10 abril 2017

Anonimato


Mergulhado em algumas gavetas da memória, recuperei cadernos em que registrava meus anseios, minhas paixões, os discos e os filmes que ouvia e via na adolescência. Aqueles anos teen revelam tanto sobre o que somos, apontando quais eram os caminhos a disposição no tempo em que a vida parecia infinita. Costumam ser, para a maioria das pessoas, tempos marcantes e inesquecíveis.

Uma das características dos "diários" e "caderninhos" de memória era sua inviolabilidade. Mantínhamos todos eles longe do olhar curioso de familiares e amigos. Eram nosso momento de solidão, reflexão, autocrítica (a coisa menos em moda atualmente). Na mais ousada das hipóteses, pedíamos aos céus que, no futuro, alguém pudesse resgatá-los no esquecimento e dá-los à luz, caso fôssemos merecedores de uma biografia pública.

Manter-se no anonimato, preservando a vida pessoal e lançando ao mundo somente os produtos do nosso trabalho artístico e intelectual, era o sonho da minha geração. Continua sendo, aliás.

Evito excessos no mundo virtual no tocante à vida particular. Procuro expor com cautela pensamentos, cenários e personagens da minha vida, da minha história. Facebook, por exemplo, não é "caderninho" de memória. Quando ideias vêm à lume antes de ser objeto de detida reflexão e autoanálise, jamais serão parte de nossa memória. Jamais.

Prefiro meus cadernos, folhas de papel sobre a mesa, livros e rabiscos a tudo que se expõe gratuitamente em redes sociais. No fundo, vivo lutando por um mundo cujos dias vindouros possam me acolher numa modesta casinha à beira mar, longe dessa insana necessidade que quase todo o mundo tem de aparecer sem ser.