31 dezembro 2016

Caracóis


Passei dias
pensando em versos
que coubessem
neste tempo
tão avesso
a poesias,
tão bruto
com as palavras.

Instante após instante
inundava-me o vazio:
nada me visitava,
pouco me acenava,
um sentimento
desolador
tomava conta de mim.

Nem mesmo
de olhos fechados,
quando penso
nela toda,
toda minha,
me fazendo feliz,
algo me vinha
à cabeça,
ao coração.

A morena
dos cabelos
encaracolados
tentou então
me dizer algo.

Acordei,
percebi que
estava num
imenso sonho...

Os tempos difíceis
irão acabar...
Será que
os cabelos
de caracóis
virão?

Sigo pensando,
só não sei se
estou dormindo
ou permaneço
acordado.

30 dezembro 2016

Amigos prováveis


Desestabiliza-me o tempo presente. Durmo e acordo tentando entender o que está acontecendo e quais eventos nos trouxeram com tanto ardor a esse abismo sob a ponta dos pés.

Preferencialmente, reflito sobre tudo isso dormindo.

Noite passada, sonhei com Walter Benjamin. Em lugar desconhecido (pela paisagem urbana, arrisco-me a dizer que vivíamos em algum ponto à margem do Mediterrâneo), a década era a de 1960. Benjamin morrera antes. Eu nasceria um pouco mais tarde. Como nos sonhos tudo é possível, encontramo-nos entre a morte e a vida, desenvolvendo uma cumplicidade que me fez mergulhar em sono profundo por mais de oito horas.

Benjamin e eu éramos adolescentes (outra artimanha do universo onírico). Acreditávamos, pois, que mudaríamos o mundo. Ouvíamos rock – um estilo que o Benjamin histórico não pôde conhecer – e brindávamos os dias escrevendo poesias, crônicas, contos e aforismos. Éramos metidos a besta.

Conversávamos sobre os acontecimentos políticos e culturais daqueles anos efervescentes e gloriosos. O decênio de 1960 quebrou tabus e dividiu tudo em duas partes mais ou menos iguais: uma, dos sonhadores incansáveis; outra, dos que se negavam a aprender com a imaginação e a potência dos devaneios utópicos. Ingênuos, jurávamos que o grupo dos primeiros era infinitamente maior e mais influente...

Benjamin, aquele que desapareceu em 1940, foi vencido pelos avós desses seres que não sabem sonhar. Eu, que vim ao mundo nos 70, sinto-me derrotado pelos seus netos. No sonho (no meu sonho), insistíamos na autocrítica e buscávamos uma maneira de escrever o futuro, o meu e o dele.

Quando acordei, olhei para a minha mesa de trabalho e vi os textos de Benjamin à minha espera, como de praxe. Foi só um sonho?

28 dezembro 2016

2017, uma odisseia no mundo


Quase todo fim de ano escrevo um breve texto sobre minhas expectativas em relação ao ano seguinte. A fórmula não é nem um pouco exclusiva: faço votos de paz, amor, inspiração e, principalmente, evolução humana. No curso do ano novo, invariavelmente, percebo que meus escritos do ocaso eram muito otimistas, excessivamente românticos.

Não acredito que haja mudança substantiva fora das pessoas. Mesmo as mais impositivas realidades objetivas carecem de acomodações n'alma, aceitação nas ideias já elaboradas e cristalizadas, consentimento entre pares e ímpares. O homem novo, como quis boa parte da tradição revolucionária do século XX, não será fabricado fora do mundo nem à revelia das consciências existentes. Isso, para mim, é pacífico.

É óbvio que não vou desistir de meus clássicos votos: que em 2017, a crise nacional e internacional não afete nossa disposição para a luta, não bloqueie nossa criatividade, não impeça nossa paixão torrencial pela vida. Mais do que isso: que o Fluminense seja campeão; que o Pearl Jam lance um álbum novo; que meu livro de Sociologia escrito com o Prof. Nelson Tomazi venda milhões de exemplares; que meu livro de crônicas - a ser lançado em janeiro com o título Coração de Benjamin - seja lido nas escolas, nos saraus e nos almoços de domingo; que o Luiz Alfredo Garcia-Roza publique mais um romance policial protagonizado pelo Detetive Espinosa; que o marxismo continue firme na condução de sua velha carroça por estradas empedradas e difíceis. Enfim, que 2017 seja tudo de bom nas ideias e intenções.

Quero, contudo, um pouco mais das pessoas comuns. Desejo menos ódio, menos exibicionismo, menos dispositivos móveis e internet, menos pudor, menos desafeto, menos polemismo barato. Aspiro a mais paixão desenfreada, mais coragem, mais olho no olho, mais ética, mais viagens pelo país e pelo mundo, mais curvas à esquerda (com e sem caviar), mais rock, mais filmes cativantes, mais músicas emocionantes, mais gente sorrindo... Quero apenas que sejamos mais humanos, mais frágeis, mais imperfeitos, mais... gente.

As lutas serão necessárias. As batalhas serão incessantes. No fim - e até bem antes disso -, venceremos, se (e somente se) tivermos sido capazes de olhar para dentro muito antes de apontar dedos duros e implacáveis para tudo e todos que estejam fora.

Que 2017 seja o seu ano, meu caro e minha cara. Seja, portanto, nossa odisseia.

05 dezembro 2016

Grito


Há um grito
que prendo no peito
que impeço de viver.

Tenho medo
de não saber
o que fazer
com aquilo
que em mim
deseja explodir.

Há um grito
e um homem
e um menino
todos à espera
de amor
e uma pitada
de falta de juízo.

Não entendo
por que isso
tudo ocorre
comigo
contra mim
limitando
minha alma
sufocando
meu corpo
entristecendo
minhas tantas
paixões.

Há um grito
que quer cantar
que quer declamar
poesia
que sabe versar
prosas
que tem prazer
para dar
e aceita muitas
emoções
fantasias
tabus
searas proibidas.

Há um grito
um berro
um coração
desesperado
um homem
prostrado
um corpo
em chamas.

Há um grito
preso
exilado n'alma
que ninguém quer.

Há um grito
sem ninguém
para amá-lo
sem ninguém
para acalmá-lo.

Há um grito.
Eis-me aqui.