08 julho 2016

Um marxista (meio) pós-moderno


Olhar em redor de si é um vício dos mais perigosos. Corre-se sempre o risco de ter de encarar grandes descobertas, fatos reveladores. Aquele que observa atentamente o mundo é vulnerável e está a toda hora por um triz. A ameaça mais poderosa é a de capturar a si mesmo, confrontando anjos e demônios que convivem de forma aparentemente silenciosa dentro do peito.

Mais do que me audeclarar ou imputar, tornei-me marxista. O velho e bom barbudo, mais indispensável do que nunca, é ainda hoje meu interlocutor predileto. Com ele dialogo sobre as desventuras do capital e a tendência crescente de tudo virar coisa, inclusive os humanos e suas ideias.

O autor de A ideologia alemã insiste no desafio de não me permitir esquecer que o mundo não é um mar de rosas, os indivíduos (mesmo seus declarados e eufóricos seguidores) não são bonzinhos nem perfeitos e os sonhos - até os mais floridos e bem-intencionados - nem sempre acabam bem quando se materializam. Diante da realidade, de sujeitos e aspirações complexas e às vezes hostis, a utopia se desgarra da liberdade, amordaça a igualdade e torna frágil a fraternidade. Apesar de tudo isso, a utopia é o que temos de melhor - a matéria-prima daquilo que resta de verdadeiramente humano em nós.

Por causa dessas revelações inevitáveis a quem não teme olhar em redor e dentro de si, tornei-me um marxista acústico, (meio) pós-moderno, aberto a diálogos com outros atores e novas ideias. Nem por isso, fiz-me eclético ou herético: minhas referências, no dissenso, são todas crias da beleza utópica, amantes da fé inspiradora num mundo diferente e melhor, posto que entusiastas de que nós, humanos incompletos, podemos ser diferentes e melhores também e antes de tudo.

Acredito que me tornei marxista para fazer amigos e ouvir o que têm a dizer outros sujeitos, noutros cenários, sob mantos de variadas cosmovisões. Foram Antonio Gramsci e Walter Benjamin que me convenceram disso. Devo-lhes quem sou. Eternamente.

Carrego comigo uma lição decisiva de mestre Leandro Konder - Deus, que saudade! -, segundo a qual o real é inesgotavelmente maior que a capacidade humana de apreendê-lo. O real, enfim, é um desafio permanente. Se há alguma chance de enfrentá-lo e vencê-lo (parcial e temporariamente, é claro), ela está na negação da desistência, na afirmação da resistência, no gosto pela autossuperação por meio de ideias generosas e práticas solidárias. Inesgotável e em desdobramentos sucessivos, o real é impiedoso, impactante e exigente, mas não é invencível, não está dado como inevitabilidade para ninguém, em nenhum lugar.

Tornei-me marxista, portanto, para encarar o real e a mim mesmo, em busca de um universo e de um sujeito mais pertinentes, abrangentes e avançados. Entre mim e o sonho, reina a realidade, dura e às vezes implacável. Humanizá-la depende do processo de humanização de mim mesmo. Desse esforço que parte da minha ação subjetiva e a mim retorna na condição de lições e exigências pode vingar as chances da mudança. Aprendendo essas coisas e delas me convencendo, tornei-me marxista. Quer dizer, torno-me marxista cotidianamente, em intermináveis reinvenções.