11 outubro 2016

Há tanta vida lá fora


Nas últimas semanas, o país tem vivido o que muita gente chama de um "grande auê". Medidas provisórias escandalosas, PECs criminosas, jantares ostentosos nos bastidores do poder, insistente e até comovente esforço midiático para justificar o inolvidável, subserviência jurídica de praxe, empresariado com todas as asinhas de fora na militância pela invasão da política pelo capital, etc. Se visto com rigor, o cenário revela histórias corriqueiras de nosso país.

O velho Barão de Itararé dizia, em uma de suas máximas mais geniais, que o sujeito que se vende sempre recebe mais do que merece. Ora, é só contar o número de apoiadores do atual e ilegítimo governo federal no Congresso Nacional - a maior parte deles compunha a antiga base venal dos governos do PT - para entender o que queria dizer o nosso humorista da democracia. Não se trata de apoio a ideias e valores, projetos e interpretações do Brasil. A questão é mais simples: o que se ganha individualmente e em nossos nichos eleitorais com um apoio cego às desmedidas de articulação entre o capital e a política institucional? Nos subterrâneos dessa questão, uma certeza: o Brasil precisa continuar a ser de poucos, na teoria e na prática.

Do lado de cá, na trincheira dos que sonham, resistem e lutam, é urgente construir alternativas. É trivial que as estratégias políticas da esquerda e dos movimentos sociais tornaram-se previsíveis. No limite, fazemos, como dizia Darcy Ribeiro, aquilo que a direita quer que façamos - e nos desgastamos, nos pulverizamos e, no fim e ao cabo, acumulamos derrotas e tristeza. Para aliviar a dor, culpamo-nos uns aos outros e voltamos, cada qual, ao nosso mundo de fantasias e aspirações utópicas, sem força nem coragem para pensar projetos de mudanças efetivas. Já disse e repito: colecionar palavras de orden e soltá-las ao vento para angariar aplausos daqueles que já pensam como nós é, no mínimo, pouco inteligente.

A luta continua porque nunca parou nem pode ser encerrada. A história nunca será um grande consenso, mas também jamais produzirá hegemonias totais. É no "quase" de todas as tentativas de construção da hegemonia que as lutas têm de se inserir. Um cantor já disse que há tanta vida lá fora... Hora de visitá-la.