14 novembro 2016

Eu não sou filho da UEL

Foto: Celio Costa

Para um bom início de conversa, vale dizer que filho eu sou da dona Edna e do seu Osmar. De minha mãe, de forma irretocável, recebo até hoje carinho e bençãos. Com meu pai, que hoje mora no céu, tive a alegria de partilhar muitas emoções, os louros na vida.

Da UEL, com orgulho, eu sou o que se convencionou chamar prata da casa. Lá estudei, lá sou professor. Nos últimos vinte e poucos anos, desde que começou nossa história comum, levo seu nome aonde quer que eu vá. Encho o peito de satisfação para dizer que sou formado na UEL. Lembro como se fosse ontem a queda de lágrimas do meu pai ao ouvir meu nome sendo pronunciado na UEL FM, durante a divulgação dos aprovados no vestibular, no verão de 1994. Quis o destino que eu não flagrasse seus olhos marejados ao me ver nomeado professor, exatos vinte anos mais tarde. Ainda assim, ele me protege, lançando sobre mim paz e pistas para o discernimento, do bom lugar em que, tenho certeza, está.

Assim, a relação entre pais e filhos é única e intransferível. Para cada uma de suas fases, distintos interesses se sobrepõem, tornando a afetividade algo muito subjetivo e instável. Os pais ora são heróis, ora são caretas, ora são um banco de crédito supostamente ilimitado, ora são os melhores amigos, ora são a autoridade que precisa ser exercida em nome da proteção física e espiritual da prole. Em todos os momentos, contudo, pais e filhos estabelecem códigos renovados de relacionamento, enfatizando que precisam construir sua independência e não podem abrir mão de segredos que se acumulam ao longo do tempo. Trata-se de uma ligação, portanto, estreita, privada, romântica e volúvel, que só se entende dentro dos limites da vida familiar.

Eu não sou filho da UEL. O que há entre nós ultrapassa os muros da contenda doméstica e não tem nenhum grau de instabilidade. Não me aproprio da UEL de acordo com as conveniências das etapas diferentes da minha trajetória. O que sinto por ela, o que faço em seu nome, o que recebo dela, tudo é único, público, um gesto permanente de cumplicidade.

É isto, sou cúmplice da UEL. Ao seu lado, solidarizo-me com todos aqueles que a querem bem pelos próximos vinte anos, e não apenas almejam seus gracejos ao término de cada período letivo. Não me reportarei a UEL somente quando precisar dela, quando sua excelência me prometer prêmios ou acessos particulares. Não. Recorro a ela todo dia, abraço-a, carrego-a no peito, na raça, em cada sonho que alimento sobre a cidade, o país e o mundo. Nossa cumplicidade não é a do tipo cego, subserviente e medroso, como aquelas que acobertam erros e ações criminosas. O que temos em nossa união é um pacto em nome de um ideal generoso de educação pública, de espaço da diversidade, de campo de luta em favor dos trabalhadores. A UEL e eu somos cúmplices numa paixão crescente e desinteressada pela liberdade.

Nossa paixão inegociável apoia os estudantes que abrem mão de interesses mimados e individualistas (típicos de filhos malcriados), que não veem os pais como financiadores de seu dilatado ego e ocupam, pois, os espaços do campus de forma corajosa e a incitar um debate oportuno sobre a frágil democracia que nos assola. A paixão da cumplicidade é explosiva e não aceita menos do que o melhor dos mundos. 

A UEL e os estudantes que resistem contra as afirmações políticas do retrocesso e do autoritarismo são cúmplices na paixão pela vida, pelo futuro dos que ainda estão por vir. Em casa, os acadêmicos da UEL têm aqueles que os criam e lhes dão carinho e proteção. No mundo público, temos bandeiras e vocações, sonhos e muita, muita luta. Somos cúmplices da história.