28 abril 2016

Pelas causas provavelmente perdidas


Na semana passada, motivado pelo discurso criminoso de Jair Bolsonaro na Câmara Federal, pedi aos seus admiradores que deixassem de me seguir nas redes sociais. Não entra na minha cabeça que alguém dê créditos a um indivíduo daquele naipe, que faz ode à tortura, estimula o grotesco e incentiva a prática da violência como forma de apaziguar conflitos e apagar diferenças. Acredito, sinceramente, que não deve haver tolerância serena aos intolerantes beligerantes. Considero-me um bom sujeito, dominado na alma por uma ética quase kantiana, mas não sou de oferecer a outra face, não. Falta-me vocação à santidade.

No mesmo dia em que publiquei o pedido de afastamento daqueles que apoiam direta ou indiretamente tortura e preconceito, notei que vários "amigos" de rede social hostilizavam o deputado federal Jean Wyllys (PSOL/RJ) por causa da cusparada que deu em Bolsonaro após ser xingado. Wyllys cuspiu num entusiasta da força bruta e da pena de morte que acabara de homenagear o Coronel Brilhante Ustra ao vivo em transmissão pela TV. Um cuspe de indignação foi mais forte e despertou mais ira do que aplausos a um militar que enfiava ratos na vagina das mulheres em longas e inclassificáveis sessões de tortura nas décadas de 1960 e 70. Esse tipo de reação reforça a clássica questão: "Que país é este?"

Jean Wyllys não é um deputado exemplar porque cuspiu em Bolsonaro e atacou simbolicamente tudo que representa o passado autoritário brasileiro. Ele é exemplar pela postura parlamentar que assume em favor das causas progressistas e dos direitos humanos; pela honestidade intelectual e material que recobre seu mandato; pelos prêmios que recebe no mundo inteiro em razão dos projetos que apresenta e dos princípios que incorpora a sua ação política. Acima de tudo, Jean Wyllys é um congressista muitíssimo além daqueles a que assistimos mandando beijos para netas e esposas traídas, pedindo misericórdia a Deus, vendendo a alma ao demônio numa sessão plenária que envergonhou o planeta e deixou ruborizados democratas e lutadores esperançosos por um país mais decente, livre e justo.

Saí, é claro, em defesa de Wyllys e declarei meu apoio a ele. Não ao cuspe. Não ao "não" na votação pela admissibilidade do processo de impeachment contra a presidente do país. Concordo com o "não" e compreendo muitíssimo bem as circunstâncias da cusparada (cheguei a sorrir de soslaio quando soube dela, aliás). Apoio Wyllys e registro toda minha solidariedade a ele porque acredito nas causas talvez perdidas que defende, no partido ao qual é filiado, na postura pública e transparente que assume dentro e fora do Congresso Nacional. Mais do que isso: admiro Wyllys porque não me somo aos que o atacam e não admitem que haja homofobia enraizada em tanta desfaçatez. Wyllys, em essência, é agredido costumeiramente pela mentalidade conservadora que não se declara abertamente; pelo anticomunismo que despreza a história, os livros e a cultura; pelos que não se dão conta do vazio em que estão metidos quando o assunto são os jogos políticos de poder entranhados na vida social.

Um caso curioso foi a de uma ex-aluna que me retirou de seus contatos na rede social e saiu praguejando contra Wyllys em seu perfil, disseminando informações equivocadas, preconceito e pouca inteligência. Por fim, a moça lamentou ter sido minha aluna um dia (vantagem para ela, que se lembra de mim; eu, até o momento, não recuperei um átimo de lembrança de ter sido seu professor alguma vez), posto que me julgava esclarecido, descolado e moderno. Agora, afirmava que eu tinha de estudar mais para saber que o que está ocorrendo no Brasil não tem nada de golpe. Sugeriu, bastante enfezada, que sou dono da verdade e que eu e a esquerda brasileira nos merecemos. Pois bem. Não tenho nenhuma verdade comigo, felizmente. Mas me orgulho de fazer parte da esquerda brasileira, apesar dos (ou graças aos) seus tantos erros e atropelos na história.

O terrível nessa experiência foi ver nos dias seguintes quanta gente de fato apoia Bolsonaro e seus, digamos, ideais, chamando-o de "Bolsomito" e outras tragicomédias afins. Vi gente que pedia a volta da ditadura civil-militar, que chamava Ustra de "brilhante", que justificava todas essas galhardias para evitar que o comunismo fosse instaurado no Brasil... Cheguei a ter pena de muita gente. Até de mim, que não tinha o que fazer, a não ser me aproximar cada vez mais dos sujeitos que valem a pena. O Brasil e o mundo, graças a Deus, estão cheios de lutadores e lutadoras, de gente que lê, pensa, converge, sintetiza, busca apoio na poesia e no amor. Estou à cata dessa gente, incansavelmente. E a tenho encontrado. Luta que segue.