15 junho 2016

O nosso sonho de Luiza


Luiza Erundina foi a prefeita de São Paulo durante meus últimos anos na capital paulista. Lembro-me do preconceito contra ela por ser mulher, nordestina e do Partido dos Trabalhadores. Ouvi barbaridades de familiares, dos pais dos meus colegas de escola e da vizinhança; vi nos adesivos nos vidros dos automóveis da classe média paulistana dizeres com todos os absurdos. Um deles, no ano das eleições presidenciais de 1989, me é inesquecível: "Lula lá, Erundina aqui e nós ó”. O adorno estava numa dessas até hoje cobiçadas e gigantescas pickups, tipo 4 x 4, sei lá mais o quê.

De minha parte, recordo uma prefeita humana e sensível, que viu e ouviu a periferia, que nomeou Paulo Freire seu secretário da educação, que ergueu e manteve hasteadas as bandeiras da luta contra a desigualdade e as injustiças.

Erundina me encaminhou politicamente na vida. Descobri-me de esquerda, permiti-me sonhar, não obstante as adversidades crescentes e os horizontes nebulosos. Percebi que deveria ser professor, ir para a universidade, estudar Ciências Sociais. Às avessas, o tratamento covarde do conservadorismo dispensado a Erundina e a tudo que ela representava historicamente (ascensão social dos mais pobres, educação livre e emancipatória, democracia de fato, gestão pública orientada pela defesa de ideais progressistas etc.) me induziu às reflexões que mantenho vivas comigo a respeito das questões de classe, suas contradições e sinuosidades. Erundina, de alguma maneira, foi meu primeiro momento de liberdade e conscientização. Graças a ela, me dei conta do tipo de sujeito que queria e podia ser.

Cheguei a Londrina em 1992, no ano em que os eleitores de São Paulo resolveram ressuscitar Paulo Maluf e consagrá-lo prefeito de São Paulo, em sucessão a Luiza Erundina. Entendi, então, que a história não tem sentido único e vive também de retrocessos e lástimas inusitadas.  Acho que escapei de uma boa enrascada ao migrar para o norte do Paraná.. À época, nem me passava pela cabeça que renovadas mentalidades fascistas já estavam em gestação no país. Para mim, um jovem da geração 80 – um “maior abandonado” -, nada que tivesse alguma relação com os nada dóceis anos da ditadura civil-militar (1964-1985) poderia uma vez mais fazer sentido ou tivesse chance de vingar. Hoje, reconheço minha enorme ingenuidade. Sou obrigado a admitir, contudo, que ela foi ingrediente essencial na minha formação e na elaboração dos mapas da minha vida.

Erundina ainda tentou ser prefeita de São Paulo outras vezes. Renegada pelo seu partido (o que já era sinal de que o PT era bem pouco socialista e muito utilitarista), tornou-se símbolo de coerência e decência, artigos de luxo pouquíssimo apreciados no grosseiro e mercantilizado mundo das eleições no Brasil. 

Luiza Erundina é deputada federal por São Paulo e se filiou recentemente ao PSOL, posicionando-se ao lado de gente que admiro muito, como Marcelo Freixo, Chico Alencar, Jean Wyllys e Ivan Valente. Soube que será candidata à chefia da prefeitura de São Paulo agora em 2016, apostando na ideia (correta) de que os sonhos não envelhecem. 

Estou com Erundina, para o que der e vier. Há um componente simbólico poderoso na sua luta política nestes tempos de tantos anacronismos. Sobrevivem, com Erundina, as resistências contra o ódio e as insistências em nome e em favor de mais amor.

Como lá atrás, em 1988, vou “erundinizar” o que há de bom. É, no mínimo, pura gratidão.