30 dezembro 2016

Amigos prováveis


Desestabiliza-me o tempo presente. Durmo e acordo tentando entender o que está acontecendo e quais eventos nos trouxeram com tanto ardor a esse abismo sob a ponta dos pés.

Preferencialmente, reflito sobre tudo isso dormindo.

Noite passada, sonhei com Walter Benjamin. Em lugar desconhecido (pela paisagem urbana, arrisco-me a dizer que vivíamos em algum ponto à margem do Mediterrâneo), a década era a de 1960. Benjamin morrera antes. Eu nasceria um pouco mais tarde. Como nos sonhos tudo é possível, encontramo-nos entre a morte e a vida, desenvolvendo uma cumplicidade que me fez mergulhar em sono profundo por mais de oito horas.

Benjamin e eu éramos adolescentes (outra artimanha do universo onírico). Acreditávamos, pois, que mudaríamos o mundo. Ouvíamos rock – um estilo que o Benjamin histórico não pôde conhecer – e brindávamos os dias escrevendo poesias, crônicas, contos e aforismos. Éramos metidos a besta.

Conversávamos sobre os acontecimentos políticos e culturais daqueles anos efervescentes e gloriosos. O decênio de 1960 quebrou tabus e dividiu tudo em duas partes mais ou menos iguais: uma, dos sonhadores incansáveis; outra, dos que se negavam a aprender com a imaginação e a potência dos devaneios utópicos. Ingênuos, jurávamos que o grupo dos primeiros era infinitamente maior e mais influente...

Benjamin, aquele que desapareceu em 1940, foi vencido pelos avós desses seres que não sabem sonhar. Eu, que vim ao mundo nos 70, sinto-me derrotado pelos seus netos. No sonho (no meu sonho), insistíamos na autocrítica e buscávamos uma maneira de escrever o futuro, o meu e o dele.

Quando acordei, olhei para a minha mesa de trabalho e vi os textos de Benjamin à minha espera, como de praxe. Foi só um sonho?