28 julho 2016

Paulo Silva e a cidade da esperança


Não conheço pessoalmente Paulo Silva, o jovem estudante de Psicologia que o PSOL lançou como candidato a prefeito de Londrina. Confesso que sou um militante nada assíduo e relapso. Frequento pouco a sede do partido, por conta das exigências de trabalho na universidade e de minhas disposições utópicas em relação à literatura, o que me inclina à solidão e a uma vida entre livros e ideias. Ainda assim, estou convencido de que o PSOL é a mais interessante e rica alternativa à esquerda no espectro partidário brasileiro. Dentro de meus limites, atuo como suposto intelectual orgânico da agremiação com voluntarismo e paixão.

Sei que Paulo Silva é jovem e não tem medo de erguer bandeiras que atemorizam o senso comum e o viés notadamente conservador de boa parte da sociedade londrinense. Nos últimos dias, o candidato do PSOL foi vítima de agressões inadmissíveis numa sociedade democrática pela internet, praticadas por pessoas que se consideram impunes e representantes daquilo que julgam ser a "moral social". Trata-se, na verdade, de gente criminosa, disposta a gritar e depois se esconder nos labirintos da rede mundial de computadores. Mais do que perigosas, são covardes e inaptas ao debate público, posto que seu único qualificativo é o vazio do pensamento.

Paulo Silva é simbolicamente um candidato à altura do momento histórico que vive o país. Desde junho de 2013, quando muitas jornadas populares saíram às ruas reivindicando novos caminhos políticos e novas formas de organização social e cultural, os jovens estudantes brasileiros vêm protagonizando no espaço público a revitalização da utopia, o reacender dos sonhos por uma nação livre e justa, fraterna e decente. As ocupações nas escolas denunciando os ataques sistemáticos contra a educação pública; a solidariedade aos movimentos grevistas e de trabalhadores sem teto e sem terra; a coragem na defesa de temas essenciais ao processo social educativo, como a questão de gênero e a laicidade dos ornamentos estatais; a luta contra raízes crueis de nossa sociabilidade, como o racismo, o machismo e a homofobia; tudo isso tem na candidatura de Paulo Silva a prefeito de Londrina espelho e estrada, reflexo e caminho, palavra e ação.

Paulo Silva com sua camiseta batida, sua barba por fazer, sua morada na periferia, sua obstinação em frequentar uma grande universidade e enfrentar a difícil inserção em campos de trabalho dos quais os filhos das velhas elites da cidade se sentem donos, para dizer o mínimo, é o candidato que anuncia como nenhum outro a primavera londrinense.

Não tenho voz na mídia da cidade e não tenho espaço como cronista nos jornalões. O que posso é me manifestar de forma livre e independente, ciente de a verdade estar a bombardear meu coração e minha mente. Assim, declaro meu apoio, minha militância política cotidiana e meu voto a Paulo Silva, que espero poder conhecer pessoalmente em breve. Se houver conspirações de esquerda entre os astros celestiais, iremos nos conhecer em sua posse, no dia em que Londrina olhar para frente e tiver coragem de estender sua mão ao amanhã.

26 julho 2016

Amor platônico


Amor a distância, quase sempre idealizado e silencioso. Inevitavelmente, um sentimento casto. É assim que o amor platônico é definido em prosa e verso. Uma utopia das sensações, um desejo que, de tão improvável ou proibido, resiste escondido nos labirintos da alma e nas transgressões solitárias do corpo.

Penso, por exemplo, no amor adolescente pelas meninas mais lindas e inalcançáveis que conheci nos tempos de escola; nas musas do mundo das celebridades efêmeras que marcaram minha juventude nas décadas de 80 e 90; nas estrelas do cinema estadunidense e nas divas da música e da literatura que povoaram minha mente de escritor romântico; nas antidivas da indústria pornográfica que me contaminaram de desilusão; nas protagonistas dos selfies mais non sense das redes sociais. Penso, portanto, naquilo que esteve e nunca esteve ao meu alcance. Percebo-me, então, um amante de amor nenhum.

O amor platônico também se instala em mim após a leitura de um bom livro, de um belo poema, de uma história que consiga reunir biografias e realidades, promovendo sensações maiores e complexas de pura excitação. Inconfessáveis, os amores platônicos. Pertencem ao eu e só se perdem em algum ponto do mundo com a permissão da imaginação.

Tive, enfim, inúmeros amores platônicos. A maioria deles eu conservei por tempo demais. Como nunca fui nenhum galã de novela global e ainda era visto como exemplar perfeito de nerd na adolescência (com direito a ser visto por alguns, equivocadamente, como intelectual depois de adulto), as beldades todas a quem dediquei prantos e profundos sentimentos abstratos jamais me deram bola. No limite, consegui ser um zagueiro meio desajeitado – raçudo, é verdade! -, daqueles que, vez por outra, vão para a área do adversário para tentar marcar um gol de cabeça após a cobrança de um escanteio. Fiz alguns gols. Alguns, aliás, bem bonitos. Mas nunca estive entre artilheiros e atacantes badalados. A realidade, é preciso dizer, me confinou ao campo de defesa, à proteção do pouco que tinha a perder. E acabei fazendo meu melhor. Só.

Bem mais tarde, um quarentão, notei que amei desesperadamente toda promessa de deslocamento do meu mundo, de redenção, de algum tipo de justiça tardia. Foi quando também me apercebi de quanto meus amores platônicos, além de potentes ilusões, eram meu mais ingênuo e doloroso autoengano.

Desnudado o amor platônico, saí em busca de mim. Tive, sim, recaídas, elegi novos “alvos” para a redenção diante de dias de tristeza, solidão e ansiedade, mas mantive o espírito resoluto no tocante à máxima do conhecer-me a mim mesmo. Lembro que meus últimos amores platônicos estiveram bem perto de se tornar reais (ou tinham muito potencial para tanto, se eu insistisse). Ao me dar conta de que os distintos mundos da imaginação e da fatídica veleidade dos fatos se aproximavam mais e mais a cada eleição de um novo amor inconfesso e silencioso, dei-me por mim e me flagrei prestes a encarar o desatino irreversível. Os mapas da minha alma estavam sendo interpretados corretamente, mais de quatro décadas depois de o mundo ter tido o desplante de me receber em seus domínios. Como diriam nossos sábios avós, antes tarde do que nunca.

Hoje – e me refiro ao dia que nasceu depois de ontem à noite – coleciono amores recíprocos, amores em sintonia. Amo os livros que leio, os lugares que frequento, o trabalho que realizo, as pessoas que beijo, abraço e às quais dedico tudo que há de bom e verdadeiro em mim. Protejo-as do meu lado obtuso – com isso, protejo-me também.

Haverá sempre ditosas doses de utopia na minha palavra e na minha ação, fato que revela haver amores ainda por realizar, sentimentos a nutrir. A conversão de amores platônicos intransferíveis e alucinantes em utopias que motivam ideias e passos, contudo, devolveu-me à vida, àquilo que o velho Marx chamava de síntese de muitas determinações, unidade no diverso

Passei a amar possibilidades, aspirações, frutos de pequenas conquistas, uma atitude que me ensinou a valorizar a mim mesmo como sujeito e artífice do mundo. Aprendi, enfim, a amar a existência como um movimento, aberto à novidade, disposto a condecorar tudo que posso ser e pelo que luto. Estou, na prática, conhecendo a mim mesmo.

08 julho 2016

Um marxista (meio) pós-moderno


Olhar em redor de si é um vício dos mais perigosos. Corre-se sempre o risco de ter de encarar grandes descobertas, fatos reveladores. Aquele que observa atentamente o mundo é vulnerável e está a toda hora por um triz. A ameaça mais poderosa é a de capturar a si mesmo, confrontando anjos e demônios que convivem de forma aparentemente silenciosa dentro do peito.

Mais do que me audeclarar ou imputar, tornei-me marxista. O velho e bom barbudo, mais indispensável do que nunca, é ainda hoje meu interlocutor predileto. Com ele dialogo sobre as desventuras do capital e a tendência crescente de tudo virar coisa, inclusive os humanos e suas ideias.

O autor de A ideologia alemã insiste no desafio de não me permitir esquecer que o mundo não é um mar de rosas, os indivíduos (mesmo seus declarados e eufóricos seguidores) não são bonzinhos nem perfeitos e os sonhos - até os mais floridos e bem-intencionados - nem sempre acabam bem quando se materializam. Diante da realidade, de sujeitos e aspirações complexas e às vezes hostis, a utopia se desgarra da liberdade, amordaça a igualdade e torna frágil a fraternidade. Apesar de tudo isso, a utopia é o que temos de melhor - a matéria-prima daquilo que resta de verdadeiramente humano em nós.

Por causa dessas revelações inevitáveis a quem não teme olhar em redor e dentro de si, tornei-me um marxista acústico, (meio) pós-moderno, aberto a diálogos com outros atores e novas ideias. Nem por isso, fiz-me eclético ou herético: minhas referências, no dissenso, são todas crias da beleza utópica, amantes da fé inspiradora num mundo diferente e melhor, posto que entusiastas de que nós, humanos incompletos, podemos ser diferentes e melhores também e antes de tudo.

Acredito que me tornei marxista para fazer amigos e ouvir o que têm a dizer outros sujeitos, noutros cenários, sob mantos de variadas cosmovisões. Foram Antonio Gramsci e Walter Benjamin que me convenceram disso. Devo-lhes quem sou. Eternamente.

Carrego comigo uma lição decisiva de mestre Leandro Konder - Deus, que saudade! -, segundo a qual o real é inesgotavelmente maior que a capacidade humana de apreendê-lo. O real, enfim, é um desafio permanente. Se há alguma chance de enfrentá-lo e vencê-lo (parcial e temporariamente, é claro), ela está na negação da desistência, na afirmação da resistência, no gosto pela autossuperação por meio de ideias generosas e práticas solidárias. Inesgotável e em desdobramentos sucessivos, o real é impiedoso, impactante e exigente, mas não é invencível, não está dado como inevitabilidade para ninguém, em nenhum lugar.

Tornei-me marxista, portanto, para encarar o real e a mim mesmo, em busca de um universo e de um sujeito mais pertinentes, abrangentes e avançados. Entre mim e o sonho, reina a realidade, dura e às vezes implacável. Humanizá-la depende do processo de humanização de mim mesmo. Desse esforço que parte da minha ação subjetiva e a mim retorna na condição de lições e exigências pode vingar as chances da mudança. Aprendendo essas coisas e delas me convencendo, tornei-me marxista. Quer dizer, torno-me marxista cotidianamente, em intermináveis reinvenções.