02 agosto 2016

A radicalidade do equilíbrio


Lembro que uns vinte e poucos anos atrás, quando ingressei na universidade para cursar ciências sociais, assumi como objetivo de vida a busca pelo equilíbrio, tanto no que diz respeito à vida do espírito quanto no que se refere às exigências da materialidade. À época causava-me alguma perplexidade o comportamento inconsequente e despropositado de muitos dos que me cercavam, dentro e fora da faculdade. E eu, decididamente, não queria aquilo para mim. Seduzia-me a ideia de independência, serenidade e paciência diante dos turbilhões do mundo. Flertavam comigo, portanto, as curvas do equilíbrio.

Hoje, em meio a tanto binarismo cognitivo, tanta incoerência entre pensamento e ação, tanto sectarismo e absurdas manifestações de ódio, desrespeito e pouco apreço à inteligência, vejo-me uma vez mais diante da necessidade de encontrar um consistente ponto de equilíbrio para a minha vida. De muitas maneiras, reconheço-me ainda o teen que sonhava mudar o mundo quando se viu estudante numa importante universidade pública do país.

Equilíbrio não significa nem pode significar uma postura de concessões sem critérios para evitar fadigas ou conquistar amigos artificialmente, dando ênfase à promoção de benefícios privados no espaço público. Equilíbrio, aliás, não prescinde de firmeza e radicalidade na defesa de princípios e valores. A questão, insisto, é que se faz urgente ampliar o campo do diálogo, revitalizando convicções e, ao mesmo tempo, reacendendo a esperança utópica.

Venho estudando há bom tempo as manifestações da utopia no tempo e no espaço, lendo autores visionários, obras de ficção científica, relatos e análises de experiências comunitárias e alternativas na história. A riqueza de críticas ao que era presente e a disposição de tantos espíritos humanos para erguer mundos novos, justos e potencializadores da felicidade são extraordinárias, enternecedoras. Exageradas ou realistas até demais, as utopias reclamam luz e política, planejamento e ação, força e poesia, enfim, clamam pela esperança.

Meu equilíbrio, em cuja busca me encontro em tempo integral, não dispensa a radicalidade tão cara à utopia, às manifestações daqueles que nunca aceitaram as coisas como naturais e jamais absorveram o discurso dos que afirmam ser a ordem existente a única possível e razoável. Aliás, razoabilidade e utopia são termos antitéticos.

O razoável é carente de utopia, vê exagero em tudo e tem medo de encarar os processos de mudança. No geral, é sujeito conformado e individualizado ao extremo – entende as massas como os liberais exaltados interpretam as lutas coletivas: irracionais e perigosas.

Por ser frio e indiferente a dor dos outros, o razoável não reconhece motivações para a utopia, acusando sonhadores de alienados. No fundo, o razoável é a caricatura mais fiel do pessimista, que anuncia trovoadas e desastres em belas e ensolaradas manhãs de domingo.

O indivíduo à cata de equilíbrio sabe e sente quão desequilibrada é a realidade pautada pelo capital e suas relações sociais orientadas para o mercado, para o comprar e vender tudo e todos. Ele não deseja equilibrar essa relação historicamente desigual e opressora; ele deseja sua superação e a promoção de um mundo equilibrado, em que todos possam ver e ser vistos, ouvir e ser ouvidos, no melhor sentido do espaço público arendtiano. O ser equilibrado, nesse sentido, é radical porque luta incansavelmente e é sereno porque se posiciona em convergência aos demais, fazendo da democracia uma ação concreta, e não apenas um apelo discursivo vazio e oportunista.

O equilíbrio, nesses termos, só pode ser busca incessante, posto que é condição do movimento da vida. Encontrar o equilíbrio, portanto, é, acima de tudo, assumir um estilo de vida, um jeito de ser e estar no mundo, avesso a simplificações, amante da complexidade, militante do juízo crítico e em favor da inteligência pluralista e diversa, a qual bebe em muitas fontes.

Assim, o equilíbrio é uma (des)construção de si, uma luta implacável contra demônios internos e externos, uma viagem para entender o mundo e os labirintos da alma.