03 maio 2016

Almas Universais


Óleo sobre tela, sem título, do paraibano Bruno Steinbach (2004)

A noite era para ser inesquecível. Havia meses que Eli ansiava reencontrar Mariana. O jantar em comemoração ao centenário da obra-prima de seu bisavô Dario Rossi, um dos mais aclamados autores do século XX, seria o cenário do momento tão aguardado.

Almas Universais, o livro prestes a completar cem anos, é ainda hoje uma das peças de ficção mais devastadoras da modernidade. Na verdade, mistura a imaginação e o real, sonhos vividos e amplamente desejados, suores, sangues e lágrimas das histórias e das utopias de várias gerações. Publicado pela primeira vez em 1916, na Sardenha, o livro conquistou o planeta quando deixou a ilha e atracou na península itálica. De Roma, Milão e Nápoles voou alto e longe, foi traduzido para mais de vinte idiomas e vendeu nos cinco continentes algo em torno de cinquenta milhões de exemplares. O que tornou Almas Universais um sucesso sem concorrentes foi a capacidade narrativa de Dario Rossi em aproximá-lo de muitas maneiras do essencial das lutas dos trabalhadores nos últimos decênios. A linguagem da esperança que exala das páginas do livro é mais que universal – é atemporal.

Desde a edição russa de 1920, Almas Universais é republicado com o prefácio escrito por Lenin. O texto preciso, elogioso e instigante do então líder bolchevique da União Soviética também atravessou com sobriedade o tempo, convertendo-se numa iniciação indispensável à leitura da obra maior de Dario Rossi.

O luxuoso jantar organizado pela nova editora brasileira dos escritos do bisavô sardo de Eli era, em termos, uma provocativa contradição ao que expressavam as palavras revolucionárias e a vida modesta do autor de Almas Universais. Dario Rossi foi ao longo de seus 96 anos de idade um sujeito de hábitos simples e duradouros. Morou sempre em casas pequenas, aconchegantes, sem nenhuma ostentação. Passou os anos a escrever de tudo um pouco: artigos para jornais, textos de intervenção sindical, alguma poesia, vinte e tantos romances. Dedicou-se a uma existência reclusa, absorvida pelo amor discreto aos filhos, aos netos e à companheira de toda a vida, a doce Valentina. Um jantar regado a vinhos cujas garrafas não saiam por menos de três mil reais cada uma e pratos sofisticados preparados por um chef belga contratado a quarenta mil euros não combinava em absolutamente nada com o velho comunista italiano.

Eli se formara na Escola de Sociologia e Política. Pouco tempo depois de formado percebeu que suas ideias se encaixavam muito bem nos cuidados com a herança cultural do bisavô ilustre e com a preservação material de sua obra. Deixou de lado o sonho acadêmico e decidiu se dedicar com exclusividade aos negócios da família. Tinha uma vida financeira tranquila e sem sobressaltos. Dinheiro, de fato, nunca lhe foi um problema.

Naquela noite, embora trabalhasse muito na promoção das novas edições de Dario Rossi e estivesse preocupado em receber bem a todos os convidados, estava interessado mesmo era em Mariana. Haviam se conhecido em uma bienal do livro na Europa (em Berlim, parece) e, desde então, se encontravam algumas vezes por ano em diferentes eventos e países, sempre em razão da divulgação dos escritos de Dario Rossi.

Mariana era uma jovem deslumbrante. Trinta e poucos anos (uns dez a menos que Eli), diretora executiva de um grande conglomerado transnacional de editoras – hoje, em relação ao seu posto de trabalho, costuma-se dizer CEO, chief executive officer -, cabelos dourados, sorriso paralisante. Mulher independente e consciente da sua beleza e dos seus inúmeros atributos de sedução, Mariana acabou entrando na vida de Eli como um raio, inesperadamente e com consequências permanentes e insuperáveis.

