21 fevereiro 2017

As orelhas de "Coração de Benjamin"


Em A sociedade dos indivíduos (1939), o sociólogo alemão Norbert Elias (1897-1990) apresenta uma interessante metáfora sobre a complexa busca do conhecimento pelos seres humanos. Supondo que a vida social pudesse ser ilustrada pela imagem de um oceano, Elias revela dois tipos de intérpretes da realidade: o nadador e o aviador.

A vantagem do nadador é seu envolvimento direto com aquilo que pretende conhecer. Sente melhor a temperatura da água, observa sua coloração, seus movimentos e tudo que toca seu corpo imerso. Assim, o oceano lhe parece familiar e permite análises intuitivas e bastante particulares. O aviador, de outro modo, tem a seu favor a amplitude do cenário, as águas distantes, as porções de terra que formam praias e montanhas no horizonte. Juntos, nadador e aviador abordam a realidade de uma forma mais abrangente e dinâmica, reunindo o próximo e o distante, o particular e o universal.

Em Coração de Benjamin, Marco A. Rossi escreve como se estivesse mergulhado em águas profundas e, ao mesmo tempo, avistasse o planeta a bordo de uma moderna aeronave. Detém-se no presente, sente-se fisgado pelo passado e não teme enfrentar o futuro. Exercita, na melhor das tradições - sintetizando biografias especiais e histórias extraordinárias -, a boa e velha imaginação sociológica.

As crônicas que o(a) leitor(a) tem em mãos podem ser lidas de uma só vez, em ordem alfabética (como sugere o sumário), ou de forma aleatória, sem pressa nenhuma, num contato suave e generoso com preciosas reflexões e, acima de tudo, diante de uma beleza narrativa ímpar.


Marco Antonio Rossi nasceu na Vila Madalena, na capital paulista, em 1974. Mudou-se para Londrina em 1992. Foi aluno e hoje é professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL). Sociólogo por paixão, formação e convicção, foi cronista no rádio, coordenou uma pós-graduação em cinema, publicou dois livros de poesia (Nas ruas do mundo, em 2012, e Meu tempo, em 2015), ouve Pearl Jam, lê os escritores africanos de Língua Portuguesa, é torcedor encantado do Fluminense Football Club e curte os melhores momentos da vida ao lado de ideias, amigos e familiares. Coração de Benjamin é seu primeiro livro de crônicas.