15 setembro 2016

Hegel Sci-Fi


"Tudo que é real é racional.
Tudo que é racional é real."
(G.W.F. Hegel)

Os sindicatos serão proibidos. O mundo do trabalho sofrerá colapsos contínuos. O cenário urbano será meio Mad Max, meio Blade Runner. Quem resistir será duramente reprimido e criminalizado. Mais do que nunca, o Estado será policial. O parlamento se converterá num ventríloquo de sete cabeças. O judiciário não passará de um dócil criado. Intelectuais de esquerda serão presos ou forçados ao exílio. O amor será vigiado. O futuro terá de passar em revista diariamente e só poderá dar o ar da graça acompanhado de velhos parentes do século XIX. 

Não haverá batuques. A cor vermelha será banida. Nas escolas, cartilhas produzidas por amigos do tirano e pelos bobos da corte serão o único material didático concedido aos professores. Às segundas e sextas-feiras, no início e no fim de cada semana letiva, a Bíblia será lida em sala de aula (apenas lida, jamais debatida), tarefa devidamente supervisionada pelos exploradores da fé alheia alçados à condição de conselheiros vitalícios da pátria. 

Praças serão completamente interditadas. O único lazer permitido e bastante incentivado será no shopping center. Para tudo será exigido dinheiro: saúde, educação, diversão, beleza e, principalmente, paz. Grátis só haverá a dor, amplamente distribuída. Serão cassados os direitos de sonhar e lutar. Toda indignação será castigada. Toda paixão pela vida será ridicularizada. Crianças terão de trabalhar de sol a sol. Negros, índios, mulheres e gays terão o direito único a permanecer calados – o que disserem será utilizado contra eles nos tribunais permanentes de exceção. 

Diante do mar serão erguidas barreiras de contenção. A felicidade será proscrita. Descanso, nunca mais. Sorrisos, só diante dos donos do poder. O poder, aliás, nunca mais emanará do povo e em seu nome jamais será exercido. 

O povo, por fim, será só lembrança – o mundo será habitado exclusivamente pela saudade.