Antes da noite do jantar por júbilo a Almas Universais, Eli e Mariana se viram em Nova Iorque e Buenos Aires, em reuniões de negócios, no ano anterior. Fazia mais de seis meses que não se encontravam pessoalmente, mantendo somente contatos virtuais.

Eli era fascinado por Mariana, cujo conjunto de qualidades – das físicas e aparentes às espirituais e essenciais – enlouquecia o jovem sociólogo que jamais exerceu a profissão. Num de seus bate-papos virtuais, resolveram se provocar sexualmente com o auxílio de imagens transmitidas por minicâmaras. O sexo virtual rendeu a Eli semanas de devaneios e muita dificuldade de concentração no trabalho. Para Mariana, restou a certeza de que encontrara um sujeito além de todas as expectativas.

O salão estava tomado por celebridades, escritores best sellers, autoridades políticas, empresários do entretenimento, roteiristas, atores e atrizes que interpretaram no teatro, no cinema e na TV peças, filmes ou especiais adaptados da obra de Dario Rossi. Letícia Sabatella, que imortalizou a rebelde Chiara de Almas Universais no cinema, numa coprodução Brasil-Itália dirigida por Ettore Scola, era, provavelmente, a sensação dos holofotes da imprensa. Alessandra Negrini e Wagner Moura, que viveram na novela Beijos Latinos (título homônimo ao romance de Dario Rossi publicado na década de 1960), exibida no horário das nove pela emissora campeã de audiência durante quase dois anos, o casal Monica e Federico também eram assediados sem trégua por repórteres, jornalistas e publicitários interessados em estrelas para seus produtos e novidades.

Paradoxalmente, operários e camponeses, protagonistas em tudo que escreveu Dario Rossi, não tinham lugar nem representantes no iluminado jantar.

Enquanto saboreavam seus belos e apetitosos pratos e se deleitavam ao sabor de vinhos e espumantes de primeiríssima classe, os convidados viam pelo telão trechos selecionados da obra de Dario Rossi levada para o cinema e a TV e ouviam depoimentos de escritores badalados e respeitados sobre seus livros, principalmente Almas Universais.

O comunicado sobre o lançamento da edição centenária foi feito por Eli, muito emocionado e feliz. A nova edição teria acabamento editorial luxuosíssimo e uma pequena tiragem de mil exemplares destinada a fãs abastados, colorida, em papel especial, ilustrada por imagens dos mais importantes fotógrafos do mundo, tudo isso a uma bagatela de dois mil reais cada exemplar. Enfim, histórias de um mundo escritas pelo capital, não pelos escritores de carne, osso e alma universal. Eli sabia que nada daquilo deixaria seu bisavô contente. Nada.

Eli, na verdade, não sabia ao certo por que aceitara a proposta de um jantar naqueles moldes. Não queria nem precisava impressionar ninguém; não era por dinheiro; não era de jeito algum pelos microfones, câmeras e luzes da imprensa (Eli preferia o anonimato e Dario Rossi dispensava apresentações em todo o globo); não era por exigência da família... A proposta partiu da editora, que sabia dos lucros angariados com a obra do sardo e, provavelmente, ignorava o desnecessário rito dispendioso daquela noite. Eli apenas não soube ou não quis dizer não.

Mariana, contudo, estava lá. Estaria de qualquer maneira, linda como sempre, apaixonada e disposta a ter momentos incríveis com Eli antes, durante e depois do jantar. Para ela, a grande festa era Eli e tudo que ele significava em sua vida: decência, inteligência, tesão... Eli e Mariana caberiam tranquilamente no rol das personagens imortais de Dario Rossi, como um casal estonteante e fora dos padrões. Em Almas Universais todos os amores eram deliciosamente anarquistas, valentes e destemperados, assim como cada encontro entre Eli e Mariana, não importando quando nem onde.

Após a sobremesa, um vistoso chandelle branco coberto por um afrodisíaco licor de tâmaras, Eli tirou Mariana para dançar. No saguão do clube italiano escolhido como palco do jantar em reverência a Almas Universais e seu autor, Dario Rossi, ecoavam canções do álbum acústico do guitarrista britânico Peter Frampton. Ainda no primeiro minuto de Show me the way, Eli e Mariana se beijaram demorada e profundamente. Aos acordes finais de Baby, I love your way, decidiram continuar a noite no apartamento dele, uma cobertura da qual se podia avistar panoramicamente toda a cidade.

Convencidos de que a mistura de voz e violão tocando músicas que marcaram suas histórias era a grande pedida da noite, Eli e Mariana optaram por mais uma taça de vinho ao som de Starkers in Tokyo, um álbum de David Coverdale e Adrian Vandenberg lançado em 1997.

A programação das faixas feita por Eli foi certeira: enquanto executavam The Deeper The Love, Coverdale e Vandenberg inspiravam Eli e Mariana a se despirem. O lindo vestido vermelho-grená de Mariana foi ao chão depois de dois toques sutis nas alças. Eli tirou a gravata, desabotoou e retirou a camisa, desfivelou o cinto, abaixou o fecho da calça e a pôs rapidamente ao chão também. De calcinha branca com rendas artesanais, comprada numa feira popular em Paramaribo, no Suriname, Mariana ajoelhou-se, sorriu com gosto e abocanhou o pau de Eli, que indicava estar à espera do que houvesse de melhor no mundo. Mariana sabia do que Eli gostava e, principalmente, do que o punha em órbita. Chupou-o com força e cadência, sem pressa alguma, desejosa de uma noite de longas horas e demoradas paixões. Em pé, com as mãos na nuca de Mariana, Eli sentia o movimento da boca de sua amada, ao som de Give Me All You Love. Em instantes, puxou-a e a beijou só com os lábios, ternamente. Beijou-lhe o pescoço, os seios, a barriga, todo o corpo. Ateve-se, então, ao elixir: com suavidade, meteu-se com a língua na buceta de Mariana, nua, totalmente sem pelos. Ali permaneceu por vários minutos, intercalando lambidas delicadas e chupadas convincentes. No toca-CDs, Is This Love se espalhava pela casa quando, excitadíssimo, Eli penetrou Mariana, que não conteve um gemido de grande satisfação. Sobre o sofá, fitavam-se de olhos bem abertos e corações disparados.

Eli repetia em voz baixa, ciente de que Mariana o ouvia e ficava com mais tesão a cada segundo: “Buceta boa, buceta boa!” Eli se deitou e se fez, então, domínio de Mariana, que cavalgava furiosamente sobre seu pau. Era irradiante a beleza da imagem da buceta de Mariana entrando e saído do pau de Eli, o qual, àquela altura, parecia querer explodir de tão grande e inchado. Too Many Tears embalava a magia do casal.

Controlando os batimentos cardíacos e segurando o gozo com impressionante mestria, Eli colocou Mariana de bruços e, com os braços em riste acima dos ombros dela, como se estivesse a fazer flexões, comeu-a do jeito que mais adorava num ritmo nem veloz, nem lento – correto, firme, penetrante. Coverdale e Vanderberg embalavam os dois com Here I Go Again.

Eli gozou na buceta de Mariana, depois de sentir que ela já havia gozado algumas vezes. Gemeram e deram alguns gritos juntos. Era impressionante a sintonia fina entre eles. Soldier Of Fortune encerrava o espetáculo no instante em que Eli e Mariana se beijavam exaustos e felizes.

O celular dos dois não parou de tocar enquanto se amavam. É provável que queriam saber, lá no jantar, onde estava o casal que sumira durante o baile. Toda vez que estava com Mariana, Eli certamente homenageava a memória de seu bisavô. De tudo que havia acontecido naquela noite, só o amor era algo que fazia jus aos escritos de Dario Rossi.