14 abril 2016

O professor nos tempos do cólera


Ainda acredito na diferença que professores dedicados podem fazer na vida de seus alunos. Lendo Conversas com um jovem professor, de Leandro Karnal, essa crença ganha renovadas e animadas dimensões. É possível, sim, falar ao coração e também ao cérebro dos jovens (entendendo como jovem aquele que se dispõe a aprender e compartilhar o que sabe, independentemente da idade).

A ilusão de que professores podem alterar significativamente modos de ser e viver, entretanto, eu já não alimento mais. Vira-e-mexe, vejo, perplexo, ex-alunos defenderem causas contra as quais tudo que lhes transmiti existe. Penso nas aulas sobre democracia e liberdade; nas incontáveis discussões sobre os movimentos sociais; na biografia emocionante de gente como Chico Mendes e Carlos Marighella, por exemplo, que expus em verso, vídeo e prosa; na minha insistência diária de que há mundos e galáxias entre o aparente e o real; na minha única regra indiscutível: pensar historicamente...

Refletindo retrospectivamente, eu diria que algo em torno de cinco por cento dos alunos com os quais trabalhei (na melhor das hipóteses) permitiram que a sala de aula e o que ocorria dentro dela alterassem suas visões prévias de tudo. O restante manteve viva a máxima do escritor carioca Marques Rebelo: “Ninguém convence ninguém. Quem se deixa convencer já estava convencido.”

É nos momentos de crise que essas constatações assumem ares mais perturbadores. Ora, a escola e a universidade não seriam o celeiro de mentalidades menos simplórias e empobrecidas, do desabrochar de ideias mais frutíferas e frondosas? Não é na escola e na universidade que um universo de possibilidades críticas, artísticas, científicas e culturais se abre diante dos sentidos das pessoas? Afinal, a escola e a universidade têm qual papel na existência dos jovens? Mais: se jovem é aquele que se permite aprender e ensinar com abertura para o novo, mais oportuno e abrangente (pouco importando sua idade), estamos nos transformando numa sociedade de espíritos anciãos?

Entre o 1 e o 100, existem gradações, relevos, depressões, curvas e sequências de retas para grandes acelerações e ultrapassagens. A lógica binária e atemorizante do certo contra o errado e do bom versus o mal não deveria sobreviver ao trabalho de professores decididos a problematizar ideias e realidades, posturas e intenções. Numa autoanálise bastante sincera, digo que empenho nunca me faltou – a responsabilidade de estudar sempre mais e mais para levar às salas de aula discussões livres e emancipatórias me move hoje como na primeira aula que dei, vinte anos atrás. E o que houve de errado, então?

É certo que um professor não deve ter a pretensão de “criar” gente nova. Isso é tarefa dos deuses, eu acho. Ao professor cabe apontar caminhos e possibilidades, descortinar lugares-comuns e denunciar a má-fé ideológica que cerca e oprime os desavisados e distraídos. O professor, ainda que ciente de dar murros em ponta de faca, deve lançar poesia sobre a vida dos seus alunos, cujos versos se revelem aptos a enfrentar ódios, ressentimentos e a mais atual do que nunca luta de classes. O fato é que está faltando um toque de classe nas lutas que estão sendo travadas por aí, tanto no mundo real quanto no mundo virtual.

O mundo virtual, aliás, tornou irreal o debate público mediado pelo critério da fonte digna, da checagem de origem, do protagonismo da inteligência resistente. Quando espio o que publicam, e compartilham aqueles noventa e cinco por cento de ex-alunos nas redes sociais, por exemplo, tenho a nítida impressão de que vivemos um tempo além, um depois do fim dos tempos. Para sobreviver a tamanho desalento, desfiz um milhar de amizades em meu perfil do Facebook, entre ex-alunos e também ex-colegas, o que dá um tom ainda mais dramático ao que penso sobre o alcance do que ocorre numa sala de aula para os jovens-anciãos.

Faltam mediações (leituras, orientações, referências e repertórios). Lembro quase todo dia uma lição que tirei de um livro até bastante inocente, que resgatei num sebo por dez reais: a leitura é o hábito de indivíduos acostumados a contar histórias para si mesmos. Aquele que lê aprende a ouvir. Aquele que ouve reconhece palavras e aprende a interpretar textos e narrativas. O intérprete atento se comunica melhor, falando e escrevendo, se reconhecendo no outro e na história. Aquele que lê, portanto, é bom ouvinte e bom narrador, um sabedor de que tudo se constrói no tempo e no espaço. Enfim, aquele que lê pensa historicamente e não se permite enganar.

Como professor, contra todos e às vezes contra ninguém, é isto que organiza e motiva meu trabalho: incentivar alunos a ler o mundo e a si mesmos, tornando os livros cúmplices nessa trajetória. Apesar de reiteradamente concordar com Leonardo Sakamoto – que afirma ser um gigantesco meteoro a única saída para o nosso planeta -, ouso teimar nas manhãs de sol e nas noites esplendidamente lunares. Para tanto, vou me aproximando cada vez mais daqueles cinco por cento, desejoso de que eles sejam capazes de ampliar suas fileiras. Sozinho, definitivamente, é bobagem.