12 novembro 2016

Matei minhas musas (2)

Ruth, a pin-up

Eu já havia matado minhas musas,
embora a memória de algumas delas
tenha se convertido em fantasmas
dentro de mim.

Eu precisava ter coragem
de expulsá-las
da mansão assombrada
em que meu coração
se transformou.

Como ter paz de espírito?
Como olhar para frente
sem sentir medo
daquilo que me segue
feito sombra?
Como, enfim, sentir-me
livre e de fato
capaz de crescer,
ser e viver?

As alternativas possíveis
eram todas muito radicais:
clausura, repressão,
autopiedade, prazer solitário.
Todos os acenos me causavam
espanto e dor,
tristeza e desesperança.

Resolvi, então,
combater
fantasmas com luz,
enfrentar
a escuridão com ideias,
clarear
a estrada com sonhos.

Desfiz-me de ilusões e percebi
que o maior prazer é vislumbrar
o horizonte e saber-me digno
dos meus sonhos mais elevados.

Quando me dei conta
de que o mundo ainda estava
disponível e de braços abertos,
matei todos os fantasmas
de minhas musas.
Todos.

Solitárias serão elas,
sem nenhum pedaço de mim.