, hormônios e rock’n’roll. No entorno, havia duas realidades paralelas: uma, mais expansiva e “dentro da ordem”, expressava a geração coca-cola, antenada na moda, consumidora de produtos, serviços e tendências da velha indústria cultural; outra, bastante underground, enveredava pela cena urbana e musical independente, gostava de política, criticava o “estado de coisas” que ensejava todo tipo de injustiça e desigualdade social. Com meus livros, minha guitarra e meus LPs do Black Sabbath, segui com o grupo da segunda realidade (e, com ele, de várias maneiras, ainda prossigo).

O Brasil sobrevivera a mais de vinte anos de ditadura civil-militar e sofrera com um histórico de censura, perseguição e morte. Os anos 1980, para o bem e para o mal, não poderiam nascer indiferentes à dura influência desse legado político, econômico e cultural na sociedade brasileira.

A cultura da música pesada, os shows de heavy metal e a galera headbanger acenavam com inquietude para a rebeldia das almas de parte de uma geração que era obrigada a conviver com programas infantis banalizados na TV, canções pasteurizadas na Rádio e uma pegada coletiva esvaziada, bastante despolitizada e crescentemente consumista, indiferente aos temas da vida comum. Graças ao heavy metal, mantive-me ligado à contestação, aos dramas das minorias, às sombras do Terceiro Mundo e à diversidade. Mais tarde, na universidade, entendi que o metal era um excelente caminho, mas não o único. Hoje, sintetizo bem o blues, a MPB e, é claro, doses alopáticas de rock e metal. Mudei muito para, paradoxalmente, continuar a ser a mesma pessoa.

Nos tempos de escola (sempre a escola pública, da creche ao ensino superior), o interesse era maior pelas humanidades. Adorava História e Literatura. Aliás, durante os ensinos fundamental II e médio – à época, ginásio e colegial, respetivamente -, tive um só professor de História, o adorado Fausto. Um dia, acho que na sétima série, ele me disse que eu deveria estudar para ser sociólogo. Eu não fazia ideia do ofício profissional do sociólogo nem sabia com exatidão de que tratava sua ciência. Os anos se passaram, eu me mudei de cidade e estado, ingressei na universidade e me tornei um... sociólogo! Como escrevi antes, aquilo que nos envolve verdadeiramente na infância e na adolescência é decisivo para o resto da vida.

Dos anos de intermináveis campeonatos de futebol de botão e leituras cativantes dos livros da série vaga-lume, passando pela maravilhosa fase como guitarrista de rock, até chegar à universidade e ao curso de ciências sociais, percorri um caminho de inúmeros aprendizados. Entendi, por exemplo, que há interesses e grupos sempre em disputa (mais do que isso: aprendi que existem classes sociais e que hoje no auge da crise desse conceito, elas existem mais fortes ainda). Assim, não há pureza nos discursos nem imparcialidade nas ações. Admitindo-se ou não, há tomadas de partido e há também a intransigente defesa de particularismos contra universalismos.  Quanto mais fechados em si se tornam os sujeitos, mais à direita caminham as mentalidades e práticas sociais, menos pluralistas se tornam as visões de mundo, menos bonitas e sofisticadas se constituem as ideias. Nosso tempo, portanto, é bem pouco universal, haja vista a torpeza extrema de argumentos tanto na defesa quanto na crítica contrária do que quer que seja. Walter Benjamin tinha razão, já na década de 1930, quando afirmou que perdemos a experiência comum e, consequentemente, ficamos bem mais pobres e alquebrados.

Nos anos da faculdade de ciências sociais na UEL, descobri que há mais coisas entre o Céu e a Terra. Nos dias que correm, afirmo que nenhuma dessas coisas entre o reino dos mortais e o paraíso dos anjos se encontra nas redes sociais. Se antes o convívio e a disposição para existir em relação ao outro eram a boa regra da experiência e desenhavam os mapas da paixão, agora o que voga é a dissimulação, a proteção dada aos covardes pelo anonimato ou pela distância que desumaniza. Umberto Eco acertou em cheio: as redes sociais libertaram legiões de imbecis que viviam escondidos de si mesmos, sem domínio de linguagem, conceitos e categorias, para se expressar nos poucos espaços de outrora. Este é um revés da democracia com o qual temos de aprender a conviver: há espaço livre e cada vez maior para os chatos e charlatões. Cabe a quem ainda acredita na possibilidade de fazer escolhas saudáveis manter prudente afastamento dessas, digamos, formas alienígenas de vida.

A inesgotável era de meus aprendizados me ensina, contudo, que os indivíduos não podem ser os únicos responsáveis pelo que dizem ou fazem.  Se não podem ser simplesmente inocentados, não devem também ser vistos como arquitetos, mandantes e executores autônomos de suas blasfêmias e atrocidades. Entender que tudo, mais do que nunca, é política e está interligado por fragmentos apenas aparentemente desconexos permite recuperar a tão cara noção de totalidade e reunir na trama da vida as múltiplas determinações do poder, da fé, da mídia e da educação. Desse modo, descortinamos realidades e constatamos que um pobre infeliz que grita "Bolsonaro Presidente" no Facebook não chega a ser sequer a ponta de um iceberg. Na melhor das hipóteses, trata-se da mínima partícula de uma minúscula gota d’água no oceano (por mais que seja insuportável admitir que alguém com mínimas credenciais cognitivas possa alardear esse tipo de ameaça por aí).

Em 1989, entre um e outro show de rock, antes e depois de uma nova história de Rubem Fonseca, engajei-me na campanha presidencial de Lula. Naquela época, na Vila Madalena, bairro boêmio em que nasci e cresci, o PT era a escolha dos professores mais admirados e combativos, dos artistas mais talentosos, das pessoas mais descoladas, bonitas e inteligentes. Ele representava a tão sonhada renovação da esquerda brasileira, a batalhada liberdade dos trabalhadores, a prioridade educacional, o devido reconhecimento da cultura como gênese política de novas e melhores utopias. Enfim, o PT era o anti-herói da história do Brasil. E isso era mais do que sensacional: era verdadeiramente revolucionário. 

Há um simbolismo poderoso na constituição e na consolidação do PT como ator político no país. No poder há mais de uma década, em seu quarto mandato presidencial consecutivo, o partido capitulou em diversos sentidos, acendendo maços inteiros de velas ao coisa-ruim. Abraçou o agronegócio, assanhou o capital financeiro e especulativo, beijou mãos e pés do passado colonial brasileiro, ressuscitou coronéis, assistiu à debandada de seus melhores quadros etc. Tudo isso, no entanto, não foi suficiente para conter a espantosa ascensão conservadora da sociedade brasileira diante da pequena e até tímida melhora nas condições de vida das classes subalternas, obtida à custa de fulgurosas concessões às elites eternas, as quais, dizia Raymundo Faoro, nunca perderam uma na história do país. Entre pequenos avanços ali e acolá (mais do que fora feito em todo o período republicano, frisemos) e a aceitação dos entulhos da velha ordem por inanição ou covardia política, o Partido dos Trabalhadores acabou se revelando, como afirma o historiador Lincoln Secco, no obrigatório livro História do PT, a esquerda que o país conseguir construir, afeita e até coerente com um longo passado de clandestinidade, golpismo e conciliações pelo alto.

Fui professor por quinze anos em faculdades privadas de Londrina e região, nas quais se reuniam, em lados opostos, uma maioria de alunos de origem entre as classes trabalhadoras e um corpo docente típico das tardias classes médias brasileiras. De um lado e de outro, graças à influência sufocante do segundo grupo sobre o primeiro, pude observar diariamente um anticomunismo banal, um antipetismo tosco e agressivo, alimentado por um ódio fascista terceirizado e camuflado pela ignorância e pela capenga leitura histórica da realidade. O resultado evidente desses cenários – visível e pouco questionável nos índices abaixo de zero da excelência acadêmica dessas instituições – é a formação de multidões de analfabetos funcionais e políticos (ainda piores do que aqueles do famoso poema de Brecht), modeladas por profissionais sem qualificação humana nem arcabouço ético-científico. O absurdo disso tudo é que essa realidade precária se expandiu enormemente graças aos subsídios estatais e às bolsas de estudos criadas pelo... PT. Os mais encarniçados antipetistas nesses ambientes vivem do objeto do seu ódio, o que os torna mais reles e vis do que possa supor nossa vá imaginação.

Essas novas e curiosas personagens da vida social contemporânea leem muito pouco, refletem muitíssimo mal. O recurso à história raramente ocorre; quando dá de aparecer, escorrega na fragilidade de um raciocínio binário, que só consegue ver o mundo a partir de enfrentamentos pueris entre o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto. Uma sentença emblemática dessa experiência perdida e dessa pobreza acumulada é a propalada “Olavo tem razão”, em alusão ao falso filósofo que tem como referência básica em seus escritos a vaidade patética, o espírito zumbi da Guerra Fria e os ascendentes astrológicos de Saturno.

Votei em Lula em 1989, 1994, 1998 e 2002. Em 2006, votei nele no segundo turno, assim como o fiz em 2010 e 2014, quando Dilma era a candidata do PT. Ainda em 2003, somei-me àqueles que, inspirados pela belíssima carta aberta de desfiliação do PT escrita pelo sociólogo Francisco de Oliveira e publicada na Folha de São Paulo, saíram em busca das raízes históricas do Partido dos Trabalhadores e, então, criaram o PSOL. O Partido Socialismo e Liberdade me devolveu as brincadeiras da infância, a guitarra da adolescência e as utopias do jovem estudante de ciências sociais. Meu único partidarismo, portanto, em toda a vida, foi aquele sustentado por lutas e valores.

A filósofa Marcia Tiburi, na sua coletânea de ensaios intitulada Como conversar com um fascista insiste no poder do diálogo contra estes obtusos tempos de ódio gratuito, negação do pensamento e imposição do medo por gritarias do tipo “Vai pra Cuba”, “Comunista bom é comunista morto” e as já citadas “Bolsonaro Presidente” e “Olavo tem razão”. Tenho minhas dúvidas quanto à eficácia do diálogo em um período histórico infestado por gracejos imunes a todo tipo de apelo à sensibilidade. Apesar disso, para ser coerente com o menino que jogava botão, o garoto que dedilhava Jimi Hendrix e o jovem que lia Karl Marx, escrevi estas reflexões. Não silenciarei os fascistas que não enxergam judicializações seletivas, manobras políticas classistas, conspirações midiáticas, e não abstraem, ignorando as curvas do tempo. Mas acho que darei voz ao coração-menino que, dentro de mim, às vezes, ameaça se desanimar. Meu esforço é por mantê-lo vivo e esperançoso. Afinal, ensinou Walter Benjamin (de novo!): “A esperança só nos é dada por consideração àqueles que não têm mais esperança”.