26 julho 2016

Amor platônico


Amor a distância, quase sempre idealizado e silencioso. Inevitavelmente, um sentimento casto. É assim que o amor platônico é definido em prosa e verso. Uma utopia das sensações, um desejo que, de tão improvável ou proibido, resiste escondido nos labirintos da alma e nas transgressões solitárias do corpo.

Penso, por exemplo, no amor adolescente pelas meninas mais lindas e inalcançáveis que conheci nos tempos de escola; nas musas do mundo das celebridades efêmeras que marcaram minha juventude nas décadas de 80 e 90; nas estrelas do cinema estadunidense e nas divas da música e da literatura que povoaram minha mente de escritor romântico; nas antidivas da indústria pornográfica que me contaminaram de desilusão; nas protagonistas dos selfies mais non sense das redes sociais. Penso, portanto, naquilo que esteve e nunca esteve ao meu alcance. Percebo-me, então, um amante de amor nenhum.

O amor platônico também se instala em mim após a leitura de um bom livro, de um belo poema, de uma história que consiga reunir biografias e realidades, promovendo sensações maiores e complexas de pura excitação. Inconfessáveis, os amores platônicos. Pertencem ao eu e só se perdem em algum ponto do mundo com a permissão da imaginação.

Tive, enfim, inúmeros amores platônicos. A maioria deles eu conservei por tempo demais. Como nunca fui nenhum galã de novela global e ainda era visto como exemplar perfeito de nerd na adolescência (com direito a ser visto por alguns, equivocadamente, como intelectual depois de adulto), as beldades todas a quem dediquei prantos e profundos sentimentos abstratos jamais me deram bola. No limite, consegui ser um zagueiro meio desajeitado – raçudo, é verdade! -, daqueles que, vez por outra, vão para a área do adversário para tentar marcar um gol de cabeça após a cobrança de um escanteio. Fiz alguns gols. Alguns, aliás, bem bonitos. Mas nunca estive entre artilheiros e atacantes badalados. A realidade, é preciso dizer, me confinou ao campo de defesa, à proteção do pouco que tinha a perder. E acabei fazendo meu melhor. Só.

Bem mais tarde, um quarentão, notei que amei desesperadamente toda promessa de deslocamento do meu mundo, de redenção, de algum tipo de justiça tardia. Foi quando também me apercebi de quanto meus amores platônicos, além de potentes ilusões, eram meu mais ingênuo e doloroso autoengano.

Desnudado o amor platônico, saí em busca de mim. Tive, sim, recaídas, elegi novos “alvos” para a redenção diante de dias de tristeza, solidão e ansiedade, mas mantive o espírito resoluto no tocante à máxima do conhecer-me a mim mesmo. Lembro que meus últimos amores platônicos estiveram bem perto de se tornar reais (ou tinham muito potencial para tanto, se eu insistisse). Ao me dar conta de que os distintos mundos da imaginação e da fatídica veleidade dos fatos se aproximavam mais e mais a cada eleição de um novo amor inconfesso e silencioso, dei-me por mim e me flagrei prestes a encarar o desatino irreversível. Os mapas da minha alma estavam sendo interpretados corretamente, mais de quatro décadas depois de o mundo ter tido o desplante de me receber em seus domínios. Como diriam nossos sábios avós, antes tarde do que nunca.

Hoje – e me refiro ao dia que nasceu depois de ontem à noite – coleciono amores recíprocos, amores em sintonia. Amo os livros que leio, os lugares que frequento, o trabalho que realizo, as pessoas que beijo, abraço e às quais dedico tudo que há de bom e verdadeiro em mim. Protejo-as do meu lado obtuso – com isso, protejo-me também.

Haverá sempre ditosas doses de utopia na minha palavra e na minha ação, fato que revela haver amores ainda por realizar, sentimentos a nutrir. A conversão de amores platônicos intransferíveis e alucinantes em utopias que motivam ideias e passos, contudo, devolveu-me à vida, àquilo que o velho Marx chamava de síntese de muitas determinações, unidade no diverso

Passei a amar possibilidades, aspirações, frutos de pequenas conquistas, uma atitude que me ensinou a valorizar a mim mesmo como sujeito e artífice do mundo. Aprendi, enfim, a amar a existência como um movimento, aberto à novidade, disposto a condecorar tudo que posso ser e pelo que luto. Estou, na prática, conhecendo a mim mesmo